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Carro elétrico muda regras de segurança contra incêndio nas garagens

Avanço da eletrificação coloca fuga térmica, gases tóxicos, reignição e infraestrutura de recarga no centro das discussões sobre proteção de estacionamentos.

A garagem que antes precisava lidar principalmente com combustível, instalações elétricas e materiais combustíveis agora recebe veículos conectados a carregadores e equipados com baterias que armazenam grande quantidade de energia. Em uma falha severa, o comportamento de uma bateria de íons de lítio pode exigir estratégias diferentes das utilizadas em incêndios convencionais. O desafio já começa a produzir normas específicas no Brasil — e uma das principais questões não é simplesmente como apagar o fogo, mas como impedir que um único veículo comprometa toda a garagem.

A expansão dos veículos elétricos e híbridos plug-in está criando uma nova discussão de segurança para condomínios, estacionamentos, empresas e garagens públicas.

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Não significa que carros elétricos estejam necessariamente incendiando com maior frequência que veículos a combustão. O ponto central é outro: quando uma bateria de tração entra em falha térmica severa, existem características específicas que precisam ser consideradas no projeto de proteção e na resposta à emergência.

O próprio Inmetro já analisou o tema e destacou que baterias automotivas possuem diversas camadas de proteção. Em sua análise regulatória, o órgão identificou incêndio como um dos riscos associados às baterias de íons de lítio, mas informou que, no levantamento realizado, não havia identificado incidentes de falhas de segurança dessas baterias na realidade brasileira considerada pelo estudo.

É justamente essa necessidade de compreender o risco sem transformar o assunto em alarmismo que estará em discussão durante a 16ª Fire Show e a 25ª FISP, programadas para os dias 6 a 8 de outubro de 2026, no São Paulo Expo.

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Os eventos devem reunir 900 marcas expositoras e mais de 60 mil profissionais de 34 países, segundo a organização.

O que acontece quando uma bateria entra em fuga térmica?

Um dos conceitos fundamentais é o thermal runaway, ou fuga térmica.

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Em determinadas condições de falha, uma célula pode sofrer um aumento de temperatura capaz de desencadear reações internas que liberam ainda mais calor.

Dependendo da situação, o processo pode se propagar entre células e módulos.

Corpos de Bombeiros brasileiros já vêm tratando especificamente desse risco. Em 2026, por exemplo, Goiás colocou em vigor uma norma técnica dedicada aos sistemas de carregamento de veículos eletrificados, enquanto Sergipe publicou uma instrução técnica específica para edificações e áreas com sistemas de alimentação desses veículos.

O Rio Grande do Sul também submeteu a consulta pública uma norma sobre segurança contra incêndio em locais com recarga, citando entre os riscos da fuga térmica propagação rápida, emissão de gases tóxicos e chamas de alta intensidade.

Ou seja, o debate já saiu do campo hipotético.

A infraestrutura predial começa a acompanhar a transformação do automóvel.

Apagar a bateria não é o único problema

Um dos pontos discutidos pela indústria de proteção contra incêndio é a compartimentação.

A lógica é evitar que calor, fumaça e fogo atinjam rapidamente outras áreas ou veículos próximos enquanto os sistemas de proteção e as equipes de emergência trabalham.

Diego Dall’Agnol, CEO da Global América System, destaca principalmente a combinação entre fumaça, rápida ignição e possibilidade de reignição.

A empresa apresentará na Fire Show sistemas de cortinas corta-fogo destinados a criar uma barreira onde originalmente existe um ambiente aberto.

Isso exige uma distinção importante.

A cortina não extingue a bateria.

Sua função é compartimentar o ambiente, reduzindo a exposição das áreas vizinhas ao calor e à fumaça durante a ocorrência.

Segundo a empresa, as cortinas Stöbich apresentadas possuem classificações E120 e EW120, relacionadas à manutenção da integridade da barreira e, na versão EW, também à limitação da radiação térmica pelo período especificado na classificação.

Temperatura junto ao teto pode ser extrema

A preocupação com a propagação aparece nos dados apresentados pela empresa.

Em um ensaio em escala real citado no material da Fire Show, simulando um incêndio de veículo elétrico em estacionamento subterrâneo, foram registradas temperaturas dos gases próximas de 1.100 °C junto ao teto e fluxo térmico superior a 225 kW/m².

Esses números correspondem às condições daquele ensaio específico e não devem ser interpretados como valores universais para qualquer incêndio envolvendo veículo elétrico.

Eles ajudam, entretanto, a mostrar por que o controle da propagação térmica para veículos e estruturas próximas entra na discussão.

Detectar rapidamente pode fazer diferença

Outra frente apresentada é a detecção térmica linear.

Em vez de depender somente de sensores pontuais, utiliza-se um cabo sensor distribuído pela área do estacionamento.

Quando devidamente setorizado, o sistema pode identificar o trecho no qual ocorre uma elevação de temperatura.

Existem versões com temperatura fixa e sistemas programáveis capazes de trabalhar com pré-alarme, alarme e velocidade de aumento da temperatura.

A proposta é especialmente interessante em estacionamentos, onde poeira, gases e circulação constante podem representar desafios para determinadas tecnologias de detecção.

Na solução apresentada pela Global América, o sinal também pode ser utilizado para acionar automaticamente sistemas de compartimentação.

Combate também procura impedir propagação entre células

Outra tecnologia que será apresentada durante a feira trabalha diretamente na tentativa de controlar o incêndio e o aquecimento.

A Hotwork Brasil levará a linha Ecofire, com aplicações apresentadas pela empresa para pontos de recarga, garagens, sprinklers, instalações industriais e sistemas estacionários de armazenamento de energia.

Segundo Julio Blanco, Head de Produto da companhia, a formulação procura atuar simultaneamente no resfriamento, contenção e redução da propagação térmica.

A empresa também afirma que o produto forma uma camada protetiva após a aplicação, com ação residual anunciada de até 30 dias sobre as superfícies tratadas.

Essas características são declarações do fabricante da solução e precisam ser analisadas conforme certificações, especificações, condições de ensaio e projeto de cada aplicação.

Durante a Fire Show, a companhia apresentará ainda extintores Ecofire de 2, 6, 9 e 50 litros.

Não existe uma solução única para toda garagem

Talvez esse seja o aspecto mais importante do debate.

Segurança envolvendo recarga de veículos eletrificados não deve ser reduzida à pergunta: “qual extintor preciso comprar?”

O Corpo de Bombeiros de Goiás, por exemplo, inclui em suas orientações aspectos como instalação por profissional habilitado, proteção elétrica, aterramento, dispositivos de desligamento, rotas de fuga, documentação técnica e proibição do uso de adaptadores e extensões inadequados.

Em Sergipe, a regulamentação específica também contempla afastamentos, sinalização, aterramento e proteções elétricas para sistemas de recarga.

Isso mostra que a prevenção começa antes de qualquer incêndio.

Começa no dimensionamento da instalação elétrica, proteção dos circuitos, instalação correta do carregador e projeto da edificação.

E o cenário normativo ainda está evoluindo e pode variar entre estados e Corpos de Bombeiros.

Garagem está virando infraestrutura energética

Existe outra transformação acontecendo silenciosamente.

Quando dezenas ou centenas de moradores começam a carregar automóveis, o estacionamento deixa de ser somente um local para guardar veículos.

Ele também passa a funcionar como ponto de consumo significativo de energia elétrica.

Em setembro de 2026, a Aneel abriu consulta pública para discutir mudanças nas regras de conexão envolvendo tecnologias como armazenamento e veículos elétricos, dentro de uma modernização mais ampla da rede elétrica.

Isso reforça que eletrificação automotiva, infraestrutura predial e sistema elétrico precisarão evoluir conjuntamente.

Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Existe um risco de tratarmos essa discussão de maneira errada, colocando de um lado quem diz que carro elétrico é perigoso e, do outro, quem tenta afirmar que não existe nada novo para aprender.

O caminho técnico está no meio.

Baterias automotivas possuem sistemas sofisticados de proteção, mas armazenam muita energia e apresentam características específicas quando ocorre uma falha severa.

Portanto, precisamos compreender o comportamento dessa tecnologia e preparar instalações e equipes adequadamente.

E existe uma mudança fundamental acontecendo nas garagens.

Durante décadas, estacionar significava basicamente deixar o automóvel parado.

Agora o carro chega, conecta-se à edificação e pode permanecer horas transferindo energia entre a instalação elétrica e uma bateria de alta tensão.

Isso transforma a própria engenharia do prédio.

Proteção elétrica, capacidade da rede interna, desligamento de emergência, detecção, ventilação, compartimentação e procedimentos de resposta passam a fazer parte de uma discussão que antes praticamente não existia para o automóvel particular.

Também precisamos evitar soluções milagrosas.

Não existe um equipamento isolado capaz de resolver sozinho toda a segurança de uma garagem com veículos elétricos.

O caminho é sistêmico: instalação elétrica correta, equipamento adequado, projeto de segurança, detecção, contenção e equipes treinadas.

A eletrificação não muda apenas aquilo que existe debaixo do capô.

Ela está começando a mudar também a engenharia dos lugares onde estacionamos nossos carros.

Para acompanhar como eletrificação, baterias e novas tecnologias estão transformando a segurança e a mecânica automotiva, siga @tarcisiomecanicaonline.

Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia

  • Fuga térmica – Uma falha severa pode desencadear reações que elevam a temperatura da célula e, dependendo das condições, propagam calor para outras partes da bateria.
  • Compartimentar não é extinguir – Barreiras corta-fogo procuram limitar propagação de calor e fumaça enquanto outros sistemas e equipes atuam.
  • Detecção ganha importância – Identificar rapidamente uma elevação anormal de temperatura pode permitir resposta antecipada e acionamento de sistemas de proteção.
  • Reignição exige atenção – Baterias danificadas podem demandar monitoramento mesmo depois do controle inicial da ocorrência.
  • Normas estão evoluindo – Corpos de Bombeiros estaduais já publicaram ou discutiram requisitos específicos para locais com sistemas de recarga de veículos eletrificados.
  • Prevenção começa na tomada – Dimensionamento elétrico, aterramento, proteções e instalação profissional do carregador fazem parte da segurança, antes mesmo de se discutir combate ao incêndio.

Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende

  • Fuga térmica – Processo em que o aumento de temperatura desencadeia reações internas capazes de gerar ainda mais calor dentro da bateria.
  • Compartimentação – Estratégia de criar barreiras resistentes ao fogo e/ou à radiação térmica para reduzir a propagação de um incêndio entre diferentes áreas.
  • Detecção térmica linear – Sistema que utiliza um elemento sensor distribuído ao longo de uma área para identificar elevações de temperatura.
  • BESS – Battery Energy Storage System é um sistema estacionário de armazenamento de energia em baterias, diferente da bateria instalada dentro do automóvel.
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