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Mulheres e parafusos – Sujar as mãos de graxa e arrumar carros quebrados não é mais um trabalho exclusicvo dos homens

Não é de hoje que as mulheres estão dominando profissões que no início do século passado eram restritas aos homens. Mas como você reagiria se fosse levar seu carro para uma revisão na oficina e se deparasse com uma mulher suja de graxa diante do capô?

Se sua resposta foi “não me surpreenderia”, ou você é mulher, ou está consciente da revolução que o sexo feminino está provocando no setor de produção e reparação de automóveis.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que a participação da mulher na indústria automotiva cresceu de 26,35%, em 1985, para 28,13%, em 1997.

Outro indício desse crescimento é a criação de um curso de noções básicas de mecânica exclusivo para mulheres. Há pouco mais de um ano, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), conceituado por seus cursos técnicos em suspensão, freios, embreagem e funilaria, decidiu apostar no público feminino.

“A procura do curso pelas mulheres aumentava a cada ano e resolvemos investir nesse filão”, explica Carlos Anderson, instrutor-orientador da unidade do Senai Conde José Vicente de Azevedo, no bairro do Ipiranga, em São Paulo.

Quando a brasiliense Vânia Pereira decidiu frequentar o curso regular de formação de técnicos em freios e suspensão, em 1997, a realidade era outra.

Ela era a única mulher da turma e ouvia de colegas homens que seu lugar correto seria pilotando o fogão e não automóveis.

Mesmo assim, não se deixou intimidar. Levou o curso de dois anos até o final e hoje é uma das 22 mulheres brasileiras que possuem o certificado da Automotive Service Excelence (ASE), companhia internacionalmente conhecida pela qualidade da formação de seus diplomados no setor automotivo.

Segundo o presidente da ASE no Brasil, Geraldo Santos Mauro, as mulheres costumam se mostrar mais interessadas na obtenção do certificado. “Elas são mais atentas aos enunciados e mais dispostas a aprender, pois se sentem na obrigação de ser tão competentes quanto os homens”, diz Mauro.

Vânia decidiu prestar exame para o certificado da ASE para acabar com comentários machistas. “Com o diploma na parede, não há homem que diga que sou incompetente por ser mulher”, afirma. Competência assegurada, Vânia agora se preocupa com sua aparência. “Cortei o cabelo porque vivia seco por causa dos pingos de óleo que caíam quando me enfiava embaixo dos carros”, diz a mecânica.

Atualmente, seus cuidados com a beleza consomem duas lixas e escovas de unhas por mês, além de potes de hidratante corporal e capilar para evitar o ressecamento provocado pelo contato com a graxa.

Combater a sujeira inerente ao trabalho nas oficinas mecânicas é uma das missões da curitibana Alzira Chiamulera, 42 anos. Em sua oficina, mecânico sujo e cheio de graxa não entra. “Exijo dos meus funcionários que troquem o macacão diariamente e decoro o ambiente com vasinhos de flores, para me diferenciar da concorrência”, conta a primeira mulher brasileira a receber o certificado da ASE.

Alzira entrou no serviço automotivo por causa do ex-marido. Ele possuía uma frota de táxis e achava caro manter os carros em ordem. Decidiu então criar sua própria oficina mecânica. O negócio deu mais certo do que o casamento e, em 1990, Alzira tomou a frente dos negócios.

O serviço automotivo, entretanto, não é sua única afinidade com o trabalho reservado aos homens. Ela é formada em engenharia civil e construiu sua própria casa de praia, no litoral do Paraná. “As pessoas estranham, mas acham legal. Vivem me perguntando o que fazer com seus carros”, diz.

Há 17 anos, ensinar os procedimentos básicos para o conserto de automóveis é o que faz a cientista política americana Mary Jackson, diretora da fundação Women at The Wheel. Ela dá palestras e workshops para mulheres cansadas de depender de mecânicos e de trocas de óleo desnecessárias, por exemplo.

E é autora do livro Car smarts, que já vendeu mais de 100 mil cópias nos EUA e deve chegar ao Brasil em dois anos. Segundo a especialista, não é preciso estudar ou ser mecânica para entender de carros. “Quando o automóvel não anda muito bem, usar quatro dos nossos cinco sentidos ajuda a compreender o problema”, diz.

Assim como Mary, a paulista Vânia Vianna, 40 anos, também migrou da área de humanas para o conserto de carros. Formada em arqueologia, ela entrou para o ramo por causa de um grande amor.

Em 1985, casou-se com o mecânico Heraldo e passou a ajudá-lo na oficina. Nos anos seguintes, Heraldo teve de se afastar do trabalho diversas vezes por causa de um tumor maligno no pescoço e Vânia era quem tomava conta dos serviços.

Em 1989, Heraldo faleceu. “Percebi que aquilo era uma das coisas mais bonitas que ele tinha construído e, um mês após a sua morte, decidi tomar conta da oficina”, conta Vânia. Alguns mecânicos recusaram-se a continuar com uma mulher como chefe e pediram demissão. Mesmo assim, ela não desistiu.

Fez cursos de freios e embreagem e aumentou o faturamento da oficina. “Antes de eu comandar o negócio, havia mecânicos que, durante o verão, arrancavam as mangas do jaleco e também ficavam com o peito peludo à mostra. Acabei com isso. Nossos clientes gostam de bons serviços e de higiene”, afirma.

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