O setor automotivo brasileiro opera com déficit comercial de US$ 67,7 bilhões em autopeças, mas aposta em adensamento produtivo e rotas tecnológicas próprias para reduzir dependência externa.
Apesar de investir em P&D acima da média industrial (1,06% contra 0,62%), a cadeia de fornecedores ainda importa componentes de alta complexidade tecnológica, principalmente da Ásia e da Europa.
Segundo o consultor da CEPAL e professor do ITA, Thiago Caliari, o entrave não está na capacidade técnica, mas no “paradoxo da escala”: produzir localmente é possível, mas o baixo volume da demanda interna encarece o produto final e empurra empresas para a importação.
Caliari destacou a rota tecnológica nacional baseada no motor híbrido-flex, que pode servir como ponte para a transição energética. Essa solução aproveita a infraestrutura de biocombustíveis já existente, mantendo empregos e competências enquanto o mercado global de baterias amadurece.
Atualmente, o Brasil soma cerca de R$ 95 bilhões em novos investimentos anunciados pelas montadoras para esta década, com foco em eletrificação e novas plataformas de mobilidade.
O governo aposta no Programa MOVER (Mobilidade Verde e Inovação), que prevê R$ 19 bilhões em créditos até 2028. O programa orienta a indústria em quatro pilares: descarbonização, inovação tecnológica, adensamento produtivo e segurança veicular.
O coordenador do MDIC, Gustavo Duarte Victer, informou que um edital-piloto de nacionalização de autopeças está em elaboração, com aporte inicial de R$ 10 milhões. A chamada focará em itens críticos como componentes de ar-condicionado, caixas de marcha e blocos de motores.
As propostas serão selecionadas pelo impacto e exigirão compromisso de aquisição de lotes das peças desenvolvidas, garantindo escala mínima para viabilizar a produção nacional.
Outro ponto estratégico é o setor de baterias. A CNI, em parceria com o Instituto E+ Transição Energética e o Net Zero Industrial Policy Lab, está conduzindo estudo sobre minerais críticos e oportunidades de captura de valor na cadeia de baterias.
O objetivo é transformar capacidades latentes em desenvolvimento industrial efetivo, criando políticas que aproveitem a abundância de recursos naturais e a matriz elétrica renovável do Brasil.
Os analistas da CNI, Rodrigo Comini Curi e Felipe de Sá Carneiro, junto com especialistas da E+, destacaram que o estudo está em fase de validação com empresas e operadores da cadeia produtiva.
A partir desse diagnóstico, será construída uma agenda de recomendações ancorada nas capacidades reais da indústria brasileira e nas oportunidades abertas pela transição energética.
O superintendente da CNI, Fabrício Silveira, reforçou que o fortalecimento da cadeia automotiva é essencial para ampliar competitividade e reduzir vulnerabilidades externas.
“O Brasil precisa transformar sua capacidade técnica em escala produtiva. O adensamento da cadeia automotiva é estratégico para reduzir dependência externa e consolidar a indústria nacional na transição energética.” — Tarcisio Dias, Editor do Mecânica Online®
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O debate também abordou a importância de políticas industriais consistentes para garantir previsibilidade e atrair investimentos de longo prazo.
A integração entre academia, setor produtivo e governo foi apontada como fundamental para acelerar a nacionalização de componentes e ampliar a competitividade global.
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• Participação da indústria: 4% da transformação nacional
• Faturamento anual: R$ 222,6 bilhões
• Déficit comercial em autopeças: US$ 67,7 bilhões (2024-2025)
• Investimentos anunciados: R$ 95 bilhões até 2030
• Programa MOVER: R$ 19 bilhões em créditos até 2028
• Edital-piloto: R$ 10 milhões para nacionalização de peças críticas
Paradoxo da escala – Produção nacional viável tecnicamente, mas limitada pelo baixo volume de demanda interna.
Híbrido-flex – Combinação de motor elétrico e etanol, aproveitando infraestrutura já existente.
Adensamento produtivo – Estratégia de ampliar a produção local de componentes para reduzir dependência externa.

