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Futuro da mobilidade é multienergético

Duzentos e vinte participantes lotaram o auditório para assistir às dez palestras do simpósio, divididas em três painéis, entremeados por três debates protagonizados pelos palestrantes de cada bloco, que também responderam perguntas do público.

A 9ª edição do Simpósio Eficiência Energética, Emissões e Combustíveis, evento organizado pela AEA – Associação Brasileira de Engenharia Automotiva -, a primeira pós-pandemia, aconteceu em 15 de junho, no Millenium Centro de Convenções, em São Paulo, tendo como tema “Mobilidade Sustentável e Acessível”. Evento contou com apoio do Mecânica Online.

Duzentos e vinte participantes lotaram o auditório para assistir às dez palestras do simpósio, divididas em três painéis, entremeados por três debates protagonizados pelos palestrantes de cada bloco, que também responderam perguntas do público. Muito conhecimento foi compartilhado em seis horas de programação, e uma ideia predominou na maioria das palestras: o futuro da mobilidade é multienergético, e os problemas serão resolvidos por uma combinação de soluções.

Raquel Mizoe, diretora de Emissões e Consumo Veículos Leves da AEA, abriu os trabalhos agradecendo aos presentes e, a seguir, apresentou o primeiro painel, com o tema “A sustentabilidade com acessibilidade”. Paulo Cardamone, consultor da Bright Consulting, iniciou a série de palestras discorrendo sobre “O veículo sustentável e acessível”. Mostrou a evolução da indústria automotiva, que hoje trabalha com metade de sua capacidade produtiva, e apontou o fato como uma das causas dos preços altos.

“Hoje o ticket médio dobrou de R$ 70 mil para R$ 140 mil. A indústria é preparada e sabe fazer automóvel. Se elevar a produção a 75% de sua capacidade, tem espaço para trabalhar os preços. Hoje o problema do setor é se manter de pé”, afirmou. Cardamone alertou para a mudança do perfil do consumidor, que hoje é conectado e exige o máximo de conteúdo no carro.

Na sequência, Rafael Mosquim, da UNICAMP, abordou o tema “Tendências em tecnologia, eficiência e performance na frota de veículos leves do Brasil”, em versão condensada de tese de doutorado que defendeu naquela universidade. Começou destacando a urgência em se iniciar o processo de descarbonização – quanto mais postegar, maior será o desafio. E a necessidade em definir qual o papel que cada tecnologia terá dentro da descarbonização. Porque não será uma tecnologia, serão várias e complementares. Rafael explicou que é possível ter tecnologia embarcada que não necessariamente se traduza em ganho de eficiência. “Isso porque a performance do veículo pode requerer mais energia. A tendência atual de veículos maiores e mais potentes tem um custo energético que é preciso ser levado em conta e pode influenciar bastante a eficiência média da frota”, alertou.

Finalizando o primeiro painel, Thomas Caldellas, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, falou sobre a nova etapa do Rota 2030. Informou que as metas são garantir a evolução tecnológica dos veículos e compartilhar a descarbonização com produtores e distribuidores de combustível. “A principal diferença da primeira fase para a segunda é que vamos trabalhar a eficiência energética ambiental, além de trabalhar a eficiência energética pura e simples do veículo”, informou.

Ao final da terceira palestra, o mediador Ricardo Abreu convidou os palestrantes para um debate, com o questionamento sobre se a mobilidade sustentável se enquadra nos critérios de desenvolvimento sustentável.

Usuários de pesados – O segundo painel teve como tema “Experiência do usuário com energia sustentável”. Felipe Hack, coordenador da FEMSA, empresa coligada à Coca-Cola, abriu a sequência de palestras apresentando o funcionamento do perfil de rotas e os veículos elétricos que compõem sua frota, 35 VW e-Delivery e um BYD T08, na palestra que teve como tema “Veículo elétrico de entrega urbana”. “O custo de manutenção de um caminhão elétrico é 63% menor do que a de um caminhão a combustão. Com esse perfil de frota, evitamos a emissão de 445 t/ano de CO2”, informou.

Cristian Malevic, diretor da unidade de negócios da MWM, e Luís Paulo do Val Cervelatti, gerente de manutenção automotiva da Cocal, apresentaram a palestra seguinte, sobre “Experiências com biometano”. Luís Paulo iniciou com uma apresentação da Cocal, empresa multinacional sediada no interior de São Paulo e com foco na produção de cana de açúcar. “A partir da cana, produzimos etanol, energia, levedura, biogás, metano e CO2. Nossa frota é composta de 2.500 equipamentos e temos o desafio de reduzir o consumo do diesel trocando pelo biometano. Consumimos 30 milhões de litros de diesel/ano e isso nos incomoda”, argumentou.

Cristian, por sua vez, mostrou o histórico da MWM e falou sobre o processo de retrofit na Cocal. “Temos um grande centro tecnológico no Brasil, onde utilizamos cada vez mais combustíveis com menor pegada de carbono. Usamos biogás para geração de energia e buscamos demanda no cliente final”, informou.

Gustavo Teixeira, gerente de engenharia de produtos da FPT Industrial, encerrou o ciclo de palestras do segundo painel apresentando o tema “Incremento do biodiesel no Brasil: desafios para os catalisadores em veículos Proconve”. Afirmou de início que o biodiesel traz uma série de benefícios ambientais, como a redução de partículas, ser biodegradável, atóxico e diminuir a dependência do combustível fóssil. Mas se traz vantagens, o biodiesel também proporciona desafios que devem ser enfrentados. “Quando observamos misturas acima de 7%, especialmente na América do Sul e Ásia, pode acontecer incompatibilidade de materiais, diluição do óleo lubrificante, danos no sistema de injeção, crescimento bacteriano e envenenamento dos sistemas catalíticos e controle de emissões”, ressaltou. Boas práticas são mandatórias. Por fim, apresentou ensaio simulando 700.000 kms exigidos pelo PROCONVE para o ciclo diesel com vários motores de famílias diferentes da linha FPT, usando B20 e o resultado foi que o biodiesel não deve ser obstáculo para o sistema de pós tratamento dos motores P8.

Encerrando o segundo painel, o mediador Vicente Pimenta convidou os palestrantes a subirem ao palco, onde responderam perguntas do público.

Alternativas ao Diesel – Após uma breve pausa para o almoço, o simpósio continuou com o terceiro painel, “Substitutos para o óleo Diesel – Quais as alternativas para veículos pesados”. O primeiro palestrante a se apresentar foi José Luiz Zotin, consultor master da Petrobras. Falando sobre “Óleo Diesel Renovável”, apresentou uma linha do tempo do biodiesel na empresa, desde o início, em 2004, quando foram feitos os testes pilotos e o registro da patente HBio, até 2022, ano em que se realizaram os testes em frotas com o Diesel R e em que o produto entrou no mercado. “O Diesel R, que faz parte do programa de descarbonização da Petrobras, é uma mistura do diesel mineral com um componente renovável, no caso os hidrocarbonetos produzidos a partir da hidrogenação de óleos vegetais e gorduras”, explicou.

A seguir, André Ferrarese, coordenador de pesquisa e desenvolvimento da Tupy, discorreu sobre o tema “Combustíveis para novos motores”. Começou apresentando a empresa, que atua no ramo de fundição, e continuou mostrando a evolução da demanda de energia no Brasil e no mundo, focando na lenta e gradativa substituição dos combustíveis fósseis por renováveis a partir de 2018. “O futuro é multicombustível. Na eletrificação, um dos grandes desafios é a bateria. Quanto maior for, maiores serão as emissões de CO2 na fabricação do veículo e o impacto na carga útil. E não podemos confundir transição energética, que traz soluções temporárias, com o bio sozinho, que é uma solução perene”, explanou.

Valério Marochi, pesquisador do Instituto SENAI de Inovação e Eletroquímica, na sequência, falou sobre “A eletrificação dos transportes pesados”. De início, afirmou que o Brasil deve ser um benchmark de colaboração, e não de polarização, já que é um país continental, em que há cidades evoluídas e outras nem tanto, que não têm condições de utilização da tecnologia de ponta que outras já disponibilizam. “Devemos nos apoiar naquele tripé já citado: equidade, sustentabilidade financeira e também a questão ambiental. Na questão da transição energética para veículos pesados, não podemos deixar de pensar em alguns temas: o transporte responde hoje por um quarto da emissão de gases e chegará a um terço em 2050 (incluindo aviação e transporte marítimo). Será que as práticas atuais para limitar as emissões poderão acomodar esse crescimento?”, questionou.

Finalizando o terceiro painel, Camilo Abduch Adas, da Be 8 Energy, apresentou sua palestra com o tema “O atraso da América do Sul para diesel verde e SAF”. Apresentando-se como empresário, começou destacando o fato de que há muitos pensamentos diferentes na discussão dos temas. E que isso pode atrapalhar a tomada de decisões importantes que, segundo ele, é o que está faltando no momento. “Vim neste mesmo seminário há três anos e ainda não tomamos as decisões que precisamos tomar. Como a União Europeia, que é multicultural, já tem regulamento e nós que falamos a mesma língua não conseguimos?” Para o empresário, o Brasil tem vários bons projetos que não saem do papel, como o programa Combustível do Futuro. “Conversa-se muito e não se toma decisões”, declara.

Para concluir os trabalhos do terceiro painel, Pietro Mendes, secretário de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, do Ministério de Minas e Energia, chamou ao palco os palestrantes, que responderam perguntas do público.

O evento foi encerrado com Renato Linke, um dos coordenadores do Simpósio de Eficiência Energética, Emissões e Combustíveis, agradecendo aos presentes pelas informações e afirmando que “não há um caminho único a seguir, não há uma solução global para a mobilidade, mas sim diversas soluções regionais, que nos coloca como um país privilegiado, pois podemos optar por seguir inúmeras delas ao mesmo tempo”.

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