Imagine dirigir um carro elétrico por uma rodovia e recuperar energia da bateria sem precisar parar em um carregador. Essa é uma das tecnologias apresentadas pela Honda durante a Japan Mobility Show Bizweek 2026 e a CEATEC 2026, realizadas no Japão. A fabricante revelou avanços em carregamento dinâmico sem fio, sistemas de inteligência artificial capazes de antecipar riscos no trânsito, robôs controlados remotamente e experiências imersivas de mobilidade. O destaque é a tecnologia DWPT, que utiliza acoplamento magnético para transferir eletricidade da infraestrutura rodoviária diretamente ao veículo em movimento. Os testes de demonstração em vias públicas estão previstos para começar no ano fiscal japonês de 2027, inicialmente com foco em aplicações de logística e transporte.
Honda quer transformar rodovias em sistemas de carregamento para veículos elétricos
A Honda Motor e a Honda R&D apresentaram um conjunto de tecnologias voltadas ao futuro da mobilidade durante dois eventos realizados simultaneamente no Makuhari Messe, na província de Chiba, no Japão.
O principal destaque é o desenvolvimento de um sistema capaz de transferir energia elétrica para veículos enquanto eles trafegam pela via, reduzindo a dependência de paradas em estações convencionais de recarga.
A tecnologia, denominada DWPT (Dynamic Wireless Power Transfer), foi desenvolvida em parceria com a Taisei Corporation e a Taisei Rotec Corporation. A Honda participa com os sistemas de transmissão e recepção de alta densidade de potência, enquanto as parceiras contribuem com o fornecimento elétrico e a integração dos equipamentos à infraestrutura rodoviária.
Como funciona o carregamento sem fio com o carro em movimento?
O sistema utiliza o princípio do acoplamento magnético, no qual a energia é transferida entre dispositivos sem necessidade de uma conexão física direta por cabos.
A infraestrutura instalada no pavimento incorpora unidades transmissoras que produzem um campo magnético variável. Quando o veículo equipado com um receptor compatível passa sobre a área energizada, esse campo permite induzir energia elétrica no sistema receptor, que a processa para utilização no veículo.
A Honda desenvolveu unidades de alta densidade de potência, enquanto a Taisei contribuiu com um sistema de alimentação em corrente contínua de resposta rápida. Já a Taisei Rotec trabalha na incorporação dos componentes à superfície da estrada, aspecto fundamental para garantir resistência às solicitações mecânicas e ambientais.
O objetivo é permitir que a bateria receba energia durante parte do trajeto, contribuindo para reduzir a frequência de recargas estacionárias. Entretanto, a eficiência depende de fatores como alinhamento entre transmissor e receptor, distância entre os componentes e condições de operação.
Testes em vias públicas começam no ano fiscal de 2027
As três empresas planejam iniciar os testes demonstrativos em vias públicas a partir do ano fiscal japonês de 2027, que começa em 1º de abril daquele ano.
As avaliações deverão investigar a eficiência da transferência de energia, os procedimentos de instalação, a segurança eletromagnética e a durabilidade dos equipamentos incorporados ao pavimento. Também será necessário verificar como o sistema se comporta diante das condições reais de utilização das estradas.
A Honda pretende desenvolver a tecnologia para diferentes aplicações, desde automóveis elétricos de passeio até veículos comerciais pesados. A prioridade inicial, entretanto, está nos setores de logística e transporte, nos quais reduzir períodos de parada para recarga pode trazer benefícios operacionais.
A fabricante ainda não divulgou potência nominal de transferência, eficiência medida, custo de implantação, extensão das pistas experimentais ou calendário de comercialização. Portanto, trata-se de uma tecnologia em desenvolvimento, e não de uma solução disponível atualmente aos consumidores.
Carregamento dinâmico pode mudar a engenharia dos veículos elétricos
Uma das possibilidades associadas ao carregamento em movimento é reduzir a necessidade de transportar grandes quantidades de energia exclusivamente na bateria.
Em determinadas operações, a disponibilidade de trechos rodoviários eletrificados poderia permitir o uso de baterias dimensionadas considerando a recarga durante o percurso. Isso, porém, dependeria da cobertura da infraestrutura e das necessidades energéticas de cada veículo.
A tecnologia também apresenta desafios. Em um caminhão elétrico, por exemplo, o consumo durante deslocamentos com carga elevada pode exigir potências significativas de transferência, além de controle eletrônico preciso para coordenar alimentação externa, bateria e propulsão.
Outro ponto essencial será garantir que os sistemas permaneçam seguros e confiáveis diante de chuva, variações de temperatura, desgaste do pavimento e circulação contínua de veículos. A aplicação em grande escala dependerá tanto da evolução dos equipamentos embarcados quanto dos investimentos necessários nas rodovias.
Inteligência artificial da Honda pretende antecipar acidentes
Na CEATEC 2026, a Honda também apresentou um aplicativo de assistência à condução baseado na tecnologia Honda CI (Cooperative Intelligence), desenvolvida para interpretar situações de trânsito e identificar potenciais riscos.
O sistema combina smartphone, câmera instalada posteriormente no veículo e processamento por inteligência artificial, permitindo identificar outros usuários próximos e avaliar situações de perigo à frente.
Quando reconhece um risco, a tecnologia emite alertas visuais e sonoros, levando em consideração sua direção e gravidade. A proposta é auxiliar motoristas e motociclistas a perceberem situações perigosas antes que uma colisão aconteça.
Um dos diferenciais está na possibilidade de aplicar a solução também em automóveis e motocicletas já comercializados, em vez de restringir sua utilização a veículos novos com sistemas eletrônicos específicos de fábrica.
A iniciativa faz parte da meta da Honda de alcançar zero fatalidades em acidentes de trânsito envolvendo seus automóveis e motocicletas em todo o mundo até 2050. A fabricante não confirmou quando o aplicativo estará disponível comercialmente.
Robô Avatar permite realizar tarefas sem estar fisicamente presente
A Honda também apresentou a evolução do Avatar Robot, conceito de robô projetado para atuar como uma extensão física de uma pessoa que está em outro local.
O projeto combina uma mão robótica com múltiplos dedos, desenvolvida para executar movimentos de manipulação, e um sistema de assistência por inteligência artificial que apoia o operador durante as tarefas.
A proposta é permitir que o usuário realize atividades que exigem destreza, aplicação de força e interação com objetos, mesmo sem estar presencialmente no ambiente.
Entre as possíveis aplicações estão saúde, manutenção de instalações, atendimento a desastres e atividades espaciais. Entretanto, essas utilizações representam objetivos de desenvolvimento, não serviços comerciais já confirmados.
Honda DIVE cria experiência de viagem compartilhada por realidade virtual
Outra novidade é o Honda DIVE, tecnologia de realidade virtual desenvolvida para conectar pessoas que estão dentro e fora de um veículo.
Utilizando óculos de realidade virtual, participantes remotos podem experimentar a sensação de estar na cabine, observando o ambiente externo por meio de uma visualização imersiva de 360 graus.
A experiência permite compartilhar conversas e músicas, aproximando virtualmente pessoas que estão fisicamente distantes.
A Honda destaca aplicações para familiares, amigos e pessoas com limitações de mobilidade, oferecendo uma forma alternativa de participar de experiências de viagem.
O sistema explora uma dimensão diferente da mobilidade: a possibilidade de compartilhar a experiência do deslocamento sem necessariamente realizar o mesmo percurso fisicamente.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Entre as tecnologias apresentadas pela Honda, o carregamento dinâmico sem fio merece atenção especial pelo potencial de modificar a relação entre autonomia dos veículos elétricos, capacidade das baterias e infraestrutura de transporte.
Atualmente, o dimensionamento da bateria considera a energia necessária para percorrer determinada distância entre recargas. Com a transferência de energia durante o deslocamento, parte dessa necessidade poderia ser atendida pela própria rodovia. Entretanto, essa possibilidade dependeria de infraestrutura disponível, potência de transferência e eficiência energética do conjunto.
Do ponto de vista físico, a tecnologia utiliza indução eletromagnética, princípio conhecido e empregado em diferentes sistemas de carregamento sem fio. O desafio está em transferir potências adequadas para veículos em movimento, mantendo segurança e desempenho mesmo com variações de posição entre os componentes.
Outro aspecto é a infraestrutura. A instalação de transmissores no pavimento exige atenção à durabilidade, manutenção, proteção elétrica e resistência às cargas produzidas pelo tráfego. Em rodovias utilizadas por caminhões pesados, essas exigências tornam-se ainda mais relevantes.
A aplicação inicial no transporte de cargas é tecnicamente interessante porque rotas recorrentes e operações programadas podem facilitar a escolha dos trechos a serem eletrificados. Entretanto, o benefício econômico dependerá de estudos que comparem os custos da infraestrutura com alternativas como carregamento convencional de alta potência.
No campo da segurança, o aplicativo baseado em Honda CI também merece destaque. A possibilidade de acrescentar alertas inteligentes a veículos já existentes pode ampliar o alcance de determinados recursos de assistência. Contudo, a confiabilidade dependerá da qualidade das imagens, do processamento dos dados e da capacidade de evitar alertas incorretos ou tardios.
Já o Avatar Robot e o Honda DIVE mostram que a fabricante está explorando aplicações da inteligência artificial e da realidade virtual além do automóvel. São projetos com propostas distintas, mas que compartilham a intenção de ampliar a capacidade humana de interagir com ambientes e realizar atividades à distância.
A principal transformação apresentada pela Honda está na combinação entre infraestrutura inteligente, eletrônica embarcada e inteligência artificial. No caso do carregamento em movimento, o desafio será demonstrar que a tecnologia consegue oferecer potência, eficiência, durabilidade e custo compatíveis com uma aplicação rodoviária em larga escala.
Para acompanhar Honda, veículos elétricos, carregamento sem fio, inteligência artificial e novas tecnologias de mobilidade, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- DWPT – Tecnologia de transferência dinâmica de energia sem fio que permite carregar veículos elétricos durante o deslocamento.
- Ano fiscal de 2027 – Período previsto para o início dos testes demonstrativos em vias públicas, a partir de abril de 2027.
- Taisei e Taisei Rotec – Empresas que colaboram com a Honda no sistema de alimentação elétrica e na integração dos equipamentos às rodovias.
- Honda CI – Tecnologia de inteligência cooperativa utilizada para interpretar situações de trânsito e identificar riscos potenciais.
- Avatar Robot – Robô desenvolvido para permitir a realização remota de tarefas físicas com assistência de inteligência artificial.
- Honda DIVE – Sistema de realidade virtual que permite compartilhar experiências de viagem entre pessoas em diferentes locais.
Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende
- Indução eletromagnética – Fenômeno físico pelo qual a variação de um campo magnético pode produzir tensão elétrica em um circuito receptor.
- Carregamento dinâmico sem fio – Transferência de energia para um veículo elétrico enquanto ele se desloca sobre infraestrutura compatível.
- Inteligência Cooperativa – Abordagem de inteligência artificial desenvolvida pela Honda para interpretar ambientes e apoiar a interação com pessoas e situações de mobilidade.
- Realidade virtual imersiva – Tecnologia que utiliza representações digitais e dispositivos de visualização para criar a sensação de presença em um ambiente virtual.

