O mecânico brasileiro não poderá simplesmente abandonar o motor a combustão para aprender a trabalhar com carros elétricos. Terá de dominar os dois mundos ao mesmo tempo. Enquanto milhões de veículos convencionais e flex continuarão exigindo peças e manutenção durante muitos anos, eletrificação, software, inteligência artificial, baterias e novos sistemas eletrônicos avançam rapidamente. É justamente nesse encontro entre a mecânica que permanece e a tecnologia que chega que a maior feira asiática do setor pretende conectar empresas brasileiras a uma cadeia global em transformação.
A Automechanika Shanghai 2026 será realizada de 2 a 5 de dezembro, no National Exhibition and Convention Center, em Xangai, reunindo aproximadamente 7.600 expositores.
A 21ª edição ocupará 390 mil m², distribuídos entre 16 pavilhões e área de mezanino, e terá ainda cerca de 100 eventos paralelos.
Na edição anterior, segundo os dados fornecidos pela organização, foram 253.691 visitantes provenientes de 190 países e regiões.
Os números impressionam, mas para o Brasil o aspecto mais importante talvez esteja no conteúdo desses pavilhões.
A feira reúne simultaneamente fornecedores da cadeia tradicional de peças e componentes e empresas envolvidas com eletrificação, baterias, eletrônica, software, inteligência artificial, conectividade, diagnóstico e gerenciamento térmico.
É justamente a combinação de tecnologias que deverá marcar o aftermarket brasileiro nos próximos anos.
O carro a combustão não desapareceu — e o elétrico já chegou
O Brasil enfrenta uma transformação diferente daquela observada em mercados que avançam mais rapidamente para veículos exclusivamente elétricos.
A frota existente mantém uma enorme demanda por motores a combustão, sistemas flex-fuel, transmissões, suspensão, freios, pneus, lubrificação, injeção e componentes mecânicos tradicionais.
Ao mesmo tempo, cresce a circulação de híbridos e elétricos, trazendo novas necessidades de manutenção e diagnóstico.
Isso significa que a oficina do futuro próximo não necessariamente substituirá uma tecnologia pela outra.
Terá de lidar com uma frota progressivamente mais heterogênea.
Um mesmo reparador poderá receber um automóvel flex pela manhã, um híbrido à tarde e, posteriormente, um elétrico que exige diagnóstico eletrônico e procedimentos específicos de segurança.
Essa coexistência ajuda a explicar por que uma feira tradicionalmente ligada ao aftermarket passou a dedicar tanto espaço às novas tecnologias.
Quase metade dos expositores já trabalha com novas energias
Segundo a organização, quase metade dos expositores da Automechanika Shanghai possui produtos ou serviços relacionados às chamadas novas energias.
O setor New Energy & Connectivity cresceu 20% e deverá reunir aproximadamente 700 expositores.
Nesse espaço estarão tecnologias relacionadas a propulsão elétrica, assistência avançada à condução, inteligência artificial, carregamento, troca de baterias, chassi inteligente e gerenciamento térmico.
Também haverá soluções para híbridos, células a combustível e hidrogênio.
Essa diversidade é importante porque eletrificação não significa apenas substituir o motor a combustão por um motor elétrico.
O automóvel muda em várias camadas.
A bateria exige controle térmico. A eletrônica de potência gerencia energia. Sistemas de alta tensão modificam procedimentos de segurança. Software passa a coordenar funções antes predominantemente mecânicas.
E até componentes tradicionais precisam conviver com novas arquiteturas.
Mais de 4.200 expositores ainda estarão em peças e eletrônica
Se metade da feira olha para novas energias, a outra parte da história mostra por que a transição não acontece de uma hora para outra.
O setor de Parts & Components and Electrical & Electronics será o maior da exposição, reunindo mais de 4.200 expositores.
Estarão presentes tecnologias para veículos com motores a combustão, híbridos e elétricos.
A lista inclui chassi, sistemas de propulsão, gerenciamento térmico, materiais, componentes elétricos e eletrônicos, peças padronizadas e soluções de redução de peso.
Essa composição talvez seja a fotografia mais clara da transformação atual.
A eletrificação cresce, mas a mecânica tradicional continua movimentando uma enorme cadeia industrial e de reposição.
Para fabricantes, distribuidores e oficinas brasileiras, portanto, a decisão não é simplesmente escolher entre o velho e o novo.
O desafio é conseguir trabalhar com ambos.
China já pesa mais na cadeia brasileira
Existe ainda uma razão comercial para empresas brasileiras observarem Xangai com atenção.
Segundo os números apresentados pela organização da feira, as importações brasileiras de autopeças provenientes da China cresceram 25% no primeiro semestre de 2026, alcançando US$ 2,64 bilhões.
A presença chinesa também avançou nos veículos completos.
Entre janeiro e agosto de 2026, o material informa que veículos chineses importados alcançaram 221,2 mil unidades, representando 54,2% das importações no período e crescimento de 109,9% sobre as 105,4 mil unidades registradas no mesmo intervalo de 2025.
Independentemente da evolução futura desses volumes, existe uma consequência prática para o aftermarket.
Quanto mais veículos de novas marcas e arquiteturas chegam às ruas, maior tende a ser a necessidade de peças, informação técnica, equipamentos de diagnóstico, treinamento e capacidade de identificar corretamente componentes e procedimentos.
A relação entre Brasil e China deixa, portanto, de ser apenas uma questão de importação de carros completos.
Ela começa a chegar também às oficinas e distribuidores.
Aftermarket brasileiro pode chegar a US$ 50,7 bilhões
O material da Automechanika Shanghai estima o mercado brasileiro de aftermarket em US$ 37,8 bilhões em 2025, com projeção de alcançar US$ 50,7 bilhões até 2033.
Os pneus aparecem com 23,4% de participação, enquanto turbocompressores são apontados como um dos segmentos de crescimento mais acelerado.
São projeções que ajudam a dimensionar por que fornecedores internacionais continuam interessados no mercado brasileiro.
A frota tradicional seguirá demandando reposição durante muito tempo.
Um veículo não deixa de precisar de manutenção simplesmente porque tecnologias mais novas chegaram ao mercado.
Ao mesmo tempo, a expansão dos eletrificados cria novas oportunidades e necessidades.
O resultado é um aftermarket que pode crescer não apenas em tamanho, mas principalmente em complexidade técnica.
Oficina elétrica também continuará precisando de mecânica
Existe uma ideia equivocada de que eletrificação transforma manutenção automotiva exclusivamente em software e eletrônica.
Um elétrico continua possuindo pneus, rolamentos, suspensão, direção, sistemas térmicos, freios e diversos componentes mecânicos.
O que muda é a composição das necessidades.
Determinados serviços associados ao motor a combustão desaparecem, enquanto surgem novas demandas relacionadas a alta tensão, bateria, inversores, motores elétricos, circuitos de refrigeração, conectividade e diagnóstico eletrônico.
Nos híbridos, a complexidade pode ser ainda maior porque diferentes sistemas convivem no mesmo automóvel.
É exatamente essa sobreposição tecnológica que torna a formação profissional uma questão central.
IA começa a entrar também no aftermarket
A transformação não termina na eletrificação.
O conceito Automotive+, adotado nesta edição da feira, pretende mostrar a convergência entre inteligência artificial, integração veículo-estrada-nuvem, novas energias, hardware, software e robótica.
A plataforma Innovation4Mobility funcionará como uma das vitrines dessas tecnologias.
Para o aftermarket, isso pode significar mudanças na maneira de diagnosticar veículos, administrar oficinas, identificar componentes e acessar informações técnicas.
Mas software não elimina a necessidade de compreender mecânica.
Quanto mais sistemas eletrônicos assumem funções dentro do automóvel, maior pode ser a necessidade de diagnóstico multidisciplinar.
O profissional precisa entender não apenas o código de falha apresentado pelo equipamento, mas o sistema físico que aquele código representa.
Qualidade também ganha espaço próprio
A edição de 2026 terá ainda o novo Global Quality Alliance Hub, relacionado à gestão da qualidade e à norma IATF 16949.
A área reunirá organizações ligadas a normalização, treinamento, certificação e regulamentação.
Para uma cadeia automotiva cada vez mais globalizada, controle de qualidade ganha importância adicional.
Não basta encontrar um componente compatível dimensionalmente.
Aplicação correta envolve materiais, tolerâncias, desempenho, durabilidade, rastreabilidade e especificações do fabricante.
Essa questão se torna especialmente relevante quando cadeias internacionais de fornecimento passam a atender um número crescente de marcas e arquiteturas.
Mais de 480 especialistas e 100 eventos paralelos
A programação da Automechanika Shanghai terá participação de mais de 480 especialistas.
Os eventos serão organizados em cinco pilares: Flagship events, Tech series, Talent series, Connect e Automotive+.
A Tech series terá foco mais técnico, enquanto a Talent series abordará formação profissional.
O Connect procura aproximar fabricantes e fornecedores por meio de iniciativas como Automotive Supply-Demand Matching Series e Global Collective Forum.
A ideia é promover relacionamento entre empresas não apenas durante os quatro dias de exposição, mas também ao longo do ano.
Esse aspecto pode ser especialmente relevante para companhias brasileiras interessadas em novos fornecedores, equipamentos, componentes e tecnologias asiáticas.
O que Xangai tem a ver com uma oficina no Brasil?
Mais do que parece.
Uma tecnologia apresentada hoje em uma feira internacional pode chegar posteriormente ao Brasil dentro de um veículo importado.
Quando esse automóvel entra em circulação, começa outra contagem.
Em algum momento precisará de pneus, freios, suspensão, reparo de colisão, diagnóstico eletrônico ou componentes de reposição.
É nesse ponto que uma inovação desenvolvida a milhares de quilômetros passa a fazer parte da realidade do reparador brasileiro.
A Automechanika Shanghai funciona, portanto, como uma janela para tecnologias que podem chegar primeiro aos veículos e depois ao aftermarket.
Entender essa cadeia antecipadamente pode ser tão importante quanto conhecer o componente quando ele finalmente aparece na oficina.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – A transformação mais importante do aftermarket brasileiro talvez não seja a passagem do carro a combustão para o elétrico.
É a convivência entre diferentes gerações tecnológicas durante muitos anos.
O Brasil possui uma enorme frota de veículos a combustão e flex que continuará precisando de manutenção. Ao mesmo tempo, híbridos e elétricos aumentam sua presença e adicionam novas arquiteturas às oficinas.
Isso significa que conhecimento antigo não perde automaticamente seu valor.
Mas ele também deixa de ser suficiente.
O mecânico que entende combustão continuará sendo necessário. O profissional que entende eletrônica será cada vez mais necessário. E quem conseguir compreender mecânica, eletrônica, software e segurança elétrica como partes do mesmo veículo terá uma formação particularmente relevante para essa nova realidade.
Por isso considero interessante observar uma feira em que mais de 4.200 expositores continuam ligados a peças e sistemas elétricos e eletrônicos enquanto quase metade dos participantes já apresenta soluções relacionadas às novas energias.
Não são dois setores separados.
É o mesmo aftermarket aprendendo a cuidar de carros cada vez mais diferentes.
E essa transformação chegará ao elevador da oficina independentemente de qual tecnologia venha a dominar as vendas daqui a dez ou vinte anos.
Para acompanhar aftermarket, reparação automotiva, eletrificação e as tecnologias que estão transformando o trabalho nas oficinas, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- 7.600 expositores – É a expectativa para a Automechanika Shanghai 2026, distribuídos por 390 mil m² de exposição.
- Mais de 4.200 empresas – O maior setor da feira continuará dedicado a peças, componentes e sistemas elétricos e eletrônicos para diferentes tipos de veículos.
- Quase metade – Segundo a organização, aproximadamente metade dos expositores trabalha com produtos e serviços relacionados às novas energias.
- 700 expositores – O espaço New Energy & Connectivity reúne propulsão elétrica, IA, carregamento, baterias, chassi inteligente e gerenciamento térmico, entre outras tecnologias.
- US$ 2,64 bilhões – É o valor informado para as importações brasileiras de autopeças chinesas no primeiro semestre de 2026, crescimento de 25% na comparação anual.
- Dois mundos na mesma oficina – A frota tradicional continuará exigindo manutenção enquanto híbridos e elétricos adicionam novos sistemas, ferramentas e conhecimentos ao aftermarket.
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- Aftermarket – Mercado formado por peças, serviços, equipamentos, manutenção e reparação utilizados depois que o veículo entra em circulação.
- Gerenciamento térmico – Conjunto de sistemas responsável por controlar temperaturas de componentes; nos eletrificados, é especialmente importante para bateria, motores e eletrônica de potência.
- Alta tensão – Circuitos utilizados em veículos eletrificados que exigem componentes, procedimentos, equipamentos de proteção e capacitação específicos para intervenção segura.
- IATF 16949 – Referência de sistema de gestão da qualidade aplicada à cadeia automotiva, utilizada para estabelecer requisitos de processos e controle entre fabricantes e fornecedores.

