O mercado brasileiro continua crescendo em 2026, mas os números da primeira metade de setembro mostram que a transformação mais importante não está apenas no volume vendido. A composição das vendas está mudando rapidamente, com eletrificados ganhando espaço, marcas chinesas próximas de um quarto do mercado e diferenças relevantes entre o desempenho no varejo e nas vendas diretas.
O mercado brasileiro de veículos leves iniciou setembro mantendo uma trajetória positiva. Foram 109.536 emplacamentos nos primeiros 15 dias do mês, crescimento de 7,9% sobre a mesma janela de agosto e de 6,6% na comparação com setembro de 2025. No acumulado de 2026, são 1.992.993 unidades, avanço de 18,9% sobre igual período do ano passado.
A comparação é favorecida pela equivalência do calendário: foram 10 dias úteis nas três quinzenas comparadas. Assim, a média diária avançou para 10.954 veículos, ante 10.151 em agosto e 10.280 unidades na primeira metade de setembro de 2025. No acumulado anual, o crescimento ocorre mesmo com 2026 tendo um dia útil a menos.
Um dado importante aparece na separação dos canais. A venda direta reagiu 21,3% sobre agosto, chegando a 51.171 unidades, mas ficou 0,8% abaixo de setembro do ano passado. O showroom, associado às vendas de varejo, somou 58.365 veículos, queda mensal de 1,6%, porém crescimento anual de 14%.
No acumulado de 2026, o varejo mostra desempenho mais forte. São 1.030.098 unidades comercializadas pelo showroom, crescimento de 23,4%, enquanto as vendas diretas somam 962.895 veículos e avançam 14,5%. Com isso, a participação da venda direta caiu de 50,2% em 2025 para 48,3% neste ano.
Entre automóveis e comerciais leves também existe uma diferença significativa. Os carros responderam por 87.142 unidades, ou 79,6% do mercado, enquanto os comerciais leves ficaram com 22.394 emplacamentos. Nos automóveis, 43,5% das vendas foram diretas; nos comerciais leves, essa participação chegou a 59,1%.
Na disputa entre fabricantes, Fiat continua na liderança, com 20.573 unidades e 18,8% de participação. A Volkswagen aparece em segundo lugar, com 16.938 veículos e 15,5%, enquanto a BYD já ocupa a terceira posição, com 10.230 unidades e 9,3% do mercado. GM, Hyundai e Toyota aparecem na sequência.
A diferença no perfil comercial dessas marcas chama atenção. 60,6% dos emplacamentos da Fiat e 62,4% dos da Volkswagen vieram de venda direta, enquanto na BYD esse índice foi de apenas 26,5%. Chery, com somente 4,2% de venda direta, GWM, com 11,3%, e Geely, com 10,8%, também apresentaram forte concentração no varejo durante a quinzena.
Entre os modelos, a Fiat Strada abriu vantagem na liderança, com 7.305 unidades e 6,7% de participação. O dado mais significativo, porém, veio do BYD Dolphin Mini, que alcançou o terceiro lugar geral com 4.414 unidades, estabelecendo um novo patamar para o elétrico. Dolphin Mini e Haval H6 foram os dois modelos chineses presentes no top 15 da quinzena.
Os SUVs permanecem como a maior categoria, embora tenham recuado de 43,9% em agosto para 41,8% em setembro. Em relação aos 34,9% registrados um ano antes, entretanto, continuam mostrando forte expansão. Hatchbacks chegaram a 25,3%, enquanto os sedãs reagiram para 6,9%, mas ainda estão muito abaixo dos 11,4% observados em setembro de 2025.
A transformação mais expressiva está na eletrificação. Os modelos eletrificados alcançaram 25.941 unidades e 23,7% de participação, contra apenas 10,9% na primeira quinzena de setembro de 2025. Em volume, isso representa um crescimento anual de 131%.
Dentro desse universo, os 100% elétricos (BEV) lideraram com 10.667 unidades, correspondentes a 41,1% dos eletrificados. Os híbridos plug-in (PHEV) registraram 7.554 unidades, seguidos pelos híbridos convencionais (HEV), com 3.972, híbridos leves (MHEV), com 3.462, e elétricos de autonomia estendida (REEV), com 286 unidades.
A BYD domina dois dos principais grupos: respondeu por 64,3% dos elétricos e 44,7% dos híbridos plug-in. O Dolphin Mini foi o BEV mais vendido, com 4.414 unidades, enquanto o Song Pro liderou entre os PHEV, com 1.743. Nos HEV, a Toyota liderou entre as marcas, enquanto o Omoda 5 foi o modelo mais vendido; nos MHEV, a Jeep liderou e o Renegade ficou à frente entre os modelos.
As marcas chinesas, consideradas em conjunto, responderam por 22,8% de todos os veículos leves emplacados na primeira quinzena. O percentual recuou em relação aos 24,7% registrados na mesma janela de agosto, mas mantém essas fabricantes em um patamar relevante dentro da disputa pelo consumidor brasileiro.
Fonte dos dados: Bright Consulting.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – O crescimento de 18,9% acumulado em 2026 é importante, mas isoladamente diz pouco sobre a dimensão das mudanças em andamento. Mais significativo é perceber quem está capturando esse crescimento, por quais canais os carros estão sendo vendidos e quais tecnologias estão conquistando participação.
A primeira mudança está no varejo. O showroom cresce 23,4% no acumulado do ano, acima dos 14,5% da venda direta. Isso sugere que a expansão não está apoiada exclusivamente em locadoras, frotistas e grandes compradores. Existe uma contribuição importante do consumidor que chega à concessionária para comprar seu próprio automóvel.
Esse aspecto torna ainda mais interessante a posição das fabricantes chinesas. BYD, Chery, GWM e Geely apresentaram percentuais relativamente baixos de venda direta na quinzena, especialmente quando comparadas a Fiat, Volkswagen, Hyundai e Renault. Portanto, parte relevante do crescimento dessas novas concorrentes está ocorrendo justamente no campo em que a decisão individual de compra tem maior peso.
O avanço do Dolphin Mini para a terceira posição entre todos os veículos reforça essa leitura. Não se trata somente de um elétrico liderando seu nicho tecnológico. Um BEV passa a disputar as primeiras posições do mercado geral, cenário que seria difícil imaginar poucos anos atrás.
Ao mesmo tempo, é preciso interpretar corretamente os 23,7% atribuídos aos eletrificados. Esse universo reúne tecnologias bastante diferentes: elétricos puros, híbridos plug-in, híbridos convencionais, híbridos leves e REEV. Portanto, não significa que quase um quarto dos compradores brasileiros já esteja abandonando completamente o motor a combustão.
Ainda assim, a velocidade da mudança impressiona. A participação dos eletrificados passou de 10,9% para 23,7% em apenas um ano na comparação das primeiras quinzenas de setembro, enquanto o volume cresceu 131%. Mesmo considerando a ampliação da oferta de modelos, a entrada de novas marcas e as diferentes formas de hibridização incluídas nessa conta, existe uma alteração concreta no mix tecnológico do mercado.
Outra transformação aparece na carroceria. SUVs passaram de 34,9% para 41,8% do mercado em doze meses, enquanto sedãs caíram de 11,4% para 6,9%. Os hatchbacks, por outro lado, avançaram de 20,2% para 25,3%. Isso mostra que a reorganização não ocorre somente no sistema de propulsão: o consumidor também está alterando o tipo de automóvel que leva para casa.
Há ainda um dado que merece acompanhamento nos próximos meses: as marcas chinesas estão com 22,8% do mercado. A queda frente aos 24,7% de agosto pode representar apenas uma oscilação quinzenal e, com os números disponíveis, ainda não permite caracterizar uma mudança de tendência.
Para as fabricantes tradicionais, a disputa passa a ocorrer simultaneamente em várias frentes: preço, eletrificação, conteúdo tecnológico, rede de concessionárias, pós-venda e valor de revenda. Para as novas marcas, vender rapidamente é apenas uma parte do desafio; será necessário transformar os primeiros compradores em uma base permanente de clientes.
A primeira quinzena de setembro, portanto, mostra um mercado crescendo, mas principalmente se reorganizando por dentro. Fiat e Volkswagen permanecem muito fortes, a BYD já ocupa a terceira posição, quase um em cada quatro emplacamentos está classificado como eletrificado e as marcas chinesas, juntas, superam um quinto das vendas. A disputa agora não é somente por volume: é por quem conseguirá capturar a transformação do consumidor brasileiro e sustentá-la nos próximos anos.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- Mercado em alta: os 109.536 emplacamentos representam crescimento de 7,9% sobre agosto e 6,6% sobre setembro de 2025.
- Quase 2 milhões: 2026 acumula 1.992.993 veículos leves emplacados, avanço de 18,9%.
- BYD no top 3: a fabricante alcançou 10.230 unidades e 9,3% de participação na primeira quinzena.
- Dolphin Mini: com 4.414 unidades, o elétrico chegou à terceira colocação no ranking geral de modelos.
- Eletrificados: já representam 23,7% dos emplacamentos, com crescimento de 131% em volume sobre a primeira quinzena de setembro de 2025.
- Chinesas: as marcas de origem chinesa ficaram com 22,8% do mercado, ante 24,7% na primeira metade de agosto.
Para acompanhar como BYD, Fiat, Volkswagen e as demais fabricantes estão disputando um mercado cada vez mais eletrificado e quais carros estão realmente conquistando o consumidor brasileiro, siga @tarcisiomecanicaonline.
Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende
- Market share: percentual das vendas totais que pertence a uma determinada marca, modelo ou segmento.
- Venda direta: comercialização feita em condições específicas para públicos como empresas, locadoras, frotistas, produtores rurais e outros compradores elegíveis.
- BEV: veículo totalmente elétrico, movimentado exclusivamente pela energia armazenada na bateria.
- PHEV: híbrido plug-in que combina motor a combustão e propulsão elétrica, com bateria que pode ser recarregada externamente.

