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China fez robôs de lutas, mas eles ainda não trabalham, por enquanto

Coreografias e lutas escondem um problema real: os humanoides ainda são lentos e cheios de erros para trabalho industrial.

A China consegue construir robôs humanoides que dançam, lutam boxe e fazem kung fu diante das câmeras. O que ela ainda não consegue é fazer esses mesmos robôs trabalharem direito dentro de uma fábrica. Uma investigação baseada em centenas de documentos corporativos, registros de compras governamentais, visitas a fábricas e entrevistas com pessoas do setor revela essa distância entre a promessa e a realidade.

O número que resume o problema é constrangedor: em um centro de treinamento em Liuzhou, um treinador novato consegue fazer um robô executar um movimento útil a cada 300 tentativas. Um treinador experiente melhora isso para 1 a cada 50 — ainda assim, longe de qualquer padrão industrial aceitável.

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O centro pertence à UBTech, que venceu uma licitação de US$ 18 milhões do governo regional de Guangxi para fornecer humanoides e equipamentos. A missão é produzir dados de treinamento para a chamada IA incorporada — robôs capazes de perceber, decidir e agir no mundo físico.

Mas três funcionários admitiram que o projeto, dependente de subsídios, ainda não tem caminho claro para dar lucro, por conta dos altos custos operacionais e dos preços baixos pagos pelos dados nesse mercado ainda incipiente.

A cena resume a tensão central da corrida chinesa por humanoides: o financiamento e o investimento em manufatura avançam muito mais rápido do que a capacidade real dos robôs de operar fora de demonstrações coreografadas.

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Executivos do próprio setor reconhecem essa limitação: o nível de inteligência dos robôs ainda é considerado baixo, e boa parte do que aparece nas demonstrações é, na prática, dança disfarçada de trabalho.

Os números da corrida impressionam pela escala. O setor embarcou cerca de 20 mil unidades globalmente no ano passado, com fabricantes chineses respondendo por 95% do total, segundo o BofA Global Research. Um funcionário do Ministério da Indústria chinês afirmou que o país deve produzir mais de 100 mil humanoides só este ano — e o BofA projeta 1,2 milhão de unidades por ano até 2030.

O domínio chinês já teve repercussão política: em julho, o governo Trump baniu a importação de novos humanoides chineses nos EUA, citando risco à indústria americana de IA e ameaça de ciberataques.

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A estratégia de Pequim segue o mesmo roteiro usado com carros elétricos e painéis solares: subsidiar um setor estratégico, construir capacidade cedo e estimular concorrência feroz para derrubar custos. A diferença é que carros e painéis solares já eram indústrias maduras quando a China acelerou a produção — humanoides ainda não são.

Governos chineses, em todos os níveis, gastaram pelo menos US$ 230 milhões comprando humanoides e itens relacionados no primeiro semestre deste ano — ante US$ 62 milhões no ano anterior e apenas US$ 6 milhões em 2024. O problema: o próprio governo é, ao mesmo tempo, financiador e cliente dos mesmos robôs, inflando artificialmente a demanda aparente.

Hoje, a China já tem mais de 150 empresas de robôs humanoides — mais do que o número de marcas chinesas de veículos elétricos. Analistas chamam a estratégia de “kick start the Hunger Games”: inundar o mercado de subsídios e concorrentes para acelerar o aprendizado, mesmo sabendo que a maioria vai quebrar pelo caminho.

Investidores do setor já preveem consolidação inevitável — é apenas questão de tempo, e de quão dolorosa essa reorganização de mercado vai ser para as empresas que ficarem pelo caminho.

A Unitree, maior vendedora mundial de cães-robôs e segunda maior fabricante de humanoides, estreou na bolsa de Xangai em agosto: as ações dispararam mais de cinco vezes, avaliando a empresa em cerca de US$ 50 bilhões, antes de recuar.

Já a Deep Robotics, de Hangzhou, revelou que subsídios responderam por 42% de seu lucro líquido de US$ 4,2 milhões no ano passado — e a empresa vendeu apenas quatro humanoides em dois anos. A UBTech, por sua vez, fechou contratos de US$ 123 milhões no último trimestre, valor maior que toda a receita de humanoides do ano anterior.

A concorrência está derrubando preços rapidamente. A Morgan Stanley prevê queda de 15% no preço médio de um humanoide em 2026. O robô Kuavo, da Leju Robotics, já caiu 26% em um ano, para cerca de US$ 46 mil. Robôs de aluguel para eventos promocionais, que dançam por dinheiro, hoje custam entre US$ 440 e US$ 600 por dia — bem abaixo dos US$ 1.500 cobrados há um ano.

Na prática industrial, a realidade é ainda mais dura para os humanoides. Na fábrica de elétricos da Xiaomi, em Pequim, 91% da montagem é automatizada — mas com mais de 700 braços robóticos industriais convencionais, não humanoides, que fazem soldagem e rebitagem. Os humanoides ali só estão sendo treinados para tarefas simples, como apertar porcas.

Na fábrica da Zeekr (marca da Geely), em Ningbo, humanoides da UBTech foram testados em tarefas de triagem e manuseio — mas, segundo a própria Geely, quem cuida de “todas as tarefas-chave” na linha ativa de montagem ainda são braços robóticos e veículos automatizados.

Nem tudo é fracasso: a Galbot já usa humanoides em farmácias de mais de duas dezenas de cidades chinesas. Cada robô separa um produto em cerca de 1 minuto, com taxa de acerto acima de 95% entre 5 a 6 mil produtos armazenados — um dos poucos casos comerciais reais da tecnologia hoje.

A explicação técnica para a dificuldade está nos chamados modelos de visão-linguagem-ação, muito mais difíceis de treinar do que os modelos de linguagem usados em chatbots. Pesquisadores da área resumem a dificuldade de um jeito direto: o desafio real não está mais nos grandes movimentos, e sim no ajuste fino — a diferença passa a ser medida em centímetros, e depois em milímetros.

O setor tem hoje cerca de 500 mil horas de dados de treinamento de alta qualidade — mas precisaria de 100 milhões de horas para que os robôs alcancem inteligência física real, segundo estimativas do setor citadas pelo analista Poe Zhao.

Muitos fundadores e investidores esperam que a consolidação do setor comece já no fim de 2026 ou em 2027, à medida que os subsídios forem reduzidos. Enquanto isso, no RoboCup 2026, competição de futebol entre robôs realizada na Coreia do Sul, quase todas as equipes já usam robôs chineses — mesmo aquelas de outros países.

No fim das contas, os robôs de Liuzhou completam tarefas simples a apenas 20% da velocidade ou produtividade de um humano, segundo um funcionário do centro — que aposta em alcançar esse nível em dois ou três anos.

Mecânica Online® com Tarcisio Dias – A diferença entre chatbot e robô humanoide não é só de forma, é de dificuldade técnica.

Um chatbot processa texto; um humanoide de fábrica precisa converter dados visuais em ação física precisa — segurar um tecido, calibrar a força exata de um parafuso — e isso é uma ordem de complexidade completamente diferente.

Os dois casos automotivos da reportagem, Xiaomi e Geely Zeekr, são o dado mais concreto de toda a investigação: mesmo em fábricas de ponta, chinesas, com todo incentivo para usar humanoides, quem ainda faz o trabalho pesado são braços robóticos convencionais.

O fato de o próprio governo ser financiador e cliente dos robôs distorce qualquer leitura de demanda real — não dá para saber quanto desse mercado sobreviveria sem dinheiro público sustentando as compras.

A lacuna de dados (500 mil horas contra 100 milhões necessárias) é a explicação mais honesta para o atraso, mais concreta do que qualquer discurso sobre “bolha” ou “hype” do setor.

Vale acompanhar esse setor de perto: o mesmo padrão de excesso de capacidade e queda artificial de preços já vimos antes na indústria chinesa de elétricos, que hoje pressiona montadoras no mundo todo — inclusive no Brasil.

Siga @tarcisiomecanicaonline para saber se os robôs humanoides chineses vão mesmo substituir braços robóticos nas fábricas.

Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia

1 sucesso a cada 300 tentativas: treinadores iniciantes conseguem apenas esse índice ao ensinar movimentos aos robôs; treinadores experientes chegam a 1 em 50.

China concentra 95% da produção global: o setor embarcou cerca de 20 mil unidades no mundo todo em 2026, quase todas fabricadas por empresas chinesas.

Governo chinês gastou US$ 230 milhões em robôs no 1º semestre: valor bem acima dos US$ 62 milhões do ano anterior e dos US$ 6 milhões de 2024.

Mais de 150 empresas chinesas de robôs humanoides: número que já supera o de marcas chinesas de veículos elétricos.

EUA baniram a importação de humanoides chineses novos: o governo Trump citou risco à indústria de IA americana e ameaça de ciberataques.

Robôs completam tarefas simples a 20% da velocidade humana: dado observado em centro de treinamento em Liuzhou, com expectativa de melhora em 2 a 3 anos.

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IA incorporada (embodied AI): inteligência artificial aplicada a um corpo físico, como um robô, que precisa perceber o ambiente, tomar decisões e agir no mundo real — diferente de uma IA que só processa texto.

Modelo de visão-linguagem-ação (VLA): tipo de inteligência artificial que converte dados visuais em ações físicas, como segurar um objeto ou calibrar a força para apertar um parafuso; mais difícil de treinar do que os modelos de linguagem usados em chatbots.

Braço robótico industrial: equipamento fixo, especializado em uma tarefa específica (soldar, parafusar, colar), usado em linhas de montagem; geralmente mais rápido, confiável e barato que um robô humanoide para essa mesma tarefa.

Robô quadrúpede: robô com quatro pernas articuladas, usado para inspeção, manutenção e outras tarefas que exigem deslocamento por terrenos irregulares, como o “cão-robô” citado na reportagem.

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