Em entrevista exclusiva ao Mecânica Online®, gravada durante o Festival Interlagos 2026, Daniel Tortella, R&D Engineering Manager da GWM, detalhou o trabalho de engenharia feito no Brasil para adaptar os veículos da marca às condições do país — indo muito além de uma simples importação de modelos vindos da China.
Existe uma percepção comum de que carros de marcas chinesas chegam praticamente prontos, só com ajustes cosméticos para o mercado local. A conversa com Tortella mostra outro cenário: motor, suspensão, freios e sistemas eletrônicos passam por um processo de desenvolvimento específico para o etanol, o trânsito e as estradas brasileiras — decisões de engenharia que o consumidor não vê, mas sente na dirigibilidade e na confiabilidade do carro no dia a dia.
Tortella tem quase 20 anos de experiência em calibração de motores e hoje responde por powertrain híbrido, validação veicular e engenharia voltada às necessidades do mercado brasileiro na GWM.
Segundo ele, o principal desafio não é adaptar um motor pronto vindo de fora, e sim desenvolver motores dedicados ao etanol, capazes de operar em toda a faixa que vai do E22 ao E100 — a mistura de combustível característica do Brasil, que exige calibração própria de origem, não apenas ajuste posterior.
Ele também detalhou as diferentes configurações de eletrificação da marca no país, incluindo o Tank 300 e a linha Haval H6, que utilizam transmissões DHT combinadas a diferentes níveis de hibridização, conforme o modelo.
O trabalho com o etanol vai além da calibração de software: segundo Tortella, tanques, bombas, vedações e injetores precisam ser desenvolvidos especificamente para lidar com a corrosividade e a condutividade do combustível brasileiro — características que não existem da mesma forma em mercados onde o etanol não é usado em larga escala.
Um ponto abordado na conversa foi se realmente vale a pena transformar um motor a gasolina em flex, ou se o caminho ideal é desenvolvê-lo já como flex desde o início. Segundo o engenheiro, a GWM buscou um equilíbrio entre eficiência energética e viabilidade técnica nesse processo.
A calibração, segundo Tortella, não para no motor: suspensão, freios e sistemas de assistência ao motorista (ADAS) também passam por ajustes específicos para o padrão de vias e de trânsito do Brasil, diferente das condições encontradas em outros mercados onde a GWM atua.
Ele também comentou sobre o futuro da tecnologia automotiva, com foco em segurança preventiva e auxílios de condução cada vez mais presentes nos veículos — e sobre um desafio que vai além da engenharia: educar o consumidor a efetivamente usar todos os recursos tecnológicos já disponíveis no carro.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – O ponto mais relevante dessa conversa não é a lista de peças adaptadas, é a lógica por trás delas: desenvolver um motor flex de origem, em vez de adaptar um motor a gasolina depois, muda completamente o resultado final em confiabilidade e desempenho.
A faixa de operação do E22 ao E100 é um desafio de engenharia que praticamente só existe no Brasil em escala relevante, o que obriga montadoras globais a desenvolverem soluções que não fazem sentido replicar em outros mercados.
A menção às transmissões DHT combinadas a diferentes níveis de hibridização mostra que a GWM não trata eletrificação como solução única, mas como um conjunto de configurações adaptadas a diferentes perfis de uso e modelo.
O ponto sobre educar o consumidor a usar os recursos do carro é um problema tão real quanto qualquer desafio técnico: de nada adianta calibrar um sistema de ADAS sofisticado se o motorista não sabe, ou não confia, em usá-lo corretamente no dia a dia.
Siga @tarcisiomecanicaonline para assistir à entrevista completa com Daniel Tortella, da GWM.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
Motores dedicados ao etanol, não adaptados: a GWM desenvolveu motores próprios para rodar do E22 ao E100, em vez de apenas ajustar motores vindos de fora.
Configurações de eletrificação da marca: o Tank 300 e a linha Haval H6 usam transmissões DHT combinadas a diferentes níveis de hibridização.
Peças específicas para o etanol brasileiro: tanques, bombas, vedações e injetores foram desenvolvidos para lidar com a corrosividade e a condutividade do combustível.
Calibração vai além do motor: suspensão, freios e sistemas de assistência ao motorista (ADAS) também são ajustados para as vias e o trânsito brasileiros.
Quase 20 anos de experiência em calibração: é a bagagem de Daniel Tortella à frente da engenharia da GWM no Brasil.
Desafio de educar o consumidor: parte da engenharia embarcada só entrega valor real se o motorista souber usar os recursos disponíveis.
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Motor flex dedicado: motor projetado desde o início para funcionar com qualquer proporção de mistura entre gasolina e etanol (de E22 a E100), diferente de um motor a gasolina apenas adaptado para tolerar etanol.
Transmissão DHT (Dedicated Hybrid Transmission): transmissão desenvolvida especificamente para sistemas híbridos, otimizando a transição entre motor elétrico e motor a combustão.
Corrosividade e condutividade do etanol: características químicas do combustível que exigem materiais e vedações específicos em tanques, bombas e injetores, para evitar desgaste prematuro de componentes.
ADAS (Advanced Driver Assistance Systems): conjunto de sistemas eletrônicos de auxílio à condução, como frenagem automática e alerta de colisão, que precisam ser calibrados para as condições reais de trânsito de cada país.

