Acertar a cor depois de um reparo automotivo sempre dependeu muito do olhar e da experiência do profissional. O problema é que os carros modernos complicaram essa tarefa: acabamentos perolizados, tricamadas, foscos e pigmentos especiais convivem com pinturas que mudam depois de anos expostas ao sol e ao ambiente. Agora, a digitalização começa a transformar justamente uma das atividades mais artesanais da oficina — e não significa simplesmente entregar a decisão para uma máquina.
A transformação digital da manutenção automotiva não está restrita aos scanners, diagnósticos eletrônicos ou veículos conectados.
Ela também chegou à área de funilaria e pintura.
Na repintura, equipamentos eletrônicos de leitura, softwares de gerenciamento e bancos de dados com milhões de fórmulas estão sendo utilizados para reduzir variáveis na identificação e reprodução das cores.
Para a PPG, fabricante de tintas e revestimentos, essa mudança é impulsionada principalmente pela crescente complexidade dos acabamentos dos automóveis e pela necessidade das oficinas de aumentar produtividade e consistência.
“A digitalização deixou de ser uma tendência futura para se tornar uma necessidade prática dentro das oficinas”, afirma Fabricio Vieira, diretor de Negócios de Repintura Automotiva da PPG na América do Sul.
O código da tinta nem sempre resolve
Uma das dificuldades da repintura está no fato de que identificar a cor original não significa necessariamente reproduzir visualmente a pintura que está naquele automóvel naquele momento.
Cada veículo possui um histórico diferente.
Tempo de utilização, exposição ambiental e desgaste podem provocar pequenas variações visuais ao longo dos anos.
Ao mesmo tempo, a indústria passou a utilizar acabamentos mais complexos.
Cores perolizadas, tricamadas, foscas e pigmentações especiais aumentam as possibilidades de design, mas também elevam a dificuldade de realizar um reparo visualmente uniforme.
É nesse cenário que a leitura eletrônica passa a complementar a avaliação realizada pelo profissional.
Máquina não substitui o conhecimento do pintor
A proposta da digitalização não é retirar o profissional do processo.
O objetivo é fornecer mais informações para que ele tome decisões com menor quantidade de tentativa e erro.
Equipamentos de leitura podem auxiliar na identificação da cor, enquanto softwares e bancos de dados ajudam na busca e formulação da mistura correspondente.
Isso permite padronizar etapas que anteriormente dependiam muito mais da avaliação visual.
Ainda assim, o processo continua exigindo conhecimento sobre preparação da superfície, aplicação, regulagem dos equipamentos, técnica de pintura e comportamento dos materiais.
“O diferencial continuará sendo o conhecimento do profissional, mas ele contará com recursos cada vez mais avançados para apoiar seu trabalho”, afirma Vieira.
Produtividade começa antes da pistola de pintura
Existe também uma questão econômica por trás dessa transformação.
Quando a identificação de uma cor exige sucessivas correções, a oficina consome tempo, tinta e mão de obra antes mesmo de concluir o reparo.
A digitalização procura reduzir essas variáveis.
Quanto mais previsível for o processo de identificação e formulação, maior a possibilidade de organizar o fluxo de trabalho e direcionar o conhecimento do profissional para etapas que realmente exigem análise técnica.
Isso ganha importância diante de outro desafio apontado pela PPG: a dificuldade de encontrar mão de obra especializada.
Nesse cenário, tecnologia e padronização passam a funcionar também como ferramentas para melhorar a produtividade das equipes disponíveis.
Digitalização chega a oficinas de diferentes tamanhos
Soluções desse tipo já não ficam necessariamente restritas às grandes operações de reparação.
Segundo a PPG, a ampliação do acesso às ferramentas digitais está levando essas tecnologias a diferentes perfis de oficina, cada um com seu próprio estágio de desenvolvimento.
A fabricante lançou neste ano o First Digital Step (FDS), pacote voltado justamente às empresas que pretendem iniciar ou ampliar a utilização de recursos digitais na repintura.
A solução reúne ferramentas relacionadas a identificação, formulação e gerenciamento de cores.
A empresa não detalhou no material apresentado preços, equipamentos que compõem cada configuração ou requisitos de implantação do pacote.
Cores modernas aumentam a dificuldade do reparo
A própria evolução estética dos automóveis ajuda a explicar por que a tecnologia está ganhando espaço.
Uma pintura sólida convencional e um acabamento com múltiplas camadas e efeitos ópticos representam desafios diferentes.
Em sistemas mais sofisticados, a percepção visual pode depender não apenas da tonalidade, mas também de efeitos, pigmentação e maneira como a luz interage com o acabamento.
Isso significa que a reprodução correta não depende simplesmente de encontrar uma receita no computador.
O processo completo continua envolvendo identificação, preparação, formulação e aplicação adequadas.
É justamente a combinação dessas etapas que determina o resultado final.
A oficina também está virando um ambiente de dados
A digitalização da repintura faz parte de uma transformação maior da reparação automotiva.
O mecânico já utiliza scanner para interpretar sistemas eletrônicos.
A manutenção começa a trabalhar com informações coletadas pelo próprio veículo.
Agora, até a área de pintura passa a utilizar leitura digital e bancos de dados para auxiliar decisões que tradicionalmente dependiam quase exclusivamente da experiência humana.
Isso não elimina o trabalho artesanal.
Muda as ferramentas utilizadas para realizá-lo.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Quando falamos que a tecnologia está mudando as oficinas, normalmente pensamos imediatamente no mecânico conectado a um scanner diante de um carro cheio de módulos eletrônicos.
Mas talvez a transformação mais interessante esteja justamente onde menos esperamos.
Até acertar a cor de uma pintura está virando um processo orientado por dados.
E existe uma diferença importante entre automatizar e substituir.
Um equipamento pode medir uma cor com precisão e um software pode procurar uma formulação em um enorme banco de informações.
Mas ainda existe alguém que precisa avaliar o reparo, preparar corretamente a superfície, entender o material e executar a aplicação.
A tecnologia reduz variáveis. O conhecimento transforma essa informação em um bom serviço.
Isso também muda o perfil profissional exigido pela oficina.
Experiência prática continuará sendo fundamental, mas passa a conviver cada vez mais com equipamentos eletrônicos, softwares e processos padronizados.
É a mesma transformação que já estamos vendo na mecânica acontecendo agora na funilaria e pintura.
A oficina do futuro não será necessariamente aquela sem profissionais.
Será aquela em que bons profissionais aprenderam a trabalhar com ferramentas muito mais inteligentes.
Para acompanhar como tecnologia, eletrônica e digitalização estão transformando as oficinas e os profissionais da reparação automotiva, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- Cor original pode variar – Exposição e desgaste ao longo dos anos podem fazer com que a aparência atual da pintura apresente diferenças em relação à referência original.
- Acabamentos mais complexos – Pinturas perolizadas, tricamadas, foscas e pigmentos especiais aumentam o desafio de reprodução durante um reparo.
- Leitura eletrônica – Equipamentos digitais acrescentam medições ao processo tradicional de avaliação visual da pintura.
- Banco de fórmulas – Softwares permitem consultar grandes volumes de informações para auxiliar a identificação e preparação da cor necessária.
- Produtividade – Maior precisão na formulação pode ajudar a reduzir retrabalho e variáveis durante o processo, embora o material não quantifique esse ganho.
- Profissional continua decisivo – A própria PPG destaca que as ferramentas digitais apoiam, e não eliminam, o conhecimento técnico necessário à repintura.
Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende
- Repintura automotiva – Processo de recuperação do acabamento pintado de uma área reparada ou danificada do veículo.
- Pintura tricamada – Sistema no qual diferentes camadas contribuem para construir a tonalidade e o efeito visual final, aumentando a complexidade da reprodução.
- Leitura eletrônica de cor – Medição instrumental das características da pintura utilizada para auxiliar a busca por uma formulação compatível.
- Formulação de cor – Definição das proporções dos componentes necessários para reproduzir determinada tonalidade e acabamento.

