A Stellantis acelerou seus planos para a América do Sul com o anúncio de R$ 32 bilhões em investimentos até 2030, o maior aporte da história do setor na região. Durante visita ao Brasil, o CEO Global Antonio Filosa celebrou a marca de 1 milhão de veículos vendidos no continente em 2025 e confirmou que, em 2026, o Polo Automotivo de Goiana (PE) iniciará a produção dos SUVs Leapmotor B10 e C10. Além disso, a empresa desenvolve no país a primeira tecnologia REEV Flex do mundo, unindo a eficiência do extensor de autonomia elétrico com a versatilidade do etanol.
O compromisso da Stellantis com o Brasil reflete a saúde operacional da região, que hoje responde por 20% do resultado global do grupo. Filosa destacou que o crescimento contínuo e a rentabilidade sul-americana permitem à companhia oferecer “liberdade de escolha”, investindo simultaneamente em motores a combustão eficientes e em eletrificação adaptada à realidade local.
Em 2026, a ofensiva de produtos será intensa. Dos 16 novos lançamentos planejados, o destaque absoluto recai sobre a tecnologia Bio-Hybrid. Estão confirmadas versões híbridas-leves (MHEV 48V) para modelos de alto volume produzidos em Pernambuco, como o Fiat Toro e os Jeep Compass, Commander e Renegade. Este sistema utiliza o motor 1.3 Turbo Flex (T270) acoplado a um motor elétrico que auxilia no torque e na economia de combustível.
A grande inovação tecnológica, no entanto, é o sistema REEV Flex (Range Extended Electric Vehicle). Diferente de um híbrido convencional, no REEV o motor a combustão funciona exclusivamente como um gerador para carregar as baterias, sem tracionar as rodas. A engenharia brasileira da Stellantis está adaptando esse conceito para aceitar etanol, criando uma solução de baixo carbono única no planeta, que será aplicada nos modelos nacionais da Leapmotor.
A análise de mercado indica que a nacionalização da Leapmotor no Polo de Goiana é um movimento estratégico para enfrentar a concorrência chinesa direta, como BYD e GWM. Ao produzir o B10 e o C10 no Brasil, a Stellantis dribla as alíquotas de importação e utiliza sua gigantesca rede de distribuição e peças (incluindo a recente aquisição da DPaschoal) para garantir capilaridade e pós-venda superior.
No segmento de entrada, a renovação também é forte. O inédito Jeep Avenger será produzido em Porto Real (RJ) em 2026, posicionando-se como o modelo mais acessível da marca no país. Ele deve utilizar a plataforma dos novos Citroën C3 e C3 AirCross, equipada com o motor 1.0 Turbo Flex e tecnologia híbrida de 12V, visando eficiência energética e isenções fiscais de programas como o Mover.
A dirigibilidade desses novos modelos eletrificados promete manter o torque imediato característico dos elétricos, mas com a segurança da autonomia estendida pelo motor flex. É o “melhor de dois mundos” para o consumidor brasileiro que ainda enfrenta desafios de infraestrutura de recarga em viagens longas, especialmente fora do eixo Rio-São Paulo.
Filosa também fez um apelo pela equalização competitiva no mercado nacional. Ele defende que a indústria automotiva brasileira e sua cadeia de fornecedores precisam de mecanismos que estimulem uma competição justa, especialmente diante da entrada agressiva de novos players internacionais que operam com diferentes estruturas de custos e incentivos.
A sustentabilidade do plano de R$ 32 bilhões (sendo R$ 30 bilhões destinados especificamente ao Brasil) está ancorada na descarbonização. A Stellantis aposta no etanol como o combustível da transição, usando a tecnologia Bio-Hybrid para criar veículos que emitem menos CO₂ no ciclo “poço à roda” do que muitos elétricos puros que utilizam energia de matrizes fósseis em outros países.
A expansão do Polo de Goiana para receber a Leapmotor — que inclusive já anunciou patrocínio ao Palmeiras para ganhar visibilidade — marca a transformação de Pernambuco em um hub tecnológico de exportação. O objetivo é que os veículos desenvolvidos aqui, com tecnologia flex-híbrida, atendam não apenas ao mercado interno, mas também a outros países da América Latina e mercados emergentes.
Para o consumidor, o cenário de 2026 será de abundância de opções. Desde o Fiat Grande Panda (novo hatch compacto que chega para brigar no volume) até os luxuosos SUVs da Ram e Jeep eletrificados, o portfólio da Stellantis busca cobrir todas as faixas de preço, democratizando o acesso a tecnologias de assistência à condução (ADAS) e conectividade.
Finalizando, a visita de Filosa confirma que o Brasil deixou de ser apenas um mercado de “carros simplificados” para se tornar um centro global de desenvolvimento. Com a primeira tecnologia REEV Flex do mundo e a nacionalização de marcas de nova energia, a Stellantis posiciona o país na vanguarda da mobilidade sustentável e lucrativa.
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- REEV (Range Extended Electric Vehicle): Veículo elétrico com extensor de autonomia. Possui um motor a combustão que não move o carro, mas funciona como um gerador de energia para a bateria, eliminando o medo de ficar sem carga.
- Bio-Hybrid: Nome dado pela Stellantis às suas quatro plataformas de eletrificação (MHEV, HEV, PHEV e BEV) que utilizam motores flex, unindo a eletricidade com o biocombustível (etanol).
- Gap Competitivo: Refere-se à diferença de custos de produção, impostos e logística entre fabricantes locais e importadores, que pode desequilibrar a competitividade no mercado.
