O futuro do automóvel não deverá ser definido simplesmente pela troca do motor a combustão pelo elétrico. Diferentes sistemas de propulsão, software, inteligência artificial, novos materiais e combustíveis renováveis avançam simultaneamente — e os veículos que incorporam essas tecnologias permanecerão nas ruas por muitos anos. Para a indústria de autopeças e o mercado de reposição, essa diversidade cria um problema tão importante quanto desenvolver novas soluções: garantir a peça correta para uma frota que ficará cada vez menos uniforme.
A transformação da indústria automotiva está criando um cenário no qual diferentes tecnologias precisam ser desenvolvidas, industrializadas e mantidas simultaneamente.
Essa foi uma das principais discussões apresentadas pela MAHLE durante o ABX26, realizado em 1º de outubro, com a participação de executivos das áreas de gestão, aftermarket e pesquisa e desenvolvimento da companhia.
A perspectiva apresentada pela empresa é de complementaridade.
Eletrificação, software, inteligência artificial, novos materiais e combustíveis renováveis não necessariamente avançam como alternativas excludentes. Passam a compor diferentes combinações de produtos conforme mercado, aplicação e condições econômicas.
E essa multiplicação de soluções produz consequências que chegam muito além das fábricas de automóveis.
Transformação vai além da eletrificação
Para Eduardo Spilla, CEO da MAHLE Metal Leve, a mudança tecnológica precisa ser analisada de maneira mais ampla.
“A transformação da indústria automotiva vai muito além da eletrificação. Software, inteligência artificial, novos materiais e combustíveis renováveis passam a fazer parte de uma mesma equação”, afirma.
Nesse cenário, desenvolver uma tecnologia isoladamente não basta.
O desafio passa por integrar diferentes competências e conseguir transformar desenvolvimento tecnológico em produto industrialmente viável e competitivo.
Isso reforça também a importância da relação entre hardware e software.
Componentes mecânicos continuam presentes, mas passam a trabalhar cada vez mais conectados com gerenciamento eletrônico, sensores, algoritmos e sistemas digitais.
A evolução do automóvel, portanto, não elimina necessariamente a mecânica tradicional de uma só vez. Ela acrescenta novas camadas de complexidade.
Mais tecnologias significam mais peças diferentes
Essa transformação aparece de maneira particularmente clara no aftermarket.
O mercado de reposição precisa atender não somente aos carros que estão chegando agora às concessionárias, mas a diferentes gerações de veículos que continuam circulando simultaneamente.
Um automóvel novo pode utilizar eletrificação, gerenciamento eletrônico mais sofisticado e novos componentes. Ao mesmo tempo, milhões de veículos de gerações anteriores continuam precisando de manutenção e peças.
Na avaliação de Evandro Tozati, diretor de Aftermarket da MAHLE para a América do Sul, essa diversificação muda os requisitos de competitividade.
“Nesse ambiente, a competitividade deixa de depender apenas de escala. Ela passa a exigir também a diversificação do portfólio, disponibilidade de produtos e maior integração entre fabricantes, distribuidores e pontos de venda”, afirma.
O problema pode ser resumido em uma pergunta conhecida por qualquer oficina: como ter a peça certa disponível para o carro certo no momento em que ela é necessária?
Quanto mais configurações existem, mais difícil fica responder.
Estoque vira problema de dados e logística
Um portfólio maior não significa que distribuidores e lojas possam simplesmente multiplicar seus estoques indefinidamente.
Isso elevaria capital imobilizado, espaço necessário e risco de manter componentes com pouca saída.
A alternativa passa por prever melhor a demanda e aumentar a integração entre fabricantes, distribuidores, varejistas e demais pontos da cadeia.
“É preciso equilibrar uma quantidade crescente de aplicações com níveis adequados de estoque e eficiência logística, para que a peça correta esteja disponível no momento que o mercado demanda”, explica Tozati.
Nesse sentido, digitalização também transforma a reposição.
Quanto maior a capacidade de identificar corretamente o veículo, compreender sua configuração e antecipar o comportamento da demanda, maior a possibilidade de administrar um catálogo crescente sem transformar cada ponto de venda em um enorme depósito.
A complexidade tecnológica do automóvel, portanto, começa a exigir mais inteligência também de quem fornece sua manutenção.
Elétrico não significa fim imediato das peças para combustão
A coexistência tecnológica cria ainda uma característica particular para fornecedores.
Mesmo com o crescimento da eletrificação, veículos a combustão e híbridos continuam exigindo componentes relacionados aos motores térmicos.
Ao mesmo tempo, novas arquiteturas criam demandas diferentes.
Para a indústria de componentes, isso significa administrar tecnologias maduras e novas tecnologias paralelamente, em vez de simplesmente substituir uma linha de produtos pela seguinte.
O desafio fica ainda maior quando diferentes mercados avançam em velocidades distintas.
Uma solução adequada para determinado país pode não ser a melhor escolha para outro.
É nesse ponto que o Brasil ganha uma característica própria.
Brasil pode combinar eletrificação e biocombustíveis
Durante o painel dedicado a híbridos flex, etanol e eletrificação, Everton Lopes, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da MAHLE na América do Sul, destacou o potencial brasileiro para combinar diferentes rotas de redução de carbono.
“O Brasil reúne condições muito particulares para avançar na descarbonização da mobilidade. O conhecimento acumulado no uso de biocombustíveis, a infraestrutura já existente e o perfil da nossa matriz energética criam oportunidades para combinar eletrificação e combustíveis renováveis de forma competitiva”, afirma.
A abordagem apresentada não coloca etanol e eletrificação obrigatoriamente em lados opostos.
Sistemas híbridos podem combinar propulsão elétrica e motores a combustão, enquanto combustíveis renováveis podem participar da redução da pegada de carbono associada à utilização desses motores.
Isso também significa que a transição brasileira pode apresentar características diferentes daquelas observadas em mercados nos quais os biocombustíveis possuem participação menor.
Engenharia local ganha importância
Quanto maior a diversidade de soluções, mais relevante se torna adaptar a tecnologia às condições reais de cada mercado.
Isso envolve combustível disponível, matriz energética, infraestrutura, custo, utilização dos veículos e capacidade industrial.
Na visão apresentada pela MAHLE, engenharia local e capacidade de industrialização passam a ter papel importante justamente porque inovação precisa deixar o laboratório e chegar ao mercado em escala economicamente viável.
Lopes também destacou a importância de um ambiente regulatório previsível para permitir investimentos de longo prazo.
Para fornecedores, decisões sobre fábricas, desenvolvimento de componentes e novas linhas de produto normalmente precisam ser tomadas muito antes de o veículo chegar às ruas.
E quando esse veículo finalmente entra em circulação, começa outra etapa.
Ele precisará ser mantido durante muitos anos.
A oficina do futuro terá de conhecer vários passados
Talvez essa seja uma das consequências menos discutidas da transformação tecnológica.
A oficina não receberá apenas os veículos mais modernos.
Ela continuará atendendo automóveis antigos ao mesmo tempo em que chegam híbridos, elétricos, motores flex de novas gerações e veículos cada vez mais dependentes de eletrônica e software.
Isso exige evolução de diagnóstico, ferramental, informação técnica e capacitação.
Não significa que conhecimento mecânico deixe de ser necessário.
Ao contrário: a dificuldade estará em combinar esse conhecimento com eletricidade, eletrônica, diagnóstico digital e compreensão de diferentes arquiteturas de propulsão.
O mesmo raciocínio vale para fabricantes de componentes, distribuidores e varejistas.
A transformação do automóvel não cria apenas um carro tecnologicamente diferente.
Cria uma frota muito mais heterogênea.
E será preciso mantê-la funcionando.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Existe uma tendência de discutir o futuro do automóvel procurando um vencedor: elétrico ou combustão, bateria ou biocombustível, hardware ou software.
A realidade apresentada pela MAHLE no ABX26 aponta para um cenário bem mais complexo.
Essas tecnologias podem conviver durante muito tempo.
E, para o aftermarket, isso talvez seja mais desafiador do que uma substituição rápida e completa.
Se toda a frota migrasse para uma única arquitetura, bastaria preparar a cadeia para o novo padrão. Mas não é isso que acontece.
Uma oficina poderá receber pela manhã um automóvel a combustão com muitos anos de uso, depois um híbrido flex e, em seguida, um elétrico.
O distribuidor precisa fornecer componentes para todos eles.
E o fabricante de autopeças precisa decidir quais referências produzir, em qual quantidade e por quanto tempo mantê-las disponíveis.
Software e inteligência de dados também entram nessa história. Não apenas dentro do carro, mas na capacidade de identificar aplicações, prever demanda e colocar a peça correta no lugar certo.
A mecânica não desaparece com a digitalização.
Ela fica mais diversificada e mais dependente de conhecimento interdisciplinar.
Para o Brasil, a presença dos biocombustíveis acrescenta outra camada interessante. Podemos ter eletrificação avançando sem necessariamente abandonar rapidamente motores térmicos, principalmente quando diferentes tecnologias podem ser combinadas.
A grande transformação talvez não seja simplesmente trocar uma tecnologia por outra.
Será aprender a fabricar, diagnosticar, reparar e abastecer várias delas ao mesmo tempo.
Para acompanhar aftermarket, oficinas e as tecnologias que estão transformando a manutenção automotiva, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- Transformação simultânea – Eletrificação, software, inteligência artificial, materiais e combustíveis renováveis avançam em paralelo e ampliam as combinações possíveis nos veículos.
- Aftermarket mais complexo – Quanto maior o número de modelos, tecnologias e configurações, maior a quantidade de aplicações que a cadeia de reposição precisa administrar.
- Estoque não pode crescer indefinidamente – Diversificação exige melhorar previsão de demanda, logística e integração entre fabricantes, distribuidores e pontos de venda.
- Hardware e software convergem – Componentes físicos passam a operar cada vez mais integrados ao gerenciamento eletrônico e aos sistemas digitais do veículo.
- Brasil tem uma combinação particular – A perspectiva apresentada pela MAHLE considera eletrificação e biocombustíveis como soluções que podem atuar de maneira complementar na descarbonização.
- Oficina também precisa mudar – A coexistência de diferentes gerações tecnológicas amplia a necessidade de capacitação, diagnóstico e conhecimento sobre múltiplas arquiteturas.
Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende
- Aftermarket – Mercado que atende o veículo depois da venda, envolvendo peças de reposição, distribuição, varejo, manutenção e serviços.
- Hardware – Parte física dos sistemas automotivos, incluindo componentes mecânicos, elétricos e eletrônicos que executam as funções do veículo.
- Software automotivo – Programas e algoritmos utilizados para controlar, integrar e monitorar funções do automóvel, trabalhando em conjunto com sensores, atuadores e módulos eletrônicos.
- Híbrido flex – Arquitetura que combina propulsão eletrificada com motor a combustão preparado para utilizar as misturas de gasolina e etanol previstas para esse tipo de veículo.

