O automóvel de 2036 imaginado pelos motoristas britânicos traz uma combinação curiosa: pode ter uma Tesla na dianteira do mercado, provavelmente será um SUV e terá muito mais tecnologia. Mas, quando os consumidores precisam dizer o que realmente esperam dos carros da próxima década, a prioridade não está na inteligência artificial ou na condução autônoma. A resposta revela que, mesmo diante da eletrificação, algumas das exigências mais tradicionais do automóvel continuam decisivas.
Uma pesquisa encomendada pela CarGurus para marcar seus dez anos de operação no Reino Unido procurou descobrir como os motoristas britânicos imaginam o mercado automotivo em 2036.
O levantamento ouviu 1.000 motoristas com 27 anos ou mais e, portanto, deve ser interpretado como uma pesquisa de percepção e expectativa dos entrevistados — não como uma previsão objetiva das vendas que ocorrerão daqui a dez anos.
E uma das respostas chama atenção: 23% acreditam que a Tesla será a marca de automóveis mais vendida no Reino Unido em 2036.
BMW aparece muito próxima, escolhida por 20% dos participantes, enquanto a Mercedes-Benz registra 19%.
Os números indicam um mercado imaginado pelos entrevistados no qual a eletrificação avança, mas fabricantes premium tradicionais continuam sendo percebidos como fortes competidores.
BYD aparece com 9% nas expectativas
Apesar da expansão internacional das fabricantes chinesas, elas ainda aparecem atrás das marcas mais estabelecidas na percepção dos participantes da pesquisa.
A BYD foi escolhida por 9% dos entrevistados como possível líder de vendas em 2036, enquanto a MG registrou 2%.
Curiosamente, outros 9% acreditam que uma marca que ainda não está no mercado poderá assumir a liderança durante a próxima década.
O resultado ajuda a mostrar a diferença entre crescimento comercial e reconhecimento de marca.
Fabricantes podem aumentar rapidamente sua participação, lançar novos produtos e ampliar redes comerciais, mas construir percepção de longo prazo entre consumidores é um processo diferente.
Chris Knapman, diretor editorial da CarGurus UK, destaca justamente esse aspecto ao afirmar que, apesar da crescente presença das fabricantes chinesas, os consumidores pesquisados ainda enxergam BMW e Mercedes-Benz disputando posições importantes em 2036.
Híbridos aparecem à frente dos elétricos
Outro resultado interessante surge quando a pesquisa deixa as marcas e pergunta sobre motorização.
Os híbridos foram selecionados por 41% dos entrevistados como a opção que esperam ser mais popular na próxima década.
Os carros a gasolina aparecem com 33%, praticamente empatados com os 100% elétricos, mencionados por 32%.
O diesel fica consideravelmente atrás, com 15%.
Os percentuais não devem ser somados como uma projeção de participação de mercado, pois representam respostas de preferência ou expectativa dentro da metodologia apresentada, e não uma divisão projetada das vendas futuras.
Ainda assim, o resultado indica que parte dos motoristas britânicos enxerga a próxima década menos como uma substituição imediata de uma tecnologia por outra e mais como um período de convivência entre diferentes formas de propulsão.
Nesse cenário, os híbridos aparecem como a alternativa mais lembrada.
SUV médio é o formato preferido para o futuro
A transformação esperada também aparece na carroceria.
Para 40% dos entrevistados, os SUVs médios deverão dominar a próxima década, enquanto os SUVs compactos foram apontados por 28%.
Os hatches aparecem com 21%.
Segundo a CarGurus, um levantamento realizado pela própria empresa em 2026 sobre os usados mais vendidos da década anterior colocava os hatches como o tipo de carroceria mais popular, com 28%.
Se a percepção registrada na nova pesquisa se concretizar, portanto, o mercado britânico continuaria acompanhando a migração de preferência para veículos com características de SUV.
Consumidor quer carro durável e fácil de manter
Mas talvez o resultado mais significativo do estudo esteja em outra pergunta.
Quando os participantes foram questionados sobre quais prioridades gostariam que os fabricantes adotassem nos próximos anos, durabilidade, confiabilidade e facilidade de manutenção ficaram na primeira posição, com 44%.
Tecnologias de segurança aparecem praticamente empatadas, com 42%.
Depois vem a melhoria da eficiência do motor, mencionada por 31%.
O resultado é relevante porque ocorre justamente em um momento em que automóveis recebem mais software, sensores, conectividade, eletrificação e capacidade de processamento.
Para os entrevistados, toda essa evolução tecnológica não elimina a expectativa de que o veículo continue durável, confiável e simples de manter.
Estacionamento automático supera condução autônoma
Quando a pesquisa entra nas tecnologias que os motoristas gostariam de utilizar no futuro, aparece outro contraste.
A função mais lembrada foi o estacionamento automático, citado por 38% dos participantes como uma tecnologia da qual não gostariam de abrir mão.
A condução autônoma foi mencionada por 30%.
Já 27% apontaram a troca de baterias como uma inovação desejável para o futuro.
O resultado sugere interesse não apenas por tecnologias sofisticadas, mas por soluções capazes de resolver situações práticas da utilização diária.
No caso da troca de baterias, porém, existe um desafio adicional: a tecnologia exige compatibilidade física, elétrica e eletrônica entre veículo, bateria e estação, além de infraestrutura específica. Sua presença entre as respostas representa interesse dos entrevistados e não uma indicação de que esse sistema necessariamente se tornará dominante.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – O dado que mais me chamou atenção nessa pesquisa não foi a Tesla aparecer com 23%.
Também não foi o híbrido chegar aos 41%.
Foi o 44%.
Quando consumidores são convidados a imaginar o carro de daqui a dez anos, poderíamos esperar que inteligência artificial, autonomia ou alguma tecnologia ainda mais sofisticada aparecesse no topo.
Mas a maior preocupação registrada foi muito mais básica: durabilidade, confiabilidade e facilidade de manutenção.
Isso diz bastante sobre o automóvel que estamos construindo.
Os carros estão incorporando baterias maiores, computadores mais poderosos, sensores, câmeras, radares, atualizações de software e sistemas cada vez mais integrados.
Tudo isso pode melhorar segurança, eficiência e experiência de utilização.
Mas existe uma pergunta que continuará chegando à oficina: quanto custa manter tudo isso funcionando depois de cinco, oito ou dez anos?
É interessante também perceber que o estacionamento automático, com 38%, aparece à frente da condução autônoma, com 30%.
Uma tecnologia resolve uma dificuldade concreta do cotidiano. A outra promete transformar profundamente a mobilidade, mas envolve desafios tecnológicos, regulatórios e de infraestrutura muito maiores.
Talvez esteja aí uma mensagem importante para a indústria.
O consumidor pode querer um carro mais eletrificado, conectado e inteligente, mas não necessariamente aceita trocar confiabilidade e facilidade de manutenção por complexidade tecnológica.
E isso também interessa ao Brasil.
Independentemente de qual tecnologia de propulsão ganhar espaço nos próximos anos, oficinas, concessionárias e profissionais precisarão acompanhar uma frota na qual mecânica, eletrônica, alta tensão e software estarão cada vez mais conectados.
O carro do futuro pode mudar bastante.
Mas ele continuará precisando funcionar todos os dias — e alguém continuará precisando saber como mantê-lo funcionando.
Para acompanhar como eletrificação, manutenção e novas tecnologias estão transformando os automóveis, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- 41% para os híbridos – Foi a tecnologia de propulsão mais mencionada pelos entrevistados ao imaginar a preferência na próxima década.
- 23% para a Tesla – Essa parcela acredita que a fabricante poderá ser a marca mais vendida no Reino Unido em 2036; trata-se de percepção dos entrevistados, não de uma previsão de mercado.
- 9% para a BYD – A fabricante chinesa aparece abaixo de Tesla, BMW e Mercedes-Benz nas expectativas registradas pelo levantamento.
- 40% para SUVs médios – É o tipo de carroceria que mais participantes esperam ver em destaque na próxima década.
- 44% priorizam manutenção – Durabilidade, confiabilidade e facilidade de manutenção lideraram as prioridades apontadas para os fabricantes.
- 38% querem estacionamento automático – A tecnologia aparece à frente da condução autônoma, mencionada por 30% dos entrevistados.
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- Híbrido – Veículo que combina diferentes fontes de propulsão, normalmente motor a combustão e um ou mais motores elétricos; existem diferentes arquiteturas e níveis de eletrificação.
- Condução autônoma – Termo amplo para sistemas capazes de assumir tarefas de direção; sua capacidade depende do nível de automação e das condições específicas em que o sistema pode operar.
- Troca de bateria – Sistema que substitui rapidamente uma bateria descarregada por outra carregada, exigindo veículos e estações projetados para essa operação.
- Manutenibilidade – Característica relacionada à facilidade, tempo, recursos e custos necessários para inspecionar, diagnosticar e reparar um veículo.

