O XXXIII SIMEA – Simpósio Internacional de Engenharia Automotiva, promovido pela AEA, reuniu nos dias 26 e 27 de agosto, em São Paulo, representantes da indústria, governo e academia para discutir os principais desafios da engenharia automotiva brasileira. Entre os destaques estiveram a descarbonização do transporte pesado, a digitalização da indústria e o lançamento de um novo caderno técnico sobre minerais críticos.
Sob o tema “Brasil em movimento: engenharia e tecnologia a serviço da sustentabilidade”, o evento discutiu como o país pode transformar suas vantagens naturais — matriz energética diversificada, biocombustíveis, recursos minerais e parque industrial instalado — em inovação e desenvolvimento tecnológico de fato.
Na abertura, lideranças da AEA, do Sindipeças, da Anfavea, da Abeifa, do Grupo Randon e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima destacaram que o desafio não está em ter recursos, mas em converter esse potencial em produção local e tecnologia própria, com atuação coordenada entre setor privado, governo e universidades.
Um dos pontos altos do evento foi o lançamento do Caderno AEA de Tendências Tecnológicas – Minerais Críticos & Materiais Estratégicos para a Indústria da Mobilidade. A publicação parte de um dado alarmante: a humanidade extrai mais de 100 bilhões de toneladas de recursos naturais por ano e já consome o equivalente a 1,6 planeta anualmente.
Baseado no conceito de economia circular, o material aponta caminhos para o Brasil deixar de exportar apenas commodities e avançar para etapas de maior valor agregado, como processamento e produção de componentes.
A transição energética dos veículos pesados também dominou os debates. Especialistas convergiram para uma conclusão: não existe uma solução única para descarbonizar caminhões, ônibus e máquinas agrícolas — o caminho depende da aplicação, da energia disponível e da viabilidade econômica de cada caso.
Segundo Marcus D’Elia, da Leggio Consultoria, ainda não há uma rota tecnológica dominante capaz de substituir o diesel de forma estrutural até 2060. A primeira etapa da transição, mais definida, aposta em biocombustíveis como biodiesel e diesel verde; a segunda, rumo a zero emissão, segue em aberto entre eletrificação e hidrogênio.
Gilberto Martins, da Anfavea, apontou um obstáculo prático: mais de 60% dos caminhões em circulação têm mais de 11 anos, o que atrasa a chegada de tecnologias mais eficientes e menos poluentes à frota nacional.
Ainda no primeiro dia, a AEA lançou, em parceria com o Instituto Minerva, o Programa Residência em Engenharia Automobilística. Inspirado no modelo da residência médica, o programa tem dois anos de duração e combina pós-graduação, atuação em projetos reais e acompanhamento de carreira — uma resposta direta à necessidade de formar engenheiros para as novas demandas da indústria.
No segundo dia, o foco passou para a digitalização da indústria automotiva, do desenvolvimento de software ao chão de fábrica. Fábio Maia, do CESAR Centro Inovação, alertou para os riscos de cibersegurança em veículos definidos por software: uma única vulnerabilidade, em arquiteturas conectadas à nuvem, pode atingir uma parcela significativa de uma frota inteira.
Na área de testes, Matthieu Claudet, da AVL Áustria, apresentou a escala do desafio atual: um veículo moderno tem cerca de 30 mil componentes e 200 mil variáveis de software, das quais menos de 1% das combinações possíveis chegam a ser testadas. Com inteligência artificial generativa, processos que levavam de seis a 12 semanas podem ser reduzidos para um a três dias.
Já Filip Mizoe, da General Motors, mostrou que a qualidade dos dados ainda é um gargalo: apenas 43% das informações coletadas pela indústria são efetivamente usadas. Mesmo assim, projetos-piloto de gestão de estoque com IA já alcançaram redução de até 28% no inventário, sem comprometer a segurança de fornecimento.
O evento também reservou espaço para uma mesa-redonda formada somente por mulheres do automobilismo — entre elas Bia Figueiredo, Rachel Loh e Fabiana Ecclestone —, que discutiram desafios profissionais e caminhos para novas gerações na indústria e nas pistas.
Para fechar a 33ª edição, o professor Ronaldo Salvagni anunciou recorde de inscrições de papers: foram 120 trabalhos, dos quais 60 apresentados nas sessões técnicas. O trabalho vencedor, sobre emissões de um veículo flex-fuel abastecido com gasolina E22 e etanol hidratado, foi assinado por uma equipe da Petrobras.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – O SIMEA 2026 deixa claro que o Brasil tem os insumos, mas ainda precisa transformar potencial em execução.
Ter matriz energética diversificada e reservas de minerais críticos não garante liderança tecnológica por si só.
O dado sobre frota de caminhões com mais de 11 anos explica por que a transição energética dos pesados avança mais devagar no país do que o discurso sugere.
Ao mesmo tempo, o avanço da inteligência artificial no chão de fábrica e nos testes de veículos mostra que a indústria automotiva já opera em outra velocidade dentro das montadoras.
O gargalo real, segundo os próprios especialistas do evento, não é falta de tecnologia, é aproveitamento de dados e coordenação entre os elos da cadeia.
Iniciativas como o Programa Residência em Engenharia Automobilística atacam um problema estrutural: formar profissionais para demandas que ainda não existiam há poucos anos.
Acompanhe @tarcisiomecanicaonline para os próximos desdobramentos das discussões do SIMEA 2026, incluindo o Caderno de Tendências sobre minerais críticos.
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Caderno de Tendências Tecnológicas: a AEA lançou publicação sobre minerais críticos e materiais estratégicos, defendendo que o Brasil avance da exportação de commodities para etapas de maior valor agregado.
Programa Residência em Engenharia Automobilística: iniciativa da AEA com o Instituto Minerva, com dois anos de duração, para formar engenheiros com atuação em projetos reais da indústria.
Transição sem rota única: especialistas apontaram que não existe uma solução tecnológica dominante para descarbonizar pesados até 2060, com biocombustíveis, eletrificação e hidrogênio como alternativas conforme a aplicação.
Frota envelhecida trava avanço: mais de 60% dos caminhões em circulação no Brasil têm mais de 11 anos, o que atrasa a adoção de tecnologias mais eficientes.
IA no chão de fábrica: apenas 43% dos dados coletados pela indústria são usados, mas projetos-piloto já reduziram em até 28% o estoque em áreas otimizadas.
Recorde de papers técnicos: o SIMEA 2026 recebeu 120 trabalhos inscritos, apresentou 60 nas sessões técnicas e premiou um estudo da Petrobras sobre emissões de veículos flex-fuel.
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Minerais críticos: recursos como lítio, cobalto e terras raras, essenciais para baterias e componentes eletrônicos, considerados estratégicos por serem difíceis de substituir e concentrados em poucos países produtores.
Economia circular (berço ao berço): modelo em que materiais e componentes são reaproveitados ao final da vida útil de um produto, reduzindo a necessidade de extrair novos recursos naturais.
Veículo definido por software: veículo cujas funções dependem cada vez mais de programas de computador atualizáveis remotamente, e não apenas de peças mecânicas fixas — o que também exige atenção redobrada à cibersegurança.
HVO: diesel renovável produzido a partir de óleos vegetais ou gordura animal tratados quimicamente, compatível com motores diesel convencionais sem necessidade de mistura ou adaptação.

