Em um superesportivo capaz de superar 345 km/h e acelerar de 0 a 100 km/h em apenas 2,4 segundos, o pneu deixa de ser simplesmente o componente que conecta o carro ao asfalto. No Lamborghini Revuelto SV, ele passa a fazer parte do desenvolvimento dinâmico do veículo, com soluções específicas para pista, rua e inverno — e algumas diferenças técnicas ajudam a entender por que um mesmo automóvel precisa de três tipos de pneus.
A Bridgestone foi escolhida como fornecedora exclusiva de pneus do Lamborghini Revuelto SV (Super Veloce) e desenvolveu especialmente para o modelo uma nova opção da família Potenza: o Potenza Race R.
Trata-se de um pneu semi-slick homologado para circulação em vias públicas, mas concebido prioritariamente para explorar o desempenho do superesportivo em circuitos.
Essa característica já estabelece a primeira diferença importante.
Um pneu de rua precisa trabalhar em uma variedade enorme de condições: chuva, diferentes temperaturas, pavimentos irregulares, ruído, conforto e durabilidade.
Um semi-slick pode deslocar parte desse compromisso em direção à aderência em piso seco e ao comportamento em pista.
No Potenza Race R, a Bridgestone utiliza composto inspirado no automobilismo e desenho específico da banda de rodagem, buscando elevar a aderência e a precisão de direção em piso seco.
Outro objetivo foi fazer o pneu atingir rapidamente sua faixa adequada de temperatura.
Isso é particularmente importante em circuito.
A borracha modifica seu comportamento conforme a temperatura. Quando está muito fria, pode não entregar a aderência pretendida; quando supera sua janela térmica de projeto, também pode perder desempenho e sofrer degradação acelerada.
Por isso, não basta desenvolver um pneu capaz de produzir muita aderência durante uma volta rápida.
É necessário buscar consistência durante várias voltas, controlando temperatura, deformação e comportamento da banda de rodagem.
No Revuelto SV, esse trabalho ganha dimensão adicional pelas características do próprio veículo.
O modelo utiliza motorização híbrida associada ao V12 e alcança mais de 345 km/h, além dos 100 km/h em apenas 2,4 segundos.
Nessas condições, os pneus precisam administrar esforços longitudinais nas acelerações e frenagens, cargas laterais nas curvas e deformações provocadas pelas elevadas velocidades.
As medidas também revelam bastante sobre o projeto.
Na dianteira são utilizados pneus 265/35 ZR20 (99Y).
Atrás, são enormes 345/30 ZR21 (111Y).
A diferença de 80 mm na largura nominal entre os eixos evidencia a importância da capacidade de transmitir forças pelo eixo traseiro, mas largura não deve ser interpretada isoladamente como sinônimo de aderência.
Composto, construção da carcaça, temperatura, pressão, geometria da suspensão e distribuição das cargas trabalham conjuntamente.
Outra curiosidade está na própria combinação dos diâmetros.
O Revuelto SV utiliza rodas de 20 polegadas na dianteira e 21 polegadas na traseira, configuração escalonada que permite aos engenheiros trabalhar de maneira diferente o comportamento de cada eixo.
Todos os pneus específicos recebem uma marcação Lamborghini na lateral, identificando que aquela configuração foi desenvolvida em conjunto para o automóvel.
Isso também merece atenção.
Um pneu homologado especificamente por uma fabricante pode compartilhar nome e dimensão com outro disponível comercialmente, mas possuir ajustes próprios de composto, construção ou características dinâmicas para determinado veículo.
Por isso, na substituição dos pneus de superesportivos desse nível, não basta necessariamente procurar somente marca, modelo e dimensão.
A especificação de homologação também pode ser relevante para preservar o comportamento previsto durante o desenvolvimento do carro.
Três pneus para três utilizações diferentes
O Revuelto SV não ficará limitado ao Potenza Race R.
A Bridgestone desenvolveu um pequeno portfólio específico para o modelo, formado também pelo Potenza Sport e pelo Blizzak LM005.
A diferença entre eles ajuda a mostrar como não existe um pneu perfeito para todas as condições.
O Potenza Race R coloca a pista no centro das prioridades. Sua proposta semi-slick favorece aderência e precisão no seco e busca rapidez no aquecimento.
O Potenza Sport, por outro lado, foi desenvolvido para uma utilização mais ampla em vias públicas, equilibrando desempenho em alta velocidade com comportamento tanto em piso seco quanto molhado.
Existe ainda uma configuração Potenza Sport com tecnologia Run-Flat (RFT).
Segundo as condições informadas para o sistema, ela permite continuar rodando depois de uma perfuração por até 80 quilômetros, respeitando velocidade máxima de 80 km/h, mesmo com pressão de 0 bar.
O funcionamento é possível graças à construção capaz de sustentar temporariamente o veículo mesmo após uma perda completa da pressão.
Isso não significa que o pneu possa continuar sendo utilizado normalmente.
A tecnologia existe para permitir deslocamento limitado até um local seguro ou ponto de atendimento, respeitando as condições previstas para o sistema.
O terceiro integrante é o Blizzak LM005, desenvolvido especificamente para utilização durante o inverno.
Aqui, novamente, aparece uma diferença fundamental de engenharia.
O desafio deixa de ser somente suportar altas cargas em pista e passa a incluir baixas temperaturas e condições climáticas adversas.
O interessante é que todos precisam funcionar no mesmo automóvel.
Isso significa que a Lamborghini e a Bridgestone tiveram de desenvolver diferentes soluções mantendo características dinâmicas compatíveis com um superesportivo de desempenho extremo.
Do computador para o asfalto
Outra particularidade do projeto está na forma como os pneus foram desenvolvidos.
A Bridgestone utilizou sua tecnologia Virtual Tyre Development (VTD), que permite realizar virtualmente parte das etapas que tradicionalmente dependeriam da produção e avaliação sucessiva de protótipos físicos.
Em vez de fabricar uma grande quantidade de combinações para depois descobrir experimentalmente quais funcionam melhor, os engenheiros conseguem simular previamente diferentes características do pneu e reduzir o número de alternativas que precisam chegar à fase física.
Segundo a Bridgestone, essa metodologia pode reduzir em até 60% o consumo de matérias-primas e as emissões de CO₂ relacionadas à fase de desenvolvimento dos pneus.
A tecnologia virtual, entretanto, não significa eliminar testes reais.
Em um automóvel com as características do Revuelto SV, o comportamento final precisa ser validado fisicamente porque sensações de direção, progressividade no limite, aquecimento e interação entre pneu, suspensão e controles eletrônicos precisam funcionar como um conjunto.
É justamente essa interação que torna o desenvolvimento específico tão diferente da simples escolha de um pneu disponível no catálogo.
A parceria entre Bridgestone e Lamborghini começou com o Huracán STO, em 2021, e posteriormente avançou para outros superesportivos.
Com o Revuelto SV, a relação entra em uma fase na qual a eletrificação do trem de força também aumenta as exigências impostas aos pneus.
Motores elétricos conseguem entregar torque rapidamente, enquanto baterias e sistemas híbridos influenciam massa e distribuição de peso.
O pneu precisa acompanhar essas mudanças sem comprometer precisão, resistência estrutural, temperatura e previsibilidade nas reações do veículo.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Uma das maiores curiosidades desse desenvolvimento está justamente no fato de existirem três soluções para o mesmo carro. Isso demonstra de maneira muito clara que aderência máxima não existe isoladamente: ela depende da condição em que o pneu precisa trabalhar.
O Race R privilegia pista e piso seco. O Potenza Sport precisa ampliar a versatilidade para a utilização cotidiana e chuva. O Blizzak LM005 muda novamente as prioridades para trabalhar em baixas temperaturas. O automóvel é o mesmo, mas a janela operacional do pneu é completamente diferente.
Outro detalhe interessante são os 345 mm de largura nominal na traseira. É uma medida impressionante, mas o desempenho não nasce simplesmente da largura. Um pneu desse porte precisa controlar deformações em velocidades superiores a 300 km/h e transmitir simultaneamente enormes forças longitudinais e laterais.
Também é interessante observar a busca pelo rápido aquecimento do Race R. Em pista, um pneu extremamente aderente quando quente pode apresentar comportamento muito diferente antes de alcançar sua temperatura de funcionamento. Engenharia de pneu também significa controlar quanto tempo a borracha demora para entrar na janela térmica e quanto consegue permanecer nela.
O desenvolvimento virtual representa outra mudança importante. Simular pneus antes de produzi-los reduz protótipos e permite explorar um número muito maior de combinações. Mas o computador não substitui completamente o circuito: simulação seleciona caminhos; validação física comprova se eles funcionam no veículo real.
Finalmente, existe uma diferença importante entre pneu desenvolvido especificamente para um superesportivo e simplesmente um pneu da mesma medida. A marcação de homologação indica que houve um trabalho conjunto para adequar suas características ao automóvel. Em veículos desse nível, o pneu faz parte da calibração dinâmica tanto quanto suspensão, direção, freios e controles eletrônicos.
Um superesportivo pode ter quase 1.000 cv, mas toda aceleração, frenagem e mudança de direção termina em quatro pequenas áreas de contato com o asfalto. Siga @tarcisiomecanicaonline para acompanhar conteúdos que explicam pneus, suspensão, dinâmica veicular e a engenharia por trás dos automóveis de alto desempenho.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- Semi-slick que pode rodar nas ruas – O Potenza Race R prioriza desempenho em circuito, mas possui homologação para utilização em vias públicas.
- Três pneus, três objetivos – Race R atende principalmente à pista, Potenza Sport amplia a versatilidade nas ruas e Blizzak LM005 trabalha nas condições de inverno.
- 345 mm na traseira – O Revuelto SV utiliza 265/35 ZR20 na frente e 345/30 ZR21 atrás, com dimensões específicas para cada eixo.
- Temperatura é parte do desempenho – O Race R foi desenvolvido para aquecer rapidamente e manter comportamento consistente durante sucessivas voltas.
- Run-Flat é uma alternativa – Uma configuração do Potenza Sport permite deslocamento limitado após perda da pressão, dentro das condições especificadas.
- Pneu nasce primeiro no ambiente virtual – O VTD reduz a necessidade de protótipos físicos antes das etapas finais de desenvolvimento e validação.
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Semi-slick – Pneu com desenho da banda mais orientado ao desempenho no seco e em circuito. Possui menos compromisso com diferentes condições que um pneu convencional de uso cotidiano, embora versões homologadas possam circular nas ruas.
Janela térmica – Faixa de temperatura na qual composto e construção conseguem entregar o comportamento previsto pelos engenheiros. Muito frio ou superaquecimento podem prejudicar o desempenho.
Índice Y – Classificação de velocidade utilizada em pneus de alto desempenho. A especificação completa do pneu deve sempre respeitar a homologação e os requisitos estabelecidos para o veículo.
Run-Flat – Construção preparada para suportar temporariamente o veículo mesmo depois de uma perda significativa ou completa da pressão, permitindo deslocamento limitado dentro das condições determinadas pelo fabricante.

