O motor rotativo voltou à produção pelas mãos da Mazda, mas não exatamente da maneira que os apaixonados por RX-7 e RX-8 imaginavam. No MX-30 R-EV, o pequeno Wankel trabalha como gerador e não movimenta diretamente as rodas. Agora, declarações de um executivo europeu da fabricante indicam que a próxima tentativa poderá seguir uma filosofia completamente diferente: usar a eletrificação para preservar o rotativo — e devolver ao motorista parte da experiência que transformou essa mecânica em símbolo da Mazda.
A Mazda continua procurando uma maneira de transformar o motor rotativo Wankel em algo mais do que uma lembrança de seus esportivos do passado.
Depois de ressuscitar a tecnologia no MX-30 R-EV, utilizando um motor de rotor único como extensor de autonomia, a fabricante avalia caminhos capazes de colocar novamente o rotativo no centro da experiência de condução.
A indicação veio de Moritz Oswald, gerente de projetos e supervisor de planejamento e cocriação de produtos da Mazda Motor Europe, em entrevista à revista britânica Car.
As declarações não representam a confirmação de um novo esportivo de produção.
Mas apontam para uma possibilidade tecnicamente muito mais interessante: um conjunto híbrido no qual o motor rotativo tenha participação mais direta na experiência do automóvel.
MX-30 trouxe o rotativo de volta, mas de outra maneira
O MX-30 R-EV mostrou uma solução bastante diferente daquela utilizada nos antigos RX.
Seu motor rotativo de rotor único funciona como extensor de autonomia, gerando eletricidade para o sistema de propulsão.
Isso aproveita algumas características interessantes do Wankel, como dimensões compactas, mas deixa de lado justamente aquilo que tornou os antigos esportivos rotativos especiais para seus admiradores.
Oswald destacou aspectos como aceleração, som e sensações mecânicas ao falar sobre aquilo que os entusiastas procuram.
A discussão mostra uma mudança de objetivo.
No MX-30, o rotativo é uma ferramenta para o sistema eletrificado.
Em um eventual esportivo, o sistema eletrificado poderá se tornar uma ferramenta para viabilizar o rotativo.
Essa inversão é importante.
Híbrido pode ser a saída para manter o Wankel vivo
O executivo também afastou a ideia de uma transmissão CVT para um hipotético futuro modelo rotativo e indicou que a hibridização poderia contribuir tanto para a experiência de condução quanto para a redução das emissões.
Isso aproxima a discussão do Mazda Iconic SP, conceito apresentado em 2023.
O esportivo conceitual utilizava uma proposta de conjunto híbrido com motor rotativo de dois rotores associado à propulsão elétrica, potência combinada anunciada de aproximadamente 365 cv e tração traseira.
Não existe confirmação, entretanto, de que esse conjunto será levado à produção exatamente dessa maneira.
Também seria precipitado afirmar qual transmissão seria utilizada.
A possibilidade de uma transmissão automática convencional faz sentido dentro da filosofia mencionada pelo executivo, mas o material não confirma uma caixa específica para um futuro modelo.
Eletrificação pode corrigir uma fraqueza histórica
Existe uma razão técnica interessante para combinar um motor rotativo com um sistema híbrido.
O Wankel é compacto e consegue entregar elevada potência em relação às suas dimensões, além de possuir funcionamento muito particular.
Historicamente, porém, consumo e emissões sempre estiveram entre seus grandes desafios.
A eletrificação cria novas possibilidades de gerenciamento.
O motor elétrico pode participar das situações em que o propulsor a combustão seria menos eficiente, recuperar parte da energia durante desacelerações e oferecer torque imediatamente disponível.
Isso permite pensar no rotativo não como um motor que precisa trabalhar sozinho em todas as situações, mas como uma das partes de um sistema de propulsão otimizado eletronicamente.
É justamente aí que uma tecnologia moderna pode ajudar a preservar uma arquitetura mecânica historicamente difícil de adaptar às exigências atuais.
Iconic SP pode apontar o caminho
O Iconic SP ganhou importância porque combina vários elementos que aparecem nessa discussão.
Ele é compacto, esportivo, eletrificado e utiliza o motor rotativo como parte fundamental de sua identidade técnica.
Mas conceito não significa confirmação de produção.
A Mazda possui uma longa história de estudos envolvendo o retorno do Wankel.
Depois do fim do RX-8 em 2012, foram necessários 11 anos até que outro veículo de produção da fabricante voltasse a utilizar um motor rotativo, justamente o MX-30 R-EV.
Durante esse intervalo, diferentes conceitos e projetos mantiveram viva a expectativa de um sucessor esportivo.
Mais recentemente, o Vision-X Coupé também explorou uma proposta de conjunto híbrido plug-in associado a motor rotativo, com potência indicada acima dos 500 cv.
O conjunto de projetos demonstra interesse técnico persistente.
Ainda não demonstra que um novo RX esteja aprovado para produção.
Por que o rotativo é tão diferente?
O Wankel abandona boa parte da arquitetura encontrada em um motor convencional de pistões.
Em vez de pistões subindo e descendo dentro dos cilindros e transmitindo movimento ao virabrequim, utiliza um rotor que gira dentro de uma câmara de geometria específica.
Durante esse movimento acontecem as etapas de admissão, compressão, combustão e escape.
A arquitetura permite construir um motor compacto e com poucas peças móveis em comparação com determinados conjuntos convencionais.
Também produz características próprias de entrega de potência e funcionamento.
Mas existem desafios importantes na vedação das câmaras de combustão e na eficiência térmica, fatores diretamente relacionados ao consumo e às emissões.
São dificuldades especialmente relevantes em uma indústria submetida a exigências ambientais cada vez maiores.
O desafio agora é econômico, não apenas mecânico
A Mazda já demonstrou que consegue produzir novamente um motor rotativo dentro das exigências modernas — o próprio MX-30 R-EV comprova isso.
O problema é diferente quando se fala em um esportivo.
Desenvolver um conjunto específico para um produto potencialmente de nicho precisa fazer sentido financeiramente.
É justamente nesse ponto que a eletrificação pode desempenhar dois papéis.
O primeiro é técnico, ajudando a controlar consumo, emissões e desempenho.
O segundo é estratégico: permitir que uma arquitetura tradicionalmente difícil de justificar isoladamente continue existindo dentro de uma plataforma tecnológica compatível com a evolução da indústria.
A questão é descobrir se essa equação consegue chegar à produção.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – O caso da Mazda é uma demonstração interessante de que eletrificação e motor a combustão não precisam necessariamente representar lados opostos.
Talvez aconteça justamente o contrário.
A eletrificação pode ser aquilo que permitirá a sobrevivência de algumas das mecânicas mais interessantes da história do automóvel.
O motor rotativo é um ótimo exemplo.
Se colocarmos um Wankel tradicional para competir sozinho contra motores modernos extremamente eficientes, híbridos e elétricos, suas dificuldades históricas de consumo e emissões tornam a equação complicada.
Mas quando acrescentamos um motor elétrico, bateria e gerenciamento eletrônico, começamos a mudar as condições dessa disputa.
O elétrico pode oferecer torque nas situações em que o motor a combustão seria menos eficiente.
A regeneração recupera energia que normalmente seria transformada em calor nos freios.
E o gerenciamento eletrônico pode decidir quando cada fonte de potência deve trabalhar.
Nesse cenário, o Wankel não precisa necessariamente fazer tudo.
Pode fazer aquilo em que suas características são mais interessantes.
Essa talvez seja a parte mais fascinante do Iconic SP.
Não é simplesmente ressuscitar a mecânica do RX-7 ou do RX-8.
É perguntar: como construiríamos hoje um esportivo rotativo se pudéssemos utilizar toda a tecnologia que não existia quando aqueles carros foram projetados?
Ainda não sabemos se a Mazda transformará essa ideia em um automóvel de produção.
As declarações disponíveis mostram interesse e direção técnica, não uma confirmação.
Mas existe algo importante acontecendo.
Durante muitos anos imaginamos que a eletrificação simplesmente substituiria tecnologias mecânicas tradicionais.
Projetos como esse mostram outra possibilidade: ela também pode ajudar algumas delas a sobreviver.
Para acompanhar como eletrificação e novas soluções de engenharia podem transformar o futuro dos motores a combustão, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- RX-8 encerrou uma era – O esportivo saiu de produção em 2012 e foi o último Mazda rotativo antes do retorno da tecnologia no MX-30 R-EV.
- Rotativo voltou como gerador – No MX-30 R-EV, o Wankel de rotor único trabalha como extensor de autonomia, em uma função diferente daquela dos antigos esportivos RX.
- Iconic SP mudou a proposta – O conceito de 2023 apresentou um sistema eletrificado com motor rotativo de dois rotores e potência combinada anunciada de aproximadamente 365 cv.
- CVT não parece ser o caminho – O executivo entrevistado defendeu uma solução capaz de preservar melhor a experiência de condução associada ao motor rotativo.
- Hibridização ganha importância – A combinação com propulsão elétrica pode ajudar a administrar eficiência e emissões sem necessariamente eliminar o caráter do motor a combustão.
- Produção ainda não está confirmada – As declarações e conceitos mostram continuidade do desenvolvimento, mas não confirmam um novo esportivo rotativo nas concessionárias.
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- Motor Wankel – Motor a combustão que utiliza um rotor em vez do movimento alternativo de pistões dentro de cilindros para realizar as etapas do ciclo de combustão.
- Extensor de autonomia – Motor a combustão utilizado para gerar eletricidade em um veículo cuja propulsão é realizada pelo sistema elétrico, sem necessariamente movimentar mecanicamente as rodas.
- Sistema híbrido – Combinação de motor a combustão e propulsão elétrica, cuja arquitetura pode permitir diferentes formas de participação de cada fonte de potência.
- Regeneração – Processo em que o motor elétrico trabalha como gerador durante determinadas desacelerações, convertendo parte da energia do movimento em eletricidade para a bateria.

