A BYD está novamente no centro de uma crise ética global após denúncias de condições análogas à escravidão nas obras de sua nova fábrica em Szeged, na Hungria. A investigação conduzida pela China Labor Watch (CLW) aponta irregularidades severas, como jornadas de até 14 horas sem descanso semanal, retenção de salários por até três meses e fraude em vistos de trabalho. O caso apresenta uma conexão direta com o Brasil: a empreiteira envolvida, Jinjiang, é a mesma que levou a montadora a firmar um acordo de R$ 40 milhões com o Ministério Público do Trabalho (MPT) em Camaçari, Bahia, sob acusações similares de violações de direitos humanos e retenção de passaportes.
As irregularidades na Hungria incluem relatos de jornadas exaustivas e instruções explícitas para que os operários mintam a inspetores do trabalho sobre suas condições reais.
O sistema de servidão por dívida foi identificado, com taxas abusivas de recrutamento e o pagamento final condicionado ao retorno do trabalhador à China.
A fraude de vistos comerciais para fins de trabalho operacional deixa os funcionários em extrema vulnerabilidade jurídica e sem acesso a serviços de saúde básicos na Europa.
A morte de um trabalhador no canteiro de obras em fevereiro serviu como estopim crítico para a intensificação das investigações internacionais sobre a segurança no local.
A conexão técnica entre os casos húngaro e brasileiro reside na atuação da empreiteira Jinjiang, que opera sob diferentes nomes jurídicos para evitar rastreios regulatórios.
No episódio de Camaçari, a BYD foi responsabilizada solidariamente por condições que incluíam a retenção de até 60% dos salários de trabalhadores estrangeiros.
Entidades de direitos humanos argumentam que a cadeia de subcontratação é uma estratégia deliberada para diluir a responsabilidade legal direta da montadora principal.
A BYD, por sua vez, mantém o posicionamento de atribuir as falhas exclusivamente às empresas terceirizadas, embora as obras ocorram em suas propriedades privadas.
A fábrica de Szeged é um projeto estratégico para a marca, com capacidade planejada para produzir 300 mil veículos elétricos por ano para o mercado europeu.
A análise técnica da CLW sugere que a redução de custos operacionais nas obras é obtida através da compressão de direitos fundamentais da mão de obra chinesa deslocada.
A repetição do padrão observado na Bahia acende um alerta sobre o compliance internacional da marca em suas expansões globais aceleradas fora da Ásia.
Para o setor automotivo, o impacto reputacional pode afetar a imagem de ESG (Ambiental, Social e Governança), um pilar fundamental para investidores de veículos elétricos.
O caso reforça a importância da fiscalização rigorosa em grandes obras de infraestrutura automotiva, onde a celeridade do cronograma muitas vezes ignora protocolos de segurança.
A pressão internacional pode levar a sanções comerciais na União Europeia, onde as leis contra o trabalho forçado na cadeia de suprimentos tornaram-se mais rígidas recentemente.
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Resumo técnico em pontos-chave:
• Localização: Fábrica em Szeged, Hungria (Capacidade: 300 mil carros/ano).
• Padrão: Repetição das irregularidades detectadas em Camaçari, Bahia.
• Envolvida: Empreiteira Jinjiang (Construction Hungary KFT).
• Violações: Retenção de salários, fraude de vistos e jornadas de 14 horas.
• Precedente: Acordo de R$ 40 milhões firmado com o MPT no Brasil.
• Status: Investigação em curso pela organização China Labor Watch (CLW).
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Condição Análoga à Escravidão é a submissão de trabalhadores a trabalhos forçados, jornadas exaustivas, condições degradantes de trabalho ou restrição de locomoção por dívida.
Responsabilidade Solidária é o conceito jurídico onde a empresa contratante (BYD) responde legalmente pelas infrações cometidas por suas subcontratadas dentro de sua esfera de influência.
Compliance ESG refere-se ao conjunto de práticas que garantem que uma empresa respeite critérios de proteção ambiental, responsabilidade social e governança ética em todos os seus processos.

