A corrida pela autonomia dos carros elétricos está ganhando uma nova prioridade: reduzir o tempo necessário para recuperar energia. A Geely aposta em potências superiores a 1 MW, baterias preparadas para taxas extremas e inteligência artificial para controlar justamente um dos maiores desafios dessa equação — o calor.
A Geely Auto apresentou oficialmente a Geely Smart Charge, tecnologia de carregamento que utiliza o modelo de inteligência artificial Xingrui PowerMind para gerenciar a transferência de energia entre carregador e veículo. O sistema estreia acompanhado de uma estação capaz de alcançar 2.250 kW de potência de pico em um único carregador.
Mais importante do que a capacidade nominal da estação é entender quanto dessa potência efetivamente pode chegar à bateria. Em testes com um Lynk & Co 10, por exemplo, foram registrados 1.093 kW de potência máxima, enquanto a bateria permaneceu dentro dos limites térmicos estabelecidos pelo sistema.
A tecnologia trabalha em três frentes denominadas pela fabricante como Extreme Charging, Smart Charging e Automatic Charging. O objetivo é aumentar a velocidade sem simplesmente despejar a maior quantidade possível de energia sobre as células.
Inteligência artificial tenta antecipar o aquecimento da bateria
Um dos principais desafios da recarga ultrarrápida está na temperatura das células. Quanto maior a corrente e a potência envolvidas, mais complexo se torna manter a bateria dentro de uma faixa térmica adequada.
É nesse ponto que entra o Xingrui PowerMind. Por meio de algoritmos de previsão térmica, o sistema consegue antecipar em até 30 segundos a evolução da temperatura da bateria e ajustar dinamicamente a potência entregue pelo carregador.
A estratégia procura manter a temperatura média abaixo de 55°C, enquanto os picos devem permanecer abaixo de 65°C.
Em testes realizados com um Lynk & Co 10, a potência chegou a 1.093 kW. Durante a recarga entre 10% e 97%, a bateria permaneceu abaixo dos 55°C durante 57% do processo, registrando temperatura máxima de 64°C.
Na prática, isso demonstra por que a potência máxima do carregador não conta toda a história. A curva de carregamento e a capacidade térmica da bateria determinam por quanto tempo o veículo consegue sustentar potências elevadas.
Bateria 12C recupera de 10% a 97% em 8 minutos e 40 segundos
A outra parte da tecnologia está nas novas baterias Aegis Golden Brick, com arquitetura de lâmina ultracurta. A Geely apresentou configurações capazes de trabalhar com taxas máximas de 12C e 6C.
A bateria 12C, de 395 mm, pode recuperar de 10% a 70% em aproximadamente 4 minutos e 30 segundos, considerando condições normais de temperatura.
Mantendo a recarga, é possível passar de 10% a 97% em cerca de 8 minutos e 40 segundos. É uma diferença importante porque os últimos percentuais da bateria normalmente exigem redução progressiva da potência para preservar as células.
Já a bateria de 370 mm trabalha com taxa máxima de 6C. Nessa configuração, o intervalo de 10% a 70% pode ser realizado em aproximadamente 8 minutos e 25 segundos.
Por que 12C é tão importante quanto os 2.250 kW
Os 2.250 kW da estação são um número impressionante, mas não significam que qualquer automóvel conectado receberá essa potência. O limite efetivo depende da arquitetura elétrica, tensão, bateria, temperatura, eletrônica de potência e capacidade de refrigeração do próprio veículo.
É justamente por isso que a classificação 12C ajuda a compreender melhor o avanço.
A taxa C relaciona a potência de carga à capacidade da bateria. Em termos simplificados, 1C corresponde teoricamente a carregar uma capacidade equivalente à bateria em uma hora, enquanto taxas muito superiores exigem células, conexões elétricas e gerenciamento térmico preparados para trabalhar com níveis elevados de potência.
Isso também explica a diferença entre anunciar um carregador de 2.250 kW e demonstrar 1.093 kW efetivamente chegando ao veículo. O primeiro número representa a capacidade máxima da infraestrutura; o segundo mostra o nível que o conjunto veículo-bateria conseguiu atingir no teste apresentado.
Infraestrutura passa a fazer parte da disputa
A Geely também pretende transformar a tecnologia em uma rede de carregamento. A companhia estabeleceu como objetivo implantar mais de 100 mil carregadores na China até o final de 2027, dos quais mais de 50 mil deverão utilizar o sistema Geely Smart Charge.
A intenção é alcançar todos os condados chineses. Esse movimento é estratégico porque baterias capazes de receber centenas de quilowatts ou até superar 1 MW só entregam sua principal vantagem quando encontram estações compatíveis com essas potências.
A empresa também anunciou incentivos para estimular a utilização da rede. Compradores elegíveis de novos veículos equipados com a tecnologia receberão 1.000 yuans anuais em créditos de recarga durante dois anos, totalizando 2.000 yuans, para veículos adquiridos antes de 1º de janeiro de 2028.
Outra mudança envolve a garantia das baterias dos modelos elegíveis, ampliada de 8 anos ou 150 mil km para 8 anos ou 200 mil km.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – A chegada aos 2.250 kW na infraestrutura e mais de 1 MW efetivamente registrado no veículo mostra que estamos entrando em uma nova etapa da eletrificação. A discussão deixa de ser apenas quantos quilômetros cabem dentro da bateria e passa a envolver quantos quilômetros podem ser recuperados durante uma parada curta.
Existe, entretanto, uma diferença fundamental entre potência máxima e velocidade real de carregamento. O motorista não abastece um elétrico com o pico de potência, mas com uma curva. Se o carro recebe 1.000 kW durante poucos segundos e rapidamente reduz para algumas centenas de quilowatts, o ganho prático pode ser menor do que o número de quatro dígitos sugere.
Por isso, considero especialmente relevante a aplicação da inteligência artificial ao gerenciamento térmico preditivo. A bateria não precisa apenas aceitar muita energia; precisa fazer isso sem ultrapassar temperaturas que obriguem o sistema eletrônico a reduzir drasticamente a potência para proteger as células.
Os 8 minutos e 40 segundos entre 10% e 97% ajudam a enxergar melhor o resultado do conjunto. Nesse patamar, uma parada para recarga começa a se aproximar da experiência de tempo que o consumidor conhece em um abastecimento convencional, embora isso dependa da disponibilidade de infraestrutura compatível.
E é exatamente aí que está o próximo desafio. Não adianta desenvolver uma bateria 12C se o motorista encontra predominantemente carregadores de baixa potência. Bateria, gerenciamento térmico, arquitetura elétrica e estação precisam evoluir juntos. A disputa tecnológica entre fabricantes chineses começa, portanto, a sair de dentro do automóvel para alcançar toda a infraestrutura energética ao redor dele.
Para acompanhar como baterias 6C e 12C, recarga acima de 1 MW e inteligência artificial podem mudar o uso dos carros elétricos e quais dessas tecnologias poderão chegar ao mercado brasileiro, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- 2.250 kW – É a potência máxima anunciada para um único carregador da nova estação Geely Smart Charge, não necessariamente a potência recebida continuamente pelo automóvel.
- 1.093 kW no veículo – Foi a potência máxima registrada no teste informado com um Lynk & Co 10, evidenciando a diferença entre capacidade da estação e potência efetivamente aceita pelo carro.
- 8 minutos e 40 segundos – A bateria 12C consegue, em condições informadas pela fabricante, passar de 10% a 97% nesse intervalo.
- Controle térmico – O Xingrui PowerMind prevê a evolução da temperatura com até 30 segundos de antecedência para ajustar a potência antes que a bateria ultrapasse seus limites.
- Rede própria – A Geely pretende superar 100 mil carregadores na China até o final de 2027, incluindo mais de 50 mil unidades Smart Charge.
- Garantia ampliada – Para veículos elegíveis, a cobertura da bateria passa de 8 anos/150 mil km para 8 anos/200 mil km.
Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende
- 12C – É uma taxa que relaciona potência de carregamento e capacidade energética da bateria. Quanto maior o número C, maior a potência que as células precisam suportar proporcionalmente à sua capacidade.
- Curva de carregamento – A bateria não recebe necessariamente a potência máxima durante toda a recarga. O sistema aumenta ou reduz a potência conforme nível de carga, temperatura e limites das células.
- Gerenciamento térmico – Conjunto responsável por controlar a temperatura da bateria. Em recargas ultrarrápidas, é fundamental para evitar superaquecimento e permitir que potências elevadas sejam mantidas por mais tempo.
- kW x kWh – kW indica potência, ou seja, a velocidade com que a energia pode ser transferida. kWh representa quantidade de energia armazenada. Um carregador de alta potência pode encher uma bateria mais rapidamente, desde que o veículo consiga receber essa potência.

