O verdadeiro lucro na indústria automotiva costuma estar nas patentes. Robert Kearns, inventor do limpador de para-brisa intermitente, recebeu mais de US$ 30 milhões em acordos com Ford e Chrysler pelo uso de sua invenção. O engenheiro da Volvo Nils Bohlin, inventor do cinto de segurança de três pontos, poderia ter seguido o mesmo caminho e se aposentado bilionário — mas cedeu a patente para o bem da humanidade.
Faça as contas e vai entender o tamanho dessa decisão: estamos falando possivelmente da patente mais valiosa da história automotiva, abandonada de propósito.
Uma invenção que veio da aviação – O cinto de segurança foi inventado para uso em aeronaves em meados do século XIX, por George Cayley, engenheiro inglês que não queria cair de seu planador. Tornou-se obrigatório em todas as aeronaves em 1928 — mas, antes de a Volvo poder ceder a versão automotiva mais valiosa da história, a indústria precisava se convencer de que cintos de segurança valiam a pena.
Cintos só começaram a virar item comum em carros em meados do século XX, e não sem resistência. A Nash, montadora de Kenosha que depois viraria American Motors Corporation, ofereceu cintos de fábrica em 40 mil carros em 1949 — os compradores não gostaram, e alguns até pediram a remoção do item. A Ford enfrentou fracasso parecido nos anos 1950.
A Suécia foi pioneira nesse tema: antes de Bohlin inventar o cinto moderno, a Saab já o oferecia como equipamento de série desde 1958, incentivando o resto da indústria a seguir o exemplo. Um estudo da Vattenfall, estatal sueca de energia elétrica, constatou que a maioria das mortes no ambiente de trabalho acontecia nas estradas — achado que motivou dois engenheiros de segurança da empresa, Bengt Odelgard e Per-Olof Wemen, a desenvolver um projeto de cinto, vendido à Volvo no fim dos anos 1950.
Em 1959, Nils Bohlin desenvolveu o sistema definitivo de três pontos, com estudo próprio comprovando que poderia prevenir lesões fatais em velocidades abaixo de 96 km/h. Ele recebeu a patente americana nº 3.043.625 — e ele e a Volvo poderiam ter faturado fortuna licenciando o design, especialmente depois que o cinto virou item obrigatório por lei federal americana em 1968. Em vez disso, optaram por disponibilizá-lo gratuitamente para todos.
Quanto custou essa generosidade – Para não inflar os números, uma estimativa conservadora assume que a Volvo cobrasse apenas US$ 10 por carro, considerando só as vendas de automóveis nos EUA durante os 20 anos até a patente original expirar — dados obtidos de fontes como o New York Times e a Cox Automotive.
Em 1962, o total era de 6,7 milhões de unidades, subindo gradualmente até o pico de 14,6 milhões em 1973. O setor viveu seus três melhores anos entre 1977 e 1979, com média acima de 15 milhões de unidades por ano. Somando as vendas desses primeiros 20 anos, o total chega a quase 244 milhões de unidades — multiplicando por US$ 10 cada, o lucro potencial abandonado seria de US$ 2,4 bilhões. E essa é uma conta conservadora: considera só o mercado americano e uma taxa mínima.
Por que a Volvo deixou tanto dinheiro na mesa? Segundo a NHTSA, cintos de segurança salvaram 329.715 vidas só nos EUA entre 1960 e 2012 — mais do que todos os outros recursos de segurança combinados, segundo a própria agência. Um estudo publicado no PubMed em 2017 apontou 50 mil vidas salvas no Reino Unido desde que o uso se tornou obrigatório em 1983. A própria Volvo estima o número global em mais de 1 milhão de vidas.
A Volvo segue evoluindo o cinto de segurança – Olhando a lista mais recente do Top Safety Pick do IIHS, a Volvo aparece apenas três vezes — resultado que pode parecer surpreendente para uma marca conhecida por segurança, mas que não reflete abandono do tema: a empresa continua investindo em tecnologia inovadora.
A mais recente inovação, que estreia no elétrico EX60 2027, é o cinto de segurança multiadaptativo — próximo estágio na evolução do design de três pontos. Segundo Åsa Haglund, chefe do Centro de Segurança da Volvo Cars, a tecnologia visa “aproveitar dados em tempo real com a ambição de salvar milhões de vidas”.
“Esta inovação representa uma grande melhoria no moderno cinto de segurança de três pontos, uma invenção da Volvo introduzida em 1959 e que estima-se ter salvado mais de um milhão de vidas”, afirma Haglund.
O cinto multiadaptativo usa dados em tempo real do sistema de sensores do carro, ajustando-se instantaneamente conforme peso, altura, formato do corpo e posição do ocupante no banco. O problema que resolve é real: cintos atuais, se apertarem demais num acidente leve, podem causar fratura de costela ou concussão. Um cinto que sabe exatamente quanta força aplicar, e onde, é avanço genuíno.
Ainda não há informação sobre a Volvo tornar essa tecnologia de código aberto, como fez com o cinto de três pontos. Mesmo que use hardware e software proprietários, a ideia central — tensionamento de cinto mais sofisticado — não é exatamente algo que se consegue bloquear por completo. Marcas focadas em segurança, como a Subaru, devem encarar a novidade da Volvo como desafio direto.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Os US$ 2,4 bilhões calculados são piso, não teto: a conta considera só o mercado americano, só 20 anos e uma taxa mínima de US$ 10 por carro — o valor real, somando mercado global e toda a vida útil da patente, seria muito maior.
Colocar lado a lado “alguns bilhões de dólares” e “mais de um milhão de vidas” é o tipo de comparação que dispensa comentário adicional — é provavelmente uma das decisões corporativas mais consequentes da história da indústria automotiva, tomada décadas antes de qualquer conceito moderno de responsabilidade social corporativa.
O detalhe de que cintos de segurança eram impopulares nos anos 1940 e 1950, a ponto de clientes pedirem remoção, é lembrete de que tecnologia de segurança nem sempre se populariza pela oferta — muitas vezes depende de regulamentação ou mudança cultural forçada, padrão que também já vimos em outra chave na adoção de elétricos e híbridos, influenciada por incentivo fiscal.
Vale notar que os números de vidas salvas citados não são contraditórios entre si, são escopos diferentes: NHTSA mede só EUA entre 1960-2012; a estimativa da Volvo é global e sem corte temporal claro — comparação direta entre eles não é adequada, mas ambos apontam na mesma direção de impacto massivo.
Esse cinto multiadaptativo reforça um padrão que já vimos em outras coberturas da marca, do lançamento do ES90 à tecnologia V2L do EX30: a Volvo segue construindo identidade em torno de segurança e aplicação prática de tecnologia, mesmo quando os prêmios de instituto de seguro não refletem isso diretamente no ranking.
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Bohlin desenvolveu o cinto de três pontos em 1959: patente americana nº 3.043.625, cedida gratuitamente pela Volvo.
Estimativa conservadora aponta US$ 2,4 bilhões em royalties perdidos: considerando só o mercado americano e os primeiros 20 anos de patente.
NHTSA credita 329.715 vidas salvas nos EUA entre 1960 e 2012: a Volvo estima mais de 1 milhão de vidas globalmente.
Cintos de segurança eram impopulares nos anos 1940 e 1950: a Nash chegou a remover o item por pedido dos próprios clientes.
Novo cinto multiadaptativo estreia no Volvo EX60 2027: ajusta força e posição conforme peso, altura e postura do ocupante.
Volvo aparece só 3 vezes no ranking mais recente do IIHS: mas segue investindo em tecnologia de segurança de ponta.
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Patente: direito legal que garante a um inventor ou empresa exclusividade temporária sobre uma invenção, permitindo cobrar por seu uso ou licenciamento.
Cinto de três pontos: design de cinto de segurança que passa pelo ombro e pela cintura em um único ponto de fixação, distribuindo melhor a força do impacto pelo corpo do que modelos anteriores de dois pontos.
Tensionamento adaptativo: ajuste automático da força aplicada por um cinto de segurança, calibrado conforme características do ocupante e da situação do impacto, em vez de força fixa padrão.
IIHS Top Safety Pick: selo de segurança concedido pelo Instituto de Seguros para Segurança Rodoviária dos EUA a veículos que atingem desempenho excelente em uma bateria de testes de colisão e prevenção de acidentes.


