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Brasil recicla pouco seus carros e perde valor no fim da vida útil

Auto360 mostra que economia circular automotiva depende de projetar peças para desmontagem, identificar materiais e transformar pesquisa em escala industrial.

Quando um automóvel chega ao fim da vida, aço e alumínio são apenas parte da equação. Plásticos, tecidos, espumas e compósitos também carregam valor — mas recuperá-los exige que a reciclagem comece ainda na engenharia do veículo. No Brasil, uma estimativa apresentada pela ABCAR dimensiona o tamanho da oportunidade, enquanto novas exigências e projetos de pesquisa começam a mudar a lógica da cadeia. O desafio mais difícil, porém, pode estar entre desenvolver uma solução e fazê-la chegar à indústria antes que a tecnologia avance novamente.

O Auto360 – 1º Encontro de Logística Reversa da Cadeia Automotiva, realizado pela Firjan SENAI na Casa Firjan, no Rio de Janeiro, colocou no centro da discussão um problema que acompanha o automóvel muito depois de sua fabricação: o que fazer com seus materiais quando o veículo deixa de ter utilidade.

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General Motors, Stellantis, EMBRAPII, Associação de Engenharia Automotiva (AEA), Inmetro, empresas de reciclagem, desmontadores, reparadores e representantes do poder público participaram dos quatro painéis do encontro.

A diversidade dos participantes revela a complexidade do problema.

Reciclar um automóvel não depende apenas de quem desmonta o veículo. A possibilidade de recuperar determinado material pode começar anos antes, quando uma peça ainda está sendo projetada.

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Cerca de 2 milhões de veículos chegariam ao fim da vida por ano

Segundo estimativa apresentada pela Associação Brasileira de Reciclagem Automotiva (ABCAR) durante o encontro, aproximadamente 2 milhões de veículos chegam ao fim da vida útil anualmente no Brasil, mas apenas 1,5% teriam destinação adequada.

A entidade estima ainda que cerca de R$ 14 bilhões em peças recuperáveis sejam descartados todos os anos.

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São números da ABCAR e devem ser compreendidos como estimativas da entidade, e não como um levantamento oficial consolidado de toda a frota brasileira.

Segundo os dados apresentados no Auto360, o mercado de desmontagem e reciclagem automotiva movimentaria aproximadamente R$ 2 bilhões anuais, envolvendo cerca de 550 mil veículos reciclados. A avaliação da entidade é que esse volume poderia dobrar com maior estruturação do setor.

Mas aumentar o número de veículos desmontados resolve apenas uma parte do problema.

O carro precisa nascer pensando em como será desmontado

A economia circular introduz uma mudança importante na própria engenharia.

Não basta perguntar se determinado material é tecnicamente reciclável.

É preciso saber como ele será identificado, separado, processado e transformado novamente em matéria-prima com propriedades adequadas para outra aplicação industrial.

Um componente produzido com diferentes polímeros, por exemplo, pode dificultar a separação posterior. Fibras incorporadas a outros materiais e tecidos sem identificação adequada também podem perder valor quando chegam à desmontagem.

“Não basta desenvolver uma tecnologia capaz de reciclar determinado plástico ou tecido. É preciso projetar a peça pensando em sua desmontagem, identificar o material, criar uma logística capaz de recuperá-lo, processá-lo sem perder as propriedades necessárias e encontrar uma aplicação industrial para o que foi recuperado”, explica Paulo Roberto Fúrio, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da Firjan SENAI SESI.

É o conceito de design for recycling, no qual decisões tomadas durante o desenvolvimento precisam considerar também o destino futuro do componente.

Até uma farda pode voltar como componente automotivo

Os Institutos SENAI de Inovação em Biossintéticos e Fibras e em Química Verde, no Rio, trabalham em projetos destinados a transformar resíduos em novos insumos industriais.

Um dos exemplos apresentados envolve fardas que deixaram de ser utilizadas pelo Exército.

O material têxtil é processado para estudar seu reaproveitamento em componentes destinados à indústria automotiva, inclusive em aplicações relacionadas ao isolamento acústico dos veículos.

O exemplo mostra que economia circular não significa obrigatoriamente transformar uma peça de automóvel usada em outra peça idêntica.

Um material que encerrou sua primeira função pode encontrar uma segunda aplicação completamente diferente, desde que suas propriedades sejam compatíveis com os requisitos técnicos do novo produto.

É aí que pesquisa de materiais, processos industriais e engenharia automotiva precisam trabalhar juntas.

Plástico reciclado já chega aos automóveis

Dados apresentados no encontro, atribuídos a levantamento da ABIPLAST elaborado pela MaxiQuim, indicam que o Brasil produziu 1,012 milhão de toneladas de resina plástica reciclada pós-consumo em 2024.

Desse volume, 67 mil toneladas teriam sido destinadas ao setor automotivo.

A existência da matéria-prima, entretanto, não resolve sozinha a equação.

Para retornar a um automóvel, o material precisa apresentar especificação, regularidade e desempenho compatíveis com a aplicação.

“Desmontadoras precisam conseguir separar e identificar materiais; recicladores e transformadores precisam de matéria-prima com especificação e regularidade; a indústria precisa garantir desempenho e segurança”, resume Celso Mattos, presidente do Sindirepa-RJ e vice-presidente da Firjan.

Isso explica por que misturar materiais sem considerar sua separação futura pode criar dificuldades décadas depois, no momento da reciclagem.

MOVER coloca economia circular na política industrial

A discussão também entrou formalmente na política industrial brasileira.

A Lei nº 14.902/2024 instituiu o Programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVER), incluindo requisitos para veículos novos, incentivos a pesquisa e desenvolvimento e mecanismos voltados à competitividade e à descarbonização da indústria de mobilidade.

Dentro dessa agenda existe o projeto “Economia Circular de Autopeças Plásticas e Têxteis na Cadeia Automotiva”, coordenado pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT).

Documentos oficiais do INT registram o projeto com início em 1º de agosto de 2024, encerramento previsto para 1º de agosto de 2027 e valor pactuado de R$ 4.162.963,90. O trabalho busca ampliar a incorporação de materiais reciclados e o aproveitamento de componentes para remanufatura e outras aplicações.

A mudança conceitual é importante: reciclagem deixa de ser tratada somente como destino do resíduo e entra na agenda de desenvolvimento tecnológico da própria indústria.

O problema brasileiro também é o relógio

Durante o Auto360, Carlos Sakuramoto, diretor de Manufatura e Materiais da AEA e gerente de Tecnologia e Inovação da Engenharia de Manufatura da General Motors na América do Sul, chamou atenção para outra variável: velocidade.

Na avaliação apresentada no encontro, o Brasil possui recursos naturais, instrumentos de fomento, programas de incentivo e capacidade de pesquisa, mas ainda enfrenta dificuldades para converter essas ferramentas rapidamente em projetos industriais e produção em escala.

Esse intervalo é particularmente crítico na indústria automotiva.

Desenvolvimento de produtos, definição de fornecedores, investimento em fábricas e decisões sobre novas tecnologias seguem calendários internacionais.

Quando uma solução demora excessivamente para atravessar as etapas entre pesquisa, financiamento, validação e aplicação industrial, a necessidade tecnológica que originou o projeto pode já ter mudado.

A comparação apresentada durante o debate foi com a China, onde iniciativas consideradas estratégicas conseguem ser conectadas à propriedade intelectual e à aplicação industrial dentro de uma estratégia de Estado.

Trata-se de uma avaliação apresentada no evento sobre modelos de política industrial, e não de uma equivalência direta entre estruturas econômicas e institucionais diferentes.

Stellantis já transformou desmontagem em operação industrial

Um exemplo de aplicação prática está em Osasco (SP).

A Stellantis inaugurou em agosto de 2025 seu Centro de Desmontagem Veicular Circular AutoPeças, com investimento anunciado de R$ 13 milhões e capacidade para desmontar até 8 mil veículos por ano.

Um ano depois, a companhia já apresentava a unidade como uma operação dedicada ao desmonte legal e rastreável, reutilização de componentes e reciclagem de materiais.

A instalação mostra também que economia circular pode gerar um novo modelo comercial.

Peças que ainda apresentam condições adequadas podem retornar ao mercado, enquanto diferentes materiais seguem para processos de reaproveitamento ou reciclagem.

O desafio seguinte é fazer esse tipo de operação ganhar escala dentro de uma frota nacional muito maior.

Do desmanche para a prancheta de engenharia

A transformação mais profunda talvez esteja justamente na inversão da lógica tradicional.

Durante décadas, o problema do fim da vida útil aparecia essencialmente quando o automóvel chegava ao desmanche.

Agora, a discussão começa na seleção do material e no desenho do componente.

Qual polímero está sendo utilizado?

Ele pode ser identificado?

É possível separar a peça sem contaminar diferentes materiais?

O material recuperado mantém propriedades suficientes para outra aplicação?

Existe demanda industrial para absorvê-lo novamente?

Sem respostas para essas perguntas, um material tecnicamente reciclável pode continuar economicamente difícil de reciclar.

É nessa diferença entre possibilidade técnica e viabilidade industrial que está boa parte do desafio brasileiro.

Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Durante muito tempo olhamos para reciclagem automotiva quase pelo peso. Retiramos aço, alumínio e outros materiais de maior valor e pensamos que o problema estava encaminhado.

Os automóveis modernos tornam essa conta muito mais complexa.

Temos polímeros diferentes, espumas, adesivos, tecidos, fibras, eletrônica e materiais compostos, muitas vezes combinados para reduzir massa, ruído, custo ou melhorar desempenho.

O que é excelente durante a vida do automóvel pode se transformar em dificuldade no final dela.

Por isso considero particularmente importante a discussão sobre projetar para desmontar.

Não adianta desenvolver uma tecnologia extraordinária para reciclar determinado polímero se, quando o veículo chegar ao fim da vida, ninguém conseguir separar esse material de maneira economicamente viável.

Também existe um segundo ponto que vai além da sustentabilidade: tempo é competitividade industrial.

Pesquisa aplicada precisa de validação. Segurança não pode ser atropelada. Requisitos técnicos precisam ser cumpridos.

Mas existe diferença entre respeitar o tempo necessário da engenharia e perder anos em etapas que não acrescentam desenvolvimento tecnológico.

Se o Brasil pretende transformar economia circular em indústria, precisará conectar projeto do veículo, desmontagem, reciclagem, pesquisa, fornecedores, montadoras e mercado para o material recuperado.

A economia circular só fecha quando aquilo que sai de uma cadeia consegue voltar a ter valor em outra.

Para acompanhar como engenharia, materiais, reparação e novas políticas industriais estão mudando todo o ciclo de vida do automóvel, siga @tarcisiomecanicaonline.

Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia

  • Fim da vida começa no projeto – A possibilidade de reciclar um componente depende também das escolhas de materiais, uniões e identificação realizadas durante seu desenvolvimento.
  • R$ 14 bilhões – É a estimativa apresentada pela ABCAR para o valor anual de peças recuperáveis descartadas no Brasil; trata-se de cálculo da entidade.
  • Resíduo pode virar matéria-prima – Projetos da Firjan SENAI estudam aplicações automotivas para materiais provenientes de outros ciclos de utilização, como resíduos têxteis.
  • P&D já está estruturado – O projeto de economia circular de autopeças plásticas e têxteis coordenado pelo INT tem valor pactuado superior a R$ 4,16 milhões e execução prevista até 2027.
  • Desmontagem ganhou escala industrial – O centro da Stellantis em Osasco nasceu com capacidade anunciada para processar até 8 mil veículos anualmente.
  • Tempo também conta – Uma das discussões do Auto360 foi a necessidade de aproximar pesquisa, financiamento e aplicação industrial para que tecnologias cheguem ao mercado dentro dos ciclos de desenvolvimento do setor.

Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende

  • Economia circular – Modelo que procura manter peças e materiais em utilização por mais tempo, por meio de reuso, recuperação, remanufatura ou reciclagem, reduzindo a necessidade de novos recursos.
  • Logística reversa – Estrutura necessária para fazer produtos, componentes ou materiais percorrerem o caminho de volta depois do uso, permitindo sua destinação e eventual reaproveitamento.
  • Design for recycling – Desenvolvimento de um produto considerando desde o início como seus materiais poderão ser identificados, separados e reciclados no futuro.
  • Compósito – Material formado pela combinação de dois ou mais materiais com características distintas; pode oferecer vantagens técnicas, mas sua separação no fim da vida pode representar um desafio para a reciclagem.
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