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Faz sentido o incentivo do governo ao carro popular?

Medidas que teriam uma força muito mais relevante e duradoura, ou idealmente, permanente como reforma fiscal, investimentos em pesquisa e desenvolvimento tecnológico, estratégias pensadas para as próximas décadas e não semanas, são simplesmente ignoradas.

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Artigo – *Eder Polizei – Não! Não faz sentido! É uma ideia fora de contexto, impensada, sem levar em conta as implicações da cadeia de fornecedores, necessidades especiais de insumos, expectativas do mercado consumidor, necessidades da cadeia de distribuição, entre outros fatores não pensados ou ponderados à implementação do programa. Mas calma lá! Estou falando ainda do relançamento do “Volkswagen Fusca do Itamar” (modelo antigo) em agosto de 1993.

E não é que o governo está repetindo o erro! Como diria o político francês Charles-Maurice de Talleyrand-Perigord: “Eles não aprendem nada e não esquecem nada”. Referência à percepção de que certos políticos são persistentes em seus objetivos e estratégias, mesmo diante de experiências passadas ou de mudanças de contexto. A especial predileção em apresentar soluções fáceis e simples para problemas difíceis e complexos!

Temos acompanhado a saída de algumas montadoras de veículos do Brasil (entre as principais: Toyota, Ford, Audi e Mercedes), principalmente por conta da política fiscal brasileira pouco estratégica, regular ou previsível, margens cada vez menores, crise econômica, competição internacional, só para citar alguns motivos. Aí o governo resolve na “canetada” distribuir R$ 1,5 bilhão (R$ 500 milhões somente com o carro popular) em caráter temporário com vistas a aquecer o setor.

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Vamos entender o conceito de causa versus efeito: como já citado, a saída das montadoras do Brasil se deveu a fatores estruturais e amplos e não somente a ajustes de alíquotas ou simples impostos ou incentivos a partir de fatores específicos – no caso atual, veículos de até R$ 120 mil e outras regras pouco pensadas ou estudadas (densidade industrial e emissões de CO2 principalmente).

Outro dado relevante que ilustra como os governantes operam (independente do espectro político ou partido) é ver de onde virá o dinheiro que custeará o programa: será da antecipação da cobrança de impostos sobre o óleo diesel, como o PIS e o COFINS previstos originalmente para janeiro de 2024! Será que faltará verba para algum outro programa? Mas pensar nisso agora! Ainda faltam 7 meses!

Até o momento (em apenas duas semanas), essa medida já utilizou 80% do orçamento originalmente previsto (40% somente para a Fiat) e deve incrementar as vendas perto de 100 mil unidades, algo como 6% do total do mercado de automóveis (excluindo comerciais leves, caminhões e ônibus) previsto para venda em 2023, ou seja, a sempre rasteira e míope ação política.

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Em outras palavras, uma ação claramente tática, de impacto limitado e altamente dependente de aporte financeiro. Medidas que teriam uma força muito mais relevante e duradoura, ou idealmente, permanente como reforma fiscal, investimentos em pesquisa e desenvolvimento tecnológico, estratégias pensadas para as próximas décadas e não semanas, são simplesmente ignoradas.

Isso sem contar que os atuais custos de produção obrigatórios aos novos veículos justamente em função de regulamentações legais e políticas como limites de emissão de poluentes, adoção de airbags obrigatórios, freios ABS, entre outros impõe necessariamente novos custos e consequentemente novos preços inclusive aos modelos de entrada.

Como comparação, em 1994 um Fiat Uno Mille ELX 1.0L custava por volta de R$ 8 mil. Esse mesmo preço corrigido somente pela inflação custaria hoje perto de R$ 100 mil. Isso sem incluir os itens obrigatórios citados anteriormente, sem considerar o nível de concorrência atual (em especial aos modelos chineses) e os novos itens incorporados a partir das novas expectativas do mercado consumidor. Hoje o modelo mais barato no Brasil custa perto de R$ 60 mil.

Portanto, somente a partir do nosso “cálculo de padaria”, fica claro que os problemas do setor são muito mais complexos, o que torna as soluções igualmente complexas e amplas. Mas uma coisa é certa: não é uma simples “canetada” que trará calma, previsibilidade e o mais importante, empresas interessadas em investir e ampliar o setor.

Mais uma vez correndo o risco de ser óbvio (mas não vejo outra abordagem), somente reformas amplas, estruturais, estratégicas e consistentes poderão contribuir para o setor e fazer com que voltemos aos níveis de produção e vendas anuais de 2013 perto dos 3,5 milhões de veículos. Como comparação, a previsão para 2023 é de 2,1 milhões.

Um último detalhe: O relançamento do Volkswagen Fusca proposto pelo ex-presidente Itamar Franco em 1993 foi um retumbante fracasso!

Eder Polizei é diretor da agênia Seven7th para o setor automotivo.

*Eder Polizei é doutor e mestre em Administração pela FEA/USP e diretor da agência Seven7th para o setor automotivo

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