O futuro da mobilidade brasileira não será decidido apenas dentro das fábricas de automóveis, caminhões ou máquinas. Energia, produção agrícola, inteligência artificial, infraestrutura e formação de engenheiros estão cada vez mais conectadas — e essa relação ganhará espaço central em um dos principais encontros de engenharia e mobilidade do País.
A 33ª edição do Congresso e Mostra Internacionais de Mobilidade SAE BRASIL será realizada nos dias 7 e 8 de outubro de 2026, no Pavilhão da Bienal do Parque Ibirapuera, em São Paulo, colocando pela primeira vez a agroindústria no centro de seu tema principal.
O congresso terá como eixo “Agroindústria e Mobilidade: Conectando Energia, Inovação e Desenvolvimento Sustentável” e será presidido neste ano por Rafael Miotto, presidente da CNH para a América Latina.
A escolha mostra como agricultura, máquinas, transporte e energia deixaram de funcionar como universos tecnológicos separados.
Produzir mais alimentos envolve máquinas agrícolas cada vez mais automatizadas e conectadas. Transportar essa produção depende de caminhões, ferrovias, hidrovias e outros modais. Ao mesmo tempo, biocombustíveis, eletrificação, hidrogênio e novas matrizes energéticas passaram a fazer parte da discussão sobre redução de emissões.
Miotto defende que colocar o agronegócio no centro do congresso reconhece a importância econômica do setor e a capacidade brasileira de desenvolver soluções associando produtividade agrícola, energia e mobilidade.
O avanço da inteligência artificial adiciona outra dimensão a essa transformação.
Máquinas agrícolas já podem trabalhar combinando sensores, geolocalização, conectividade, processamento de dados e diferentes níveis de automação. O objetivo não está apenas em substituir tarefas realizadas pelo operador, mas em utilizar máquinas e insumos de maneira mais eficiente.
Esse será justamente um dos assuntos discutidos durante o evento.
A organização prevê mais de 90 horas de conteúdo, distribuídas por sete palcos simultâneos. A expectativa é receber aproximadamente 3 mil visitantes durante os dois dias.
A programação estará organizada em quatro grandes trilhas: Engenharia Brasileira, Descarbonização, Transformação Digital e Mobilidade.
A primeira delas discutirá um problema que acompanha praticamente todas as transformações tecnológicas da indústria: quem desenvolverá, integrará e manterá essas novas soluções?
A trilha de Engenharia Brasileira abordará educação, formação de talentos, participação da academia e perspectivas profissionais, incluindo os painéis Educação de Engenharia, Jump Start e SAE Jovens.
Essa discussão ganha importância diante da transformação das competências exigidas do engenheiro.
Conhecimentos tradicionais de mecânica, materiais, termodinâmica e processos industriais continuam necessários, mas passaram a dividir espaço com software, eletrônica, análise de dados, inteligência artificial, sistemas embarcados e gerenciamento energético.
Na trilha de Descarbonização, o congresso discutirá crise climática, biocombustíveis, hidrogênio, transição energética e infraestrutura.
Para o Brasil, essa discussão possui características próprias.
O País reúne produção agrícola em grande escala, experiência acumulada com etanol e biodiesel e uma matriz elétrica com participação relevante de fontes renováveis. Isso permite discutir diferentes caminhos para reduzir emissões sem necessariamente depender de uma única tecnologia.
Em máquinas agrícolas e veículos pesados, por exemplo, a escolha da fonte de energia precisa considerar autonomia, disponibilidade do equipamento, infraestrutura, potência necessária e condições reais de utilização.
A eletrificação pode funcionar muito bem em determinadas aplicações. Biocombustíveis podem oferecer vantagens em outras. Hidrogênio e seus derivados também estão sendo estudados para operações nas quais a eletrificação direta apresenta maiores dificuldades.
Por isso, a discussão sobre descarbonização precisa ir além da substituição de um combustível por outro.
É necessário analisar a cadeia energética completa, desde a produção da energia até sua distribuição e utilização pela máquina ou veículo.
A trilha de Transformação Digital abordará inteligência artificial, Big Data, conectividade e novas tecnologias aplicadas à indústria e aos serviços de mobilidade.
Entre os painéis previstos está a discussão sobre inteligência artificial e automação no agronegócio e seus impactos sobre produtividade e operações no campo.
Na prática, a digitalização pode modificar profundamente o funcionamento de uma máquina agrícola.
Sensores conseguem acompanhar parâmetros de operação, enquanto sistemas de posicionamento e processamento de dados permitem planejar trajetórias, reduzir sobreposições e melhorar a utilização de combustível, sementes, fertilizantes e outros recursos.
O avanço da conectividade permite ainda que informações produzidas no campo sejam analisadas remotamente.
Com isso, manutenção também pode tornar-se mais previsível. Dados de temperatura, pressão, vibração e outros parâmetros podem ajudar a identificar alterações no comportamento de determinados componentes antes que uma falha interrompa a operação.
A quarta trilha será dedicada à Mobilidade, reunindo discussões sobre os segmentos aéreo, aquaviário, ferroviário, caminhões e ônibus e intermobilidade.
Essa visão integrada é particularmente importante para o agronegócio.
Uma safra não termina quando o produto deixa a propriedade rural. Grãos e outros produtos precisam percorrer rodovias, terminais ferroviários, hidrovias, portos e centros logísticos até alcançar o consumidor ou o mercado externo.
A eficiência de um único veículo, portanto, representa apenas uma parte da equação.
O tradicional Painel de CEOs reunirá Rafael Miotto, Gastón Diaz Perez, presidente e CEO da Robert Bosch, Christopher Podgorski, presidente e CEO da Scania Latin America, e Ricardo Faria, fundador da Global Eggs.
O debate será direcionado aos desafios e às estratégias para integrar agroindústria, energia e mobilidade no Brasil.
A programação também terá espaço específico dedicado à indústria do hidrogênio, tecnologia que ganhou relevância nas discussões sobre transição energética.
O tema será particularmente interessante porque o hidrogênio começa a atravessar uma fase na qual a viabilidade econômica ganha tanta importância quanto a possibilidade técnica.
Produção, armazenamento, transporte, infraestrutura e custo precisam ser analisados conjuntamente para determinar em quais aplicações o hidrogênio poderá competir com eletrificação direta, biocombustíveis e combustíveis convencionais.
Além dos painéis, a programação prevê sessões técnicas, área interativa, ambiente de coworking, SAE Club para associados, SAE 4MOBILITY CORNER e atividades destinadas à aproximação entre empresas, instituições e profissionais.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Colocar a agroindústria no centro de um congresso tradicionalmente associado à engenharia da mobilidade mostra uma transformação importante. O veículo deixou de ser analisado isoladamente para fazer parte de um sistema que envolve energia, dados, infraestrutura e produtividade.
Isso fica particularmente evidente no campo. Um trator ou uma colheitadeira moderna não pode mais ser compreendido apenas por potência e torque. Software, sensores, posicionamento, automação e conectividade passaram a interferir diretamente na eficiência da operação.
O mesmo acontece com caminhões. Não basta discutir qual combustível apresenta menor emissão no escapamento. É necessário entender de onde vem a energia, onde será abastecida, quanto tempo o veículo permanecerá parado e qual solução entrega produtividade suficiente para a operação.
Nesse cenário, o Brasil possui uma característica interessante: diferentes alternativas podem coexistir. Etanol, biodiesel, biometano, eletricidade e eventualmente hidrogênio podem encontrar aplicações distintas de acordo com região, infraestrutura e tipo de equipamento.
A inteligência artificial adiciona uma nova camada. No campo, ela pode ajudar máquinas a interpretar grandes quantidades de dados e tomar decisões operacionais mais rapidamente. Mas automação eficiente depende de sensores confiáveis, boa calibração, conectividade e integração entre sistemas mecânicos e eletrônicos.
Por isso, talvez o ponto mais importante do Congresso SAE BRASIL esteja justamente na conexão proposta pelo tema. Engenharia, agroindústria, energia e mobilidade precisam ser discutidas juntas porque os problemas deixaram de pertencer a apenas um desses setores.
Acompanhar essa integração ajuda a compreender para onde caminham máquinas, caminhões e sistemas de transporte no Brasil. Siga @tarcisiomecanicaonline para acompanhar conteúdos sobre engenharia, mobilidade, agronegócio e as tecnologias que estão transformando a mecânica.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- 7 e 8 de outubro – A 33ª edição do Congresso e Mostra Internacionais de Mobilidade SAE BRASIL acontecerá no Pavilhão da Bienal do Parque Ibirapuera, em São Paulo.
- Agro no centro – Pela primeira vez, a agroindústria assume posição central no tema do Congresso SAE BRASIL, conectada à energia, inovação e sustentabilidade.
- Mais de 90 horas – A programação será distribuída por sete palcos simultâneos, com expectativa de aproximadamente 3 mil visitantes.
- Quatro trilhas – Engenharia Brasileira, Descarbonização, Transformação Digital e Mobilidade organizam os principais debates técnicos do congresso.
- IA chega ao campo – Automação, inteligência artificial, Big Data e conectividade serão discutidos como ferramentas para produtividade e eficiência das operações agrícolas.
- Energia em discussão – Biocombustíveis, eletrificação, hidrogênio e infraestrutura fazem parte do debate sobre como reduzir emissões mantendo produtividade e competitividade.
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Big Data – Utilização e processamento de grandes volumes de informações provenientes de máquinas, sensores, operações e outras fontes, permitindo identificar padrões e apoiar decisões.
Automação agrícola – Integra tecnologias capazes de executar ou auxiliar tarefas realizadas por máquinas no campo, utilizando sensores, posicionamento, software e sistemas de controle.
Descarbonização – Conjunto de estratégias destinadas a reduzir as emissões de gases de efeito estufa associadas a uma atividade, incluindo mudanças de combustível, eficiência energética e novas tecnologias.
Intermodalidade – Integração de diferentes meios de transporte dentro da mesma cadeia logística, como rodovias, ferrovias e hidrovias, buscando maior eficiência no deslocamento de cargas ou passageiros.

