Vivemos num mundo que faz Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) de um novo jeito que se baseia muito mais em ideias radicalmente novas para resolver necessidades de consumidores imediatistas do que em materiais e soluções de engenharia, como era antigamente.

Nessa forma de fazer inovação, que teve origem no Vale do Silício, nos hi-tech hubs em Israel e em outros polos de tecnologia pelo mundo, não existe mais espaço para pesquisas que não se sabe de onde vêm, para onde vão e nem mesmo como serão usadas.

O futuro é agora! E podemos ver “este reset de odômetro no campo da inovação” como uma oportunidade para o Brasil, que sempre fez mais D (desenvolvimento) do que propriamente P (Pesquisa).

E, nessa nova realidade, o Programa Rota 2030 é uma importante peça.

Embora muitos aqui ainda não acreditem, o Brasil oferece importantes campos para inovação e assusta constatar que inovadores de fora têm percebido e aproveitado melhor essas oportunidades.

A multinacional americana Uber é um bom exemplo.

A empresa viu na questão da insegurança, um dos maiores problemas do País, uma dor comum para a empresa em todo o mundo, um campo fértil para inovação.

Investirá R$ 250 milhões no Brasil para desenvolver tecnologias que aumentem a proteção dos motoristas e usuários.

A Uber nos mostra que valoriza as diversas iniciativas brasileiras em P&D, os excelentes engenheiros e tecnólogos que temos e nossa capacidade de programar e desenvolver soluções que estão entre as mais reconhecidas do mundo.

Mas esse não é um caso isolado. Outros exemplos chamam a atenção.

Elon Musk, uma das pessoas mais inovadoras e desbravadoras de mercados do mundo, já demonstrou que está de olho no Brasil.

O empreendedor está investindo cerca de R$ 30 milhões na implantação de um centro de inovação em logística em Contagem (MG), para desenvolver o Hyperloop, uma espécie de trem-bala, que transporta passageiros e cargas em cápsulas suspensas por um jato constante e pressurizado, dentro de tubos metálicos, utilizando somente energia renovável e podendo atingir até 1.200 km/h.

A HyperloopTT, junto com startups e universidades e centros de pesquisa da região, desenvolverá soluções para resolver problemas de logística, campo no qual o Brasil é um prato cheio.

Quer mais? De olho no nosso etanol – ninguém tem um biocombustível tão eficiente quanto o Brasil – a Mahle e a PSA Groupe estão investindo no desenvolvimento de tecnologias para carros híbridos, com eletricidade e etanol, um possível caminho para a indústria da mobilidade no futuro.

As emissões do escapamento de um carro alimentado com biocombustível de cana, desde a produção até sua distribuição e queima no motor, são quase todas reabsorvidas pelas plantações de cana, deixando na atmosfera apenas entre 25% e 35% do CO2 emitido, quase todo ele vindo do transporte por caminhões a diesel, do combustível das usinas aos postos.

E, por fim, a FIAT também está desenvolvendo projetos com base em etanol e instalou em Pernambuco uma fábrica de software para Powertrain, com mais de 100 colaboradores, que se tornou referência para os mercados americano e europeu.

Partindo para outro case de inovação, audaciosa e, de certa forma, enigmática, temos a Yellow, aplicativo de bikes para aluguel, que conta com acompanhamento por satélite, sensores, pneus que não murcham e painéis solares para recarregar os cadeados.

Olhando para a plataforma percebemos que o modelo de negócio não está somente em conseguir assinaturas do serviço, mas sim na quantidade e efetividade dos dados que a ferramenta pode oferecer em tempo real como, por exemplo, o perfil de quem se desloca, quantas pessoas passam em frente a determinado local ou precisam se deslocar de um ponto específico a outro.

Essa riqueza de dados fornecida pelo aplicativo mostra essa forma de fazer PD&I completamente diferente do que era feito numa fábrica de bicicletas há 20 ou 30 anos.

Paralelamente a esta mudança de paradigma no PD&I e, especificamente no setor automotivo, o programa de benefícios para inovação Rota 2030, traz uma indicação muito clara.

Existem recursos à disposição para PD&I e a mensagem do Governo é que as empresas, tanto de autopeças, quanto importadoras e montadoras, devem parar de ter dúvidas e desconfianças e acelerar nos investimentos em inovação.

Existem outras linhas de fomento, que combinadas com o Rota 2030, podem gerar subsídios extraordinários para a inovação, como financiamentos a juros subsidiados, bolsas para pesquisadores, capital de risco dentre outras.

Com base em nossa experiência e, a partir de casos reais realizados, constatamos que a aplicação otimizada de incentivos fiscais faz com que um projeto com conteúdo de inovação custe para a empresa apenas cerca de 30% do que originalmente custaria.

Para isto é preciso recondicionar o olhar sobre os projetos, enxergá-los como enquadráveis no quesito inovação.

Reclassificar atividades que, por medo ou complexo do velho P&D, acabamos chamando de assistência técnica, marketing ou outro nome qualquer quando, na verdade, o que temos é PD&I sendo feito de um novo jeito.

Chega de ficar incrédulos, pensando se o Brasil é ou não um lugar para inovar e para implantar centros de pesquisa.

Temos os fatores chave de um bom ecossistema de inovação como, por exemplo, nossas universidades e centros de pesquisa, ao lado de graves problemas para serem resolvidos, tornando o cenário ainda mais propício para se fazer inovação.

É claro que otimizar o uso de incentivos da um certo trabalho.

Exige esforço (horas/homem), inteligência e sensibilidade.

É preciso também ter o conhecimento das várias linhas a serem combinadas.

Então, o primeiro passo é organizar-se e destacar uma equipe – que pode ser terceirizada – para tratar deste tema em três níveis: estratégico, operacional e prestação de contas.

E se ainda houver dúvidas se esses programas governamentais realmente funcionam e promovem desenvolvimento, basta olhar os números do falecido Inovar-Auto.

Criticado e atacado, o programa fez com que brasileiros como eu e você leitor, economizássemos cerca de R$ 7 bilhões em combustível durante o período do programa.

O que vamos fazer? Criticar o 2030 ou abraçá-lo para acelerar em inovação.

*Valter Pieracciani é sócio-diretor da Pieracciani Desenvolvimento de Empresas, consultoria especializada em inovação