O CARDE promove sua primeira grande renovação de exposição desde a abertura, incorporando novos veículos, obras de arte e peças de mobiliário histórico. A atualização amplia o olhar sobre a evolução da indústria automotiva, reunindo modelos de diferentes épocas e mostrando como tecnologia, design e sociedade caminham juntos.
O CARDE retomou suas atividades após um período de manutenção estrutural trazendo uma das mudanças mais significativas desde sua inauguração. A renovação do espaço não representa apenas uma troca de veículos expostos, mas uma ampliação da forma como a história automotiva é apresentada ao público.
A nova seleção inclui 21 automóveis, além de novas obras de arte e elementos de mobiliário, reforçando a proposta do museu de utilizar o automóvel como um elemento cultural capaz de contar transformações econômicas, sociais e tecnológicas ao longo do tempo.
A atualização da exposição também fortalece o posicionamento do CARDE como um espaço que vai além da coleção de veículos históricos. O museu passa a funcionar como uma conexão entre engenharia, comportamento, estética e memória, mostrando que cada automóvel representa uma época e uma determinada visão de mobilidade.
Entre os novos modelos incorporados estão veículos que marcaram diferentes momentos da indústria, desde soluções inovadoras da década de 1950 até esportivos e modelos nacionais que fazem parte do imaginário brasileiro das décadas de 1980 e 1990.
Um dos destaques técnicos da renovação é o Opel Lotus Omega 1992, um exemplo de como a engenharia europeia buscava extrair alto desempenho de sedãs convencionais. O modelo utilizava um motor seis cilindros em linha de 3,6 litros biturbo, com aproximadamente 377 cv, câmbio manual de seis marchas e aceleração de 0 a 100 km/h em cerca de cinco segundos.
O projeto do Lotus Omega mostra uma tendência que se tornou comum posteriormente: transformar veículos familiares em máquinas de alto desempenho. A preparação feita pela Lotus envolveu alterações no motor, suspensão, freios e aerodinâmica, criando um automóvel capaz de rivalizar com esportivos da época.
Outro representante da engenharia voltada às pistas é o Plymouth Road Runner Superbird 1970, um veículo desenvolvido originalmente para competições da NASCAR. Seu enorme aerofólio traseiro e a dianteira alongada não eram apenas elementos visuais, mas soluções aerodinâmicas desenvolvidas para aumentar a estabilidade em alta velocidade.
O Superbird utiliza um motor V8 440 Six-Barrel de aproximadamente 390 cv, mostrando uma fase da indústria norte-americana marcada por motores de grande cilindrada e elevado torque, antes das restrições ambientais que mudariam completamente o desenvolvimento dos veículos.
Na renovação também aparece o Cadillac Eldorado Biarritz 1959, símbolo do período em que o design automotivo era influenciado pela corrida espacial. Suas dimensões, cromados e elementos aerodinâmicos representam uma época em que o automóvel era também uma demonstração de tecnologia e status.
Com quase 5,71 metros de comprimento, o Cadillac revela uma filosofia oposta à atual busca por eficiência energética. Naquele período, o tamanho, a potência e o conforto eram prioridades, enquanto hoje a indústria trabalha com redução de peso, eletrificação e otimização aerodinâmica.
O Porsche 356 Speedster 1957 representa outra abordagem: eficiência por meio da leveza. Equipado com motor boxer traseiro de quatro cilindros refrigerado a ar, o modelo entregava cerca de 60 cv, mas compensava a potência limitada com baixo peso e comportamento dinâmico.
Essa filosofia de projeto continua presente nos esportivos modernos. A redução de massa permanece uma das estratégias mais eficientes para melhorar desempenho, consumo e dirigibilidade, especialmente em veículos eletrificados, onde cada quilograma influencia diretamente a autonomia.
Também integra o novo acervo o Lancia Aurelia B52 B Junior Coupé 1952, um modelo histórico pela adoção do motor V6 em produção seriada, uma solução técnica avançada para sua época e que ajudou a consolidar a marca italiana como referência em inovação.
Além dos clássicos internacionais, a renovação valoriza modelos nacionais das décadas de 1980 e 1990, período marcado por uma forte relação emocional dos brasileiros com automóveis que fizeram parte do cotidiano e da cultura popular.
A presença de veículos como Passat Pointer, Chevrolet Kadett, Opala Diplomata, Corsa GSi e Fiat Tempra Turbo reforça uma mudança importante na visão sobre preservação automotiva: modelos populares ou esportivos nacionais também podem representar capítulos relevantes da engenharia brasileira.
Essa abordagem aproxima o visitante da história industrial do país, mostrando que a evolução automotiva não acontece apenas nos veículos de luxo, mas também nos modelos que ajudaram a formar hábitos de mobilidade.
A renovação do CARDE acompanha uma tendência mundial dos museus automotivos: deixar de apresentar apenas objetos estáticos e criar experiências que expliquem por que aquele veículo existiu, quais tecnologias utilizava e qual impacto causou.
O automóvel passou a ser interpretado como um documento tecnológico. Um motor, uma suspensão, um sistema de transmissão ou uma solução aerodinâmica contam tanto sobre engenharia quanto sobre o período histórico em que foram desenvolvidos.
Comentário editorial — Tarcisio Dias, Editor do Mecânica Online® – A renovação do CARDE mostra uma evolução importante na forma de preservar a história automotiva. O valor de um veículo clássico não está apenas na raridade ou no preço de mercado, mas na capacidade de representar uma solução técnica, uma necessidade do consumidor e um momento específico da indústria. Museus desse tipo ajudam a explicar a engenharia por trás do automóvel, aproximando tecnologia e cultura.
Para acompanhar os bastidores do desenvolvimento automotivo e análises exclusivas do setor, siga @tarcisiomecanicaonline nas redes sociais.
A atualização também ocorre em um momento de crescimento do interesse pelo antigomobilismo brasileiro, que passa a enxergar veículos históricos não apenas como itens colecionáveis, mas como patrimônio cultural e tecnológico.
A preservação desses modelos também permite compreender a transformação atual da indústria, que migra de motores de combustão para sistemas híbridos e elétricos, mas continua utilizando conceitos desenvolvidos ao longo de décadas de evolução mecânica.
O CARDE demonstra que a história automotiva não é formada apenas por lançamentos recentes. Cada geração de veículos representa uma etapa da busca por mais desempenho, segurança, conforto, eficiência e novas formas de interação entre motorista e máquina.
A renovação da exposição amplia o papel do museu dentro do cenário automotivo nacional e reforça uma tendência: quanto mais rápida é a transformação tecnológica, maior se torna a importância de preservar as referências que construíram a mobilidade atual.
• 21 novos automóveis incorporados ao acervo
• Modelos históricos entre 1952 e 1990
• Opel Lotus Omega com motor 3.6 biturbo de 377 cv
• Plymouth Superbird desenvolvido para competições NASCAR
• Cadillac Eldorado Biarritz 1959 com motor V8 6.4 litros
• Porsche 356 Speedster com motor boxer traseiro refrigerado a ar
• Lancia Aurelia com pioneirismo do motor V6 em produção seriada
• Ampliação do acervo de arte e mobiliário histórico brasileiro
Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende
Aerodinâmica – Estudo do comportamento do ar ao redor do veículo, utilizado para reduzir resistência, melhorar estabilidade e aumentar eficiência.
Motor boxer – Configuração em que os cilindros ficam opostos horizontalmente, proporcionando baixo centro de gravidade e melhor equilíbrio dinâmico.
Torque – Força de rotação produzida pelo motor, responsável pela capacidade de acelerar e movimentar o veículo, especialmente em baixas rotações.

