O biometano deixou de ser apenas uma promessa da transição energética para assumir papel estratégico na política energética brasileira. Com a regulamentação da Lei do Combustível do Futuro, produtores e importadores de gás natural passam a cumprir metas obrigatórias de redução das emissões de gases de efeito estufa, criando uma demanda estruturada para o combustível renovável produzido a partir de resíduos orgânicos.
Esse novo cenário será o principal tema do 13º Fórum do Biogás, promovido pela Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), nos dias 11 e 12 de agosto, no São Paulo Expo, reunindo autoridades, investidores, empresas e especialistas para discutir o futuro do setor.
A nova política representa uma mudança importante para o mercado brasileiro de energia. O biometano passa a integrar oficialmente a estratégia nacional de segurança energética e descarbonização, criando oportunidades para novos investimentos em infraestrutura, produção e certificação.
O avanço ocorre após a regulamentação da Lei nº 14.993/2024, conhecida como Lei do Combustível do Futuro, pelo Decreto nº 12.614/2025. A legislação estabelece metas anuais obrigatórias de redução das emissões para produtores e importadores de gás natural.
Para comprovar o cumprimento dessas metas, foi criado o Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB), mecanismo regulamentado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que certifica a origem renovável e a rastreabilidade do combustível.
Na prática, a medida transforma o biometano em um ativo estratégico, criando demanda regulatória e oferecendo maior previsibilidade para investidores.
Segundo Josiani Napolitano, presidente executiva da ABiogás, o Brasil reúne condições únicas para assumir protagonismo mundial.
“O Brasil reúne todas as condições para liderar a produção de biometano, mas essa liderança depende de transformar potencial em projetos, conectar oferta e demanda e construir um ambiente regulatório que dê previsibilidade aos investimentos.”
Os números mostram que esse crescimento já começou.
Segundo dados da ANP, até junho de 2026 existem 69 unidades produtoras de biometano cadastradas, sendo 21 autorizadas para comercialização e 48 em processo de autorização.
A expectativa é que a capacidade instalada alcance aproximadamente 3,37 milhões de Nm³ por dia até 2028.
Embora representem apenas 11% das plantas de biogás existentes, essas unidades já respondem por cerca de 34% de todo o volume de biogás aproveitado no país, reflexo da elevada capacidade de produção das plantas de purificação.
O Panorama do Biogás 2025, elaborado pelo CIBiogás, mostra que o Brasil possui atualmente 1.803 plantas cadastradas, das quais 1.727 estão em operação.
O crescimento médio do setor foi de aproximadamente 15% ao ano nos últimos cinco anos, ritmo cerca de cinco vezes superior ao crescimento médio do PIB brasileiro no mesmo período.
Hoje, a capacidade nacional de produção de biogás chega a aproximadamente 4,96 bilhões de Nm³ por ano.
Estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que a demanda por biometano poderá atingir cerca de 7 bilhões de metros cúbicos anuais antes de 2035, representando crescimento de até 15 vezes sobre o consumo atual.
Além do aspecto ambiental, o combustível ganha importância estratégica para reduzir a dependência de combustíveis fósseis e ampliar a segurança do abastecimento energético nacional.
O 13º Fórum do Biogás ocorre justamente nesse momento de transformação regulatória.
A programação abordará temas como infraestrutura, mercado de carbono, logística, mobilidade urbana, economia circular, financiamento de projetos, tributação, abertura do mercado de gás, tecnologias, digestato, transportes, segurança operacional e integração do biometano às políticas climáticas.
Segundo Tiago Santovito, diretor-executivo da ABiogás, o setor vive um momento decisivo.
“O biogás e o biometano deixaram de ser um tema técnico de nicho para ocupar a agenda de investimentos do país. O Fórum é o espaço onde essa conversa acontece com a presença de quem decide: do poder público ao investidor.”
A edição de 2025 registrou recorde de público, reunindo mais de 1.500 participantes e 55 patrocinadores, consolidando o evento como o maior da América Latina dedicado ao setor.
Neste ano, a expectativa é ampliar ainda mais os debates sobre a implementação da nova política pública e acelerar projetos capazes de transformar resíduos agroindustriais, urbanos e do saneamento em combustível renovável.
O evento conta com patrocínio master da Orizon, patrocínio diamante da Solví e apoio institucional de entidades como CIBiogás, COGEN, APINE, Rede Mulheres do Biogás, EMBRAPII, entre outras.
As inscrições já estão abertas, com ingressos a partir de R$ 1.690 para o público geral e R$ 990 para associados da ABiogás.
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Biometano — É um combustível renovável obtido pela purificação do biogás produzido a partir de resíduos orgânicos, como lixo urbano, dejetos animais e resíduos agroindustriais. Após a remoção de impurezas, possui características muito semelhantes às do gás natural.
CGOB (Certificado de Garantia de Origem do Biometano) — Documento que comprova que determinado volume de biometano foi produzido de forma renovável, garantindo rastreabilidade e permitindo o cumprimento das metas de descarbonização previstas na legislação.
Lei do Combustível do Futuro — Conjunto de medidas que busca ampliar a participação de combustíveis de baixa emissão de carbono na matriz energética brasileira, estimulando investimentos em biocombustíveis como etanol, biodiesel, SAF e biometano.
Upgrading — Processo industrial que remove dióxido de carbono (CO₂), água e outros contaminantes do biogás, transformando-o em biometano com qualidade equivalente ao gás natural.
Segurança energética — Capacidade de um país garantir fornecimento contínuo de energia com menor dependência de importações, diversificando fontes e aumentando a resiliência do sistema.
Economia circular — Modelo que reaproveita resíduos como matéria-prima para novos processos produtivos, reduzindo desperdícios e impactos ambientais. No caso do biometano, resíduos passam a gerar energia e fertilizantes.

