Imagine aproximar-se de um cruzamento e receber um alerta sobre um ciclista escondido atrás de um ônibus, antes mesmo de conseguir enxergá-lo. Essa é a proposta de uma nova geração de sistemas de segurança cooperativa, que permite aos veículos compartilhar informações com outros automóveis, pedestres e infraestrutura viária. A tecnologia combina comunicação direta e serviços em nuvem para identificar perigos fora do campo de visão do motorista, oferecendo a possibilidade de antecipar situações de risco. A solução está sendo demonstrada durante o ITS World Congress 2026, realizado de 19 a 23 de outubro, na Coreia do Sul. Desenvolvida pela LG Electronics, a plataforma Soft V2X representa uma evolução em relação aos sistemas que dependem exclusivamente dos sensores instalados nos veículos.
Como o carro consegue identificar perigos que seus sensores não enxergam?
Os sistemas atuais de assistência à condução utilizam câmeras, radares e outros sensores para monitorar o ambiente e identificar riscos. Entretanto, esses equipamentos possuem limitações físicas, principalmente quando obstáculos impedem a observação direta de determinadas áreas.
Em um cruzamento com visibilidade reduzida, por exemplo, um veículo estacionado pode esconder um pedestre que se aproxima. Mesmo com câmeras de alta resolução, o sistema embarcado pode não detectar esse usuário antes que ele entre no campo de visão dos sensores.
A comunicação cooperativa procura superar parte dessa limitação ao permitir que veículos recebam informações de outros automóveis, dispositivos móveis e equipamentos conectados à infraestrutura urbana. Dessa maneira, um risco pode ser identificado por um participante do trânsito e compartilhado com outros usuários próximos.
A proposta não é substituir os sensores embarcados, mas acrescentar uma camada externa de percepção, ampliando as informações disponíveis para os sistemas de segurança e para o motorista.
V2X e V2N: duas tecnologias trabalhando para prevenir acidentes
A solução utiliza uma combinação de V2X (Vehicle-to-Everything) e V2N (Vehicle-to-Network), duas formas de comunicação com aplicações complementares.
O V2X permite a troca de informações entre veículos e outros elementos conectados do ambiente de circulação. Dependendo da infraestrutura utilizada, essa comunicação pode ocorrer diretamente entre dispositivos compatíveis.
Já o V2N utiliza redes de dados e plataformas em nuvem para distribuir informações relacionadas ao trânsito, permitindo integrar veículos e serviços digitais.
A plataforma Soft V2X, desenvolvida pela LG Electronics, reúne essas tecnologias e utiliza mecanismos de gerenciamento das comunicações para melhorar a continuidade e a confiabilidade das mensagens. Entre os recursos estão proteção das informações transmitidas e qualidade de serviço preditiva (QoS), que auxilia na administração das conexões disponíveis.
O servidor V2N foi desenvolvido considerando referências técnicas da 5G Automotive Association (5GAA) e da ITS Korea, organizações envolvidas no desenvolvimento de padrões para mobilidade conectada.
Teste em vias públicas demonstra alertas sobre pedestres e ciclistas
Entre 20 e 22 de outubro de 2026, a tecnologia está sendo demonstrada em vias públicas próximas ao ITS World Congress, em Gangneung, na Coreia do Sul.
A estrutura utiliza um veículo equipado com hardware de telemática, dispositivos compatíveis com V2X e um aplicativo para smartphones utilizado por pedestres.
Os testes apresentam situações em que o motorista se aproxima de cruzamentos com visibilidade obstruída ou encontra outros usuários da via que ainda não estão diretamente ao alcance dos sensores do automóvel.
Nessas condições, o sistema pode receber informações sobre a aproximação de pedestres e ciclistas e emitir alertas antecipados, oferecendo ao condutor mais tempo para reconhecer o perigo.
As demonstrações consideram cenários relacionados à evolução dos protocolos do Euro NCAP, programa europeu de avaliação de segurança de veículos novos. Entretanto, isso não significa que a solução já tenha recebido uma classificação independente de segurança ou esteja disponível comercialmente.
Por que essa tecnologia pode ser importante na prática?
Um dos principais benefícios potenciais está na possibilidade de antecipar o reconhecimento de riscos, especialmente em ambientes urbanos com obstáculos e circulação intensa de pessoas.
Imagine um automóvel que se aproxima de um cruzamento enquanto um ciclista trafega por uma rua transversal. Se um edifício impede a visualização direta, o sistema convencional só poderá reconhecer o ciclista quando houver condições de detecção.
Com a comunicação cooperativa, a informação sobre sua presença poderá chegar antecipadamente, desde que o ciclista ou outro elemento do ambiente esteja conectado a uma infraestrutura compatível.
Essa antecipação pode contribuir para ampliar o tempo disponível para uma reação, mas não garante que uma colisão será evitada.
A eficácia depende de fatores como precisão da localização, atualização das informações, velocidade de transmissão e capacidade de processamento dos alertas.
Outro desafio é a necessidade de adesão em larga escala. Quanto maior a presença de dispositivos e sistemas compatíveis, maior tende a ser a possibilidade de compartilhar informações relevantes.
Segurança conectada exige comunicação rápida e proteção contra falhas
Em aplicações relacionadas à prevenção de acidentes, a latência representa um parâmetro fundamental. Ela corresponde ao intervalo necessário para que uma informação seja transmitida, recebida e processada.
Uma mensagem que chega tarde demais pode perder sua utilidade. Por isso, a plataforma combina comunicação direta e conectividade por rede, buscando administrar diferentes condições de transmissão.
A segurança cibernética também merece atenção, pois os sistemas precisam garantir a autenticidade e a integridade das informações compartilhadas.
Uma mensagem incorreta sobre a presença ou a posição de um obstáculo pode provocar alertas inadequados. Assim, a tecnologia depende de mecanismos capazes de verificar a confiabilidade dos dados e lidar com possíveis interrupções de comunicação.
A LG informa que sua solução incorpora recursos de proteção das mensagens e gerenciamento inteligente das conexões, mas não divulgou indicadores quantitativos de latência, taxa de falhas ou desempenho nas demonstrações.
Veículos definidos por software podem ampliar essas funcionalidades
O desenvolvimento da segurança cooperativa acompanha a evolução dos veículos definidos por software (SDVs), nos quais diferentes funcionalidades podem ser integradas e aprimoradas por plataformas digitais.
Essa arquitetura favorece a implementação de serviços conectados e a utilização de atualizações remotas de software (OTA), permitindo aperfeiçoar determinados recursos sem necessariamente substituir componentes físicos.
A LG também apresenta sua visão para sistemas de segurança apoiados por inteligência artificial, capazes de interpretar informações provenientes de veículos, redes e infraestrutura.
Entretanto, a empresa ainda não informou quais fabricantes utilizarão comercialmente a plataforma, quais modelos serão compatíveis ou quando a tecnologia poderá chegar ao Brasil.
Padronização será fundamental para a tecnologia funcionar entre diferentes marcas
Um dos maiores desafios da segurança cooperativa é permitir que automóveis, motocicletas, smartphones e equipamentos de infraestrutura de diferentes fabricantes compartilhem informações de maneira compatível.
Durante o ITS World Congress 2026, a LG participa de discussões com instituições de pesquisa, universidades e empresas do setor, incluindo representantes da Toyota e de associações internacionais de sistemas inteligentes de transporte.
A proposta é ampliar a colaboração para desenvolver padrões comuns de comunicação, segurança e integração tecnológica.
O alinhamento com a evolução dos protocolos de segurança do Euro NCAP também faz parte das discussões. A intenção é fortalecer a capacidade de prevenir acidentes, indo além da proteção dos ocupantes após a colisão.
O objetivo de longo prazo é construir um ambiente em que veículos e infraestrutura contribuam coletivamente para identificar situações perigosas, embora a implantação dependa de investimentos, padronização e adoção pelos diferentes participantes do sistema de transporte.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – A comunicação cooperativa representa uma evolução importante porque procura ampliar a segurança automotiva além dos limites físicos dos sensores instalados no veículo. Mesmo sistemas modernos de câmeras e radares enfrentam situações nas quais obstáculos impedem a identificação direta de um perigo.
O principal ganho potencial está no tempo de reação. Quando um motorista recebe antecipadamente a informação sobre um ciclista ou pedestre, pode ter mais tempo para avaliar a situação. Entretanto, esse benefício depende de dados atualizados e suficientemente precisos para representar o cenário real.
Do ponto de vista da engenharia, a integração entre V2X e V2N precisa considerar diferentes condições de comunicação. Uma conexão direta pode oferecer vantagens em determinadas aplicações locais, enquanto a nuvem permite integrar informações de uma área mais ampla. A combinação exige gerenciamento para evitar atrasos, informações duplicadas ou inconsistentes.
Outro aspecto fundamental é a confiabilidade das mensagens. Um sistema de segurança não pode depender exclusivamente da existência de conectividade. É necessário prever o comportamento do veículo quando a rede estiver indisponível, quando um dispositivo deixar de transmitir ou quando as informações recebidas forem incompatíveis com os dados dos sensores embarcados.
A utilização de inteligência artificial pode contribuir para interpretar diferentes informações, mas também exige validação rigorosa dos resultados. Em situações críticas, alertas incorretos ou excessivos podem reduzir a confiança do motorista e comprometer a efetividade da tecnologia.
A implementação em larga escala representa outro desafio. Uma solução de segurança cooperativa depende de compatibilidade entre fabricantes, infraestrutura pública e dispositivos móveis. Sem essa integração, os benefícios permanecem limitados aos participantes que utilizam sistemas compatíveis.
A evolução mais importante não está apenas em fazer o carro receber informações externas, mas em transformar esses dados em alertas confiáveis e úteis antes que o motorista consiga perceber o perigo. A proposta tem potencial para ampliar a prevenção de acidentes, mas sua eficácia dependerá de padronização, conectividade e validação em condições reais de trânsito.
Para acompanhar segurança automotiva, veículos conectados, inteligência artificial e tecnologias de prevenção de acidentes, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- ITS World Congress 2026 – Congresso realizado de 19 a 23 de outubro, em Gangneung, na Coreia do Sul.
- Soft V2X – Plataforma de comunicação cooperativa desenvolvida pela LG Electronics.
- V2X – Tecnologia que permite compartilhar informações entre veículos e outros elementos conectados ao trânsito.
- V2N – Comunicação entre veículos e serviços digitais por meio de redes de dados.
- Testes em vias públicas – Demonstrações de 20 a 22 de outubro com alertas relacionados a cruzamentos, pedestres e ciclistas.
- Euro NCAP – Programa europeu de avaliação de segurança utilizado como referência para os cenários apresentados.
- Segurança cooperativa – Modelo em que veículos e infraestrutura compartilham informações para melhorar a identificação de riscos.
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- V2X (Vehicle-to-Everything) – Tecnologia de comunicação entre veículos e outros elementos conectados do ambiente de circulação.
- V2N (Vehicle-to-Network) – Sistema que utiliza redes de comunicação para conectar veículos a plataformas e serviços digitais.
- Latência – Tempo necessário para transmitir, receber e processar informações, especialmente importante em aplicações de segurança.
- SDV (Software-Defined Vehicle) – Veículo com arquitetura eletrônica que permite integrar, controlar e atualizar funcionalidades por software.

