O Encontro de Romi-Isettas 2026 bateu recorde de público no último sábado, em Santa Bárbara d’Oeste — mas o dado mais surpreendente do evento nem é sobre os carros brasileiros reunidos ali, é sobre quem veio de fora do país só para ver de perto o primeiro automóvel fabricado no Brasil.
O Romi-Isetta carrega um detalhe histórico que muita gente desconhece: o carro saiu de linha antes mesmo de qualquer política oficial de estímulo à indústria automotiva nacional. Foi decisão privada, não programa de governo, que colocou o Brasil na produção própria de automóveis — e é esse pioneirismo que o evento de 70 anos celebrou.
Realizado no último sábado, 5 de setembro, na sede da Fundação Romi, o encontro caiu na data exata do aniversário de 70 anos do lançamento do modelo. Reuniu 42 veículos e mais de dois mil participantes — recorde tanto em número de carros quanto de público, mesmo com a ameaça de chuva que se confirmou à tarde. Desde cedo, multidão já se formava para ver os Romi-Isetta sendo desembarcados de caminhões plataforma ou chegando rodando por conta própria.
O ponto alto foi a carreata pelas principais ruas e avenidas de Santa Bárbara d’Oeste, em referência ao desfile original dos primeiros 16 Romi-Isettas fabricados no Brasil, realizado em 5 de setembro de 1956 pelas ruas de São Paulo para marcar o lançamento do veículo.
Outro destaque foi a distribuição das “Romisettinhas” — miniaturas amarelas do Romi-Isetta produzidas na hora por máquina sopradora plástica da própria Romi S.A., em milhares de unidades ao longo do dia, para alegria de crianças e adultos.
O evento, com patrocínio da Azimut Brasil e da Romi S.A., gerou grande volume de postagens espontâneas nas redes sociais — de contas especializadas em indústria automobilística a perfis pessoais —, reforçando o lugar cativo do Romi-Isetta na memória afetiva brasileira.
Convidados internacionais
O encontro provou que o pioneirismo da Romi S.A., ao produzir o primeiro automóvel nacional em 1956, é respeitado além das fronteiras do Brasil. Representantes de clubes de colecionadores da Alemanha, Argentina, Chile, Peru e Uruguai marcaram presença, ao lado da diretoria da FBVA (Federação Brasileira de Veículos Antigos), representando o país.
O sucesso reforçou a importância do trabalho da Fundação Romi, que mantém um Centro de Documentação Histórica (CEDOC) com mais de 65 mil fotos, 250 mil páginas de jornais e 4 mil documentos iconográficos — incluindo desenhos técnicos originais do projeto do Romi-Isetta.
O evento também premiou colecionadores, com destaque para Fernando Schobiner, de Londrina (PR), vencedor do prêmio de veículo mais antigo: seu Romi-Isetta tem chassi 003, fabricado em 1956 e restaurado à perfeição.
A breve história do Romi-Isetta
A unidade número 001 deixou a linha de montagem da Romi em Santa Bárbara d’Oeste em 30 de junho de 1956 — antes de qualquer iniciativa prática oficial do GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística) para estimular a produção nacional de veículos.
O projeto nasceu do interesse de Américo Emílio Romi e seu enteado, Carlos Chiti, pelo revolucionário veículo urbano italiano Iso Isetta. Ainda em 1955, importaram duas unidades para estudo de produção local; depois de testes indicarem viabilidade, foram à sede da empresa na Europa. A ideia era parceria, mas a Isetta não tinha recursos no cenário da Itália pós-guerra — a Romi decidiu bancar a empreitada sozinha, obtendo licença de fabricação mediante pagamento de 3% de royalties por unidade vendida.
Com fornecedores nacionais, principalmente a paulistana Tecnogeral (responsável pelas partes metálicas, como chassi e carroceria), o Romi-Isetta nasceu com índice de nacionalização de 72% em peso — número expressivo para a época. O lançamento oficial e a venda da primeira unidade aconteceram em 5 de setembro de 1956.
O projeto herdou soluções da indústria aeronáutica, área de origem do projetista Ermenegildo Pretti: carroceria aerodinâmica em formato de gota d’água, porta única frontal (como em aviões cargueiros), grande área envidraçada (como em caças a jato) e uso extenso de materiais leves, como o alumínio.
O primeiro Romi-Isetta usava motor Iso dois tempos de 236 cm³ e 9,5 hp, bloco e cabeçote em alumínio, posição central. Velocidade máxima de 85 km/h e, graças ao peso de apenas 350 kg, consumo de até 25 km/l.
Em 1959, veio a maior mudança: a Romi-Isetta 300 de Luxe, com motor BMW quatro tempos de 298 cm³ e 13 hp, aumentando desempenho sem sacrificar consumo, além de melhorias técnicas e estéticas.
Em 1961, já tendo cumprido seu papel de indutor da industrialização automobilística nacional — que avançava com a política desenvolvimentista do governo JK —, o Romi-Isetta deixou de ser produzido. A última unidade, branca e amarelo-limão, saiu da linha em 13 de abril daquele ano.
A Romi S.A., fundada em 1930, seguiu como fabricante de máquinas agrícolas e máquinas-ferramentas. Hoje, com renome internacional, tem 13 unidades fabris (duas na Alemanha), atendendo o mercado nacional e exportando para todos os continentes, com destaque para os setores aeronáutico, de defesa, automotivo, bens de consumo e equipamentos agrícolas.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – O fato de o Romi-Isetta ter saído de linha antes de qualquer política oficial do GEIA é detalhe histórico que merece mais destaque do que costuma receber: a narrativa popular sobre o início da indústria automotiva brasileira geralmente credita o governo como ponto de partida, mas o primeiro carro nacional nasceu de decisão privada e arriscada.
O índice de nacionalização de 72% em peso, alcançado já em 1956, é conquista industrial genuinamente impressionante: numa época sem cadeia de autopeças estabelecida no Brasil, produzir a maior parte do carro localmente — não apenas montar peça importada — era aposta industrial séria, não gesto simbólico.
A herança da engenharia aeronáutica no projeto é a parte mais fascinante da história técnica: porta única frontal inspirada em avião cargueiro, área envidraçada de caça a jato, carroceria em gota d’água — mostra como conhecimento de uma indústria pode moldar diretamente o design de outra completamente diferente.
O consumo de 25 km/l, com motor de 236 cm³ e 350 kg de peso, impressiona até pelos padrões de hoje: mostra como peso baixo e simplicidade extrema de projeto conseguem eficiência que carro moderno, mais pesado e complexo, tem dificuldade de igualar mesmo com tecnologia mais avançada.
A presença de colecionadores de cinco países diferentes conecta com outra matéria que já publicamos aqui, sobre o museu CARDE e sua premiação em Pebble Beach: é o mesmo padrão de reconhecimento internacional para o patrimônio automotivo brasileiro se repetindo em instituições e eventos diferentes — sinal de que essa herança já não é só orgulho local.
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Romi-Isetta 001 saiu da linha em 30 de junho de 1956: antes mesmo de qualquer iniciativa oficial do GEIA para a indústria automobilística nacional.
Encontro reuniu 42 unidades e mais de 2 mil participantes: recorde de público e de veículos na história do evento.
Índice de nacionalização em peso chegou a 72% em 1956: resultado surpreendente para a época, viabilizado por fornecedores como a Tecnogeral.
Consumo do modelo original chegava a 25 km/l: com motor de 236 cm³, 9,5 hp e apenas 350 kg de peso.
Colecionadores vieram de cinco países: Alemanha, Argentina, Chile, Peru e Uruguai marcaram presença no evento.
Produção terminou em 1961, após cumprir seu papel histórico: a Romi S.A. seguiu como fabricante de máquinas industriais, hoje com 13 unidades fabris.
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Índice de nacionalização: percentual do peso ou valor de um veículo produzido com peças e componentes fabricados no próprio país, usado como medida de independência da cadeia produtiva local.
Motor dois tempos: tipo de motor que completa seu ciclo de combustão em apenas duas fases do pistão (subida e descida), sendo mais simples e leve que motores quatro tempos, mas geralmente menos eficiente e mais poluente.
Licença de fabricação: autorização comercial que permite a uma empresa produzir um produto desenvolvido originalmente por outra, mediante pagamento de taxa ou royalties.
Royalties: pagamento periódico feito pelo uso de uma tecnologia, marca ou patente pertencente a outra empresa, geralmente calculado como percentual sobre as vendas do produto licenciado.

