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Elétricos decepcionam em pontos-chave, mas donos não querem abandoná-los

Pesquisa nos Estados Unidos mostra baixa satisfação com elétricos de mercado de massa, enquanto diferentes estudos revelam que boa parte dos proprietários continua escolhendo a tecnologia.

Os carros elétricos receberam algumas das piores avaliações quando consumidores americanos foram questionados sobre autonomia e valor de revenda. Seria razoável imaginar que esses proprietários estariam voltando rapidamente aos modelos a combustão, mas os dados mostram um comportamento bem mais complexo: mesmo reconhecendo limitações importantes, muitos continuam escolhendo outro elétrico. E uma das explicações pode estar justamente no lugar onde o carro passa a noite.

O mercado americano está revelando um aparente paradoxo na experiência com veículos elétricos a bateria: satisfação relativamente baixa em alguns levantamentos convive com níveis elevados de intenção de permanecer na tecnologia.

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No American Customer Satisfaction Index (ACSI) de 2026, os elétricos de mercado de massa registraram 69 pontos em 100, abaixo dos híbridos, com 80, e dos veículos a gasolina, com 78.

Quando considerados todos os segmentos, os elétricos chegaram a 72 pontos, ainda abaixo dos 80 dos híbridos e 78 dos modelos a gasolina.

Mas a avaliação negativa não se transformou automaticamente em abandono.

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Segundo os dados apresentados pelo ACSI, a probabilidade de recompra dos elétricos de mercado de massa aumentou 13%, chegando a 72, enquanto o indicador de retenção avançou de 57 para 71. A probabilidade de recomendação cresceu 9%, alcançando 73.

Há uma ressalva metodológica importante: o indicador de retenção do ACSI é resultado de seu modelo estatístico e não uma contagem de veículos efetivamente recomprados.

Ainda assim, a diferença entre satisfação e fidelidade levanta uma questão interessante: por que alguém pode reclamar de aspectos importantes de seu elétrico e, mesmo assim, querer comprar outro?

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Autonomia e revenda continuam incomodando

Os pontos fracos aparecem claramente quando a pesquisa separa diferentes atributos da experiência de propriedade.

Em autonomia proporcionada por uma carga ou tanque, os elétricos de mercado de massa receberam 64 pontos, contra 74 dos veículos a gasolina e 76 dos híbridos.

Em expectativa de valor de revenda ou troca, o resultado foi ainda mais significativo: 63 pontos para os elétricos, 71 para gasolina e 75 para híbridos.

São dois fatores diretamente relacionados ao custo e à praticidade de possuir um automóvel.

A autonomia determina até onde o veículo consegue chegar antes de precisar recuperar energia, enquanto o valor residual influencia quanto daquele investimento poderá ser recuperado na futura troca ou venda.

Nos elétricos premium, entretanto, a diferença diminui.

Segundo o levantamento, modelos elétricos de luxo receberam 71 pontos tanto em autonomia quanto em valor de revenda, enquanto os veículos a gasolina do mesmo segmento registraram 72.

A satisfação geral também ficou próxima: 76 para elétricos e 78 para gasolina.

Frio extremo pode reduzir significativamente o alcance

A experiência com autonomia também depende das condições ambientais.

O material cita testes realizados pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos e pelo Argonne National Laboratory em temperatura de -18 °C.

Nessas condições extremas, os elétricos avaliados apresentaram redução média de autonomia próxima de 50% em relação à referência de 22 °C.

A variação foi de 39% em determinados testes rodoviários a 59% em ambiente urbano.

Esse resultado não significa que todo veículo elétrico perderá metade de sua autonomia durante qualquer inverno.

Trata-se de uma condição específica de teste em frio extremo, e fatores como modelo, sistema de climatização, gerenciamento térmico, velocidade e temperatura influenciam o resultado.

Ainda assim, ajuda a explicar por que autonomia continua sendo um dos atributos que mais afetam a percepção dos consumidores em determinados mercados.

A garagem pode explicar parte da fidelidade

Uma possível explicação para o aparente paradoxo aparece quando a recarga doméstica entra na análise.

Segundo o estudo 2026 U.S. Electric Vehicle Experience Home Charging Study, da J.D. Power, aproximadamente 86% das recargas típicas dos veículos elétricos pesquisados ocorrem em casa.

Quando o proprietário possui uma estrutura doméstica adequada, uma das principais diferenças do elétrico deixa de ser necessariamente um inconveniente.

Em vez de visitar regularmente um posto, o motorista pode conectar o veículo quando chega em casa e começar o dia seguinte com energia disponível na bateria.

O estudo também encontrou diferença de satisfação conforme a maneira como a recarga é administrada.

Na escala de 1.000 pontos da J.D. Power, proprietários que sempre programavam o carregamento doméstico alcançaram 734 pontos de satisfação, contra 700 entre aqueles que nunca o programavam.

Por outro lado, apenas 20% dos entrevistados disseram ter recebido da concessionária informações ou orientações sobre carregamento residencial.

Ou seja, vender um elétrico sem ajudar o consumidor a entender onde, quando e como carregá-lo pode deixar de fora uma parte importante da experiência de propriedade.

Carregar em casa também ficou mais caro

Ter o carregador na garagem não elimina todas as reclamações.

Segundo o levantamento citado, proprietários americanos gastaram em média US$ 63 com carregamento doméstico nos 30 dias anteriores, aumento de US$ 5 em relação ao ano anterior.

A satisfação relacionada ao custo da recarga também apresentou queda.

Isso reforça um ponto importante: carro elétrico não significa energia gratuita.

A vantagem econômica depende da tarifa local, eficiência do veículo, quilometragem percorrida e comparação com o custo da alternativa a combustão.

Mesmo assim, a conveniência de sair de casa com a bateria carregada pode transformar a percepção de uso cotidiano.

Dados reais mostram que não existe um único número para fidelidade

Quando a análise passa das pesquisas de satisfação para dados de mercado, os resultados variam consideravelmente conforme metodologia e período estudado.

A Experian Automotive informou que 72,2% dos proprietários de elétricos que retornaram ao mercado nos 12 meses considerados trocaram seu veículo por outro elétrico.

Outros 18,5% escolheram um automóvel com motor a combustão, percentual que havia aumentado em relação ao trimestre anterior.

Já a LexisNexis Risk Solutions encontrou fidelidade ao tipo de propulsão elétrica de 60% em seu estudo de 2026, abaixo dos 68,8% registrados em 2025.

A análise da S&P Global Mobility, considerando período até 2025, chegou a 58,7%, também abaixo do nível observado anteriormente.

A diferença entre os levantamentos não significa necessariamente que um esteja certo e os outros errados.

Eles trabalham com bases, conceitos de fidelidade, metodologias e períodos diferentes, portanto seus percentuais não devem ser tratados como medidas diretamente equivalentes.

Existe ainda uma diferença relevante dentro do próprio universo elétrico.

Segundo os dados apresentados da S&P Global Mobility, proprietários de Tesla registraram 68,9% de fidelidade ao tipo de propulsão, enquanto o conjunto das demais marcas ficou em 46,4% em meados de 2025.

Menos crescimento não significa rejeição dos atuais proprietários

Outro ponto importante é separar duas questões diferentes: quantas pessoas estão entrando no mercado de elétricos e quantas permanecem nele depois de experimentar a tecnologia.

Segundo a Experian, os elétricos a bateria representaram 8,2% dos novos registros de varejo nos Estados Unidos nos 12 meses considerados pelo levantamento do segundo trimestre de 2026.

Um ano antes, eram 9,2%.

Mais de um milhão de novos elétricos foram registrados no período, mas a redução da participação mostra um mercado menos acelerado.

Isso pode coexistir com elevada fidelidade entre parte daqueles que já possuem um elétrico.

Em outro levantamento, o 2026 U.S. Electric Vehicle Experience Ownership Study, da J.D. Power, a satisfação dos proprietários de elétricos atingiu seu maior nível desde o início da série, em 2021.

Entre os entrevistados, 96% disseram que considerariam comprar ou alugar outro veículo elétrico.

Nos elétricos de mercado de massa, a satisfação atingiu 727 pontos em 1.000, contra 658 dos híbridos plug-in de mercado de massa.

O estudo ouviu 5.741 proprietários de veículos elétricos dos anos-modelo 2025 e 2026 durante o primeiro ano de propriedade.

Mais uma vez, os resultados não contradizem necessariamente o ACSI porque as pesquisas utilizam metodologias e amostras diferentes.

Juntas, elas mostram que a relação do consumidor com o carro elétrico é mais complexa do que simplesmente gostar ou não gostar da tecnologia.

Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Esse conjunto de pesquisas traz uma lição importante: satisfação com o carro e vontade de continuar utilizando determinada tecnologia não são exatamente a mesma coisa.

Um proprietário pode reclamar da autonomia em viagens, ficar decepcionado com o valor de revenda e ainda assim descobrir que prefere dirigir um elétrico no cotidiano.

Por quê?

A recarga doméstica ajuda a explicar.

Quando existe uma instalação adequada em casa, muda um hábito que acompanhou o automóvel por mais de um século: o motorista deixa de precisar necessariamente sair para abastecer.

O carro fica estacionado durante horas todas as noites. Se esse período também serve para recuperar a energia utilizada durante o dia, a recarga passa a acontecer durante um tempo em que o veículo já estaria parado.

Mas existe uma condição importante nessa equação.

Essa experiência funciona muito melhor para quem tem onde instalar um carregador e consegue organizar sua rotina ao redor dele.

Quem depende predominantemente de infraestrutura pública pode viver uma realidade bastante diferente.

Isso também ajuda a entender por que não existe uma resposta universal para a pergunta: carro elétrico é mais conveniente?

Depende da missão.

É o mesmo raciocínio que utilizamos para analisar qualquer tecnologia automotiva. O melhor sistema é aquele que consegue atender à necessidade real de utilização do proprietário.

Os números americanos também mostram que os problemas dos elétricos não desapareceram.

Autonomia em condições adversas, valor residual, preço da energia e infraestrutura continuam pesando.

Mas aparentemente existe um grupo crescente de proprietários disposto a conviver com essas limitações porque encontrou outras vantagens na experiência diária que considera mais importantes.

Talvez esse seja o ponto central.

A transição para o veículo elétrico não precisa acontecer porque o produto se tornou perfeito.

Pode acontecer quando, para determinado consumidor, as vantagens passam a superar as limitações.

Para acompanhar o que pesquisas, engenharia e experiência real revelam sobre carros elétricos e novas tecnologias, siga @tarcisiomecanicaonline.

Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia

  • 69 pontos – Foi a satisfação registrada pelo ACSI para elétricos de mercado de massa, abaixo de híbridos e modelos a gasolina.
  • 71 de retenção – O indicador do ACSI subiu de 57 para 71, mas representa um resultado do modelo estatístico da pesquisa, não uma contagem direta de recompras.
  • 64 pontos em autonomia – Elétricos populares ficaram atrás de gasolina e híbridos nesse atributo.
  • 86% em casa – A J.D. Power aponta que a maior parte da recarga típica dos elétricos pesquisados ocorre na residência do proprietário.
  • 72,2% permaneceram elétricos – Foi o resultado encontrado pela Experian entre proprietários que voltaram ao mercado no período analisado; outros estudos apresentam percentuais diferentes.
  • 96% considerariam outro elétrico – No estudo de experiência de propriedade da J.D. Power, quase todos os entrevistados disseram considerar novamente a tecnologia.

Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende

  • Fidelidade à propulsão – Mede a permanência do consumidor em determinado tipo de motorização na troca do veículo; a definição exata varia conforme a metodologia de cada estudo.
  • Recarga doméstica – Recuperação da energia da bateria na residência, normalmente durante períodos prolongados em que o automóvel já permaneceria estacionado.
  • Autonomia no frio – Temperaturas muito baixas podem aumentar o consumo energético, inclusive pela climatização e pelo condicionamento térmico da bateria, reduzindo o alcance disponível.
  • Valor residual – Estimativa de quanto o automóvel conservará de seu valor quando chegar o momento de vendê-lo ou utilizá-lo como parte do pagamento por outro veículo.
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