A Faixa Azul, sinalização que delimita corredores preferenciais para motos entre faixas de tráfego, foi associada a um aumento médio de 100% a 120% nas mortes de motociclistas em cruzamentos na capital paulista. O dado faz parte de um estudo independente conduzido pela USP, UFC e Instituto Cordial, em parceria com a organização global Vital Strategies.
Segundo o levantamento, a medida elevou significativamente a velocidade média dos motociclistas. Em vias com Faixa Azul, a velocidade saltou de 58,3 km/h para 72,2 km/h, com 96% dos condutores acima de 50 km/h e 81% acima de 60 km/h. O efeito de “pista livre” foi identificado como fator que intensifica os riscos nos cruzamentos.
O Brasil registrou 36.403 mortes no trânsito em 2024, quinto aumento consecutivo desde 2019. Desse total, 14.994 eram motociclistas, alta de mais de 10% em relação a 2023. Em São Paulo, foram 1.029 mortes, das quais 46,7% de ocupantes de veículos de duas rodas.
Criada em 2022 como projeto-piloto, a Faixa Azul já soma mais de 200 km de extensão na capital e vem sendo replicada em cidades como Rio de Janeiro, Fortaleza, Salvador, Porto Alegre e Belo Horizonte. A expansão ocorre sem evidências científicas de redução de fatalidades, enquanto a SENATRAN aguarda estudos técnicos para decidir sobre regulamentação nacional.
Para os pesquisadores, a sensação de conforto relatada por motociclistas nas faixas gera uma falsa percepção de segurança, estimulando velocidades mais altas. O resultado é maior gravidade nos acidentes, especialmente em cruzamentos.
O relatório recomenda cautela e sugere que a expansão seja condicionada a protocolos de segurança, com gestão ativa de velocidade, fiscalização rigorosa e redesenho viário. A proposta segue princípios da Visão Zero, que defende sistemas capazes de perdoar erros humanos e reduzir fatalidades.
O impacto econômico também é relevante. Segundo o Banco Mundial, os sinistros de trânsito custam ao Brasil US$ 61,3 bilhões por ano, o equivalente a 3,8% do PIB. Dados da Abramet mostram que o SUS registrou uma internação por acidente de trânsito a cada dois minutos em 2024, totalizando mais de 227 mil admissões hospitalares.
“Com base nas evidências disponíveis, a Faixa Azul não se qualifica atualmente como política de segurança viária, e sua expansão não é recomendada”, conclui o relatório.
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Faixa Azul: Sinalização que delimita corredor preferencial para motos entre faixas de tráfego.
Visão Zero: Estratégia global de segurança viária que busca eliminar mortes e ferimentos graves no trânsito, projetando sistemas que tolerem erros humanos.
Diferença‑nas‑Diferenças: Método estatístico usado para comparar grupos de controle e intervenção, isolando o efeito de uma política pública.
