A Chery quer mudar profundamente o papel da Jetour dentro do próprio grupo. Criada para atender o mercado de massa com veículos voltados a viagens e lazer, a marca passa a ser direcionada ao universo premium off-road. O G700 mostra que essa transformação não ficará apenas no marketing: são mais de 5,1 metros, construção sobre chassi, eletrificação de alta potência e hardware preparado para terrenos severos.
A Chery Automobile prepara uma nova etapa de reorganização global de suas marcas, e a Jetour ocupa posição central nesse movimento. Dentro da estratégia denominada “Globalização 3.0”, a fabricante pretende reposicionar a Jetour como uma marca de veículos off-road de alta gama, enquanto a Chery principal será integrada de forma mais profunda à operação internacional.
A mudança representa uma evolução clara diante do papel original da Jetour.
Historicamente, a marca foi desenvolvida com foco em viagens, lazer ao ar livre e uso familiar, trabalhando em uma faixa mais próxima do mercado de massa.
Agora, essa identidade aventureira permanece, mas sobe vários degraus em preço, tecnologia, desempenho e posicionamento.
Jetour deixa de buscar apenas volume
A decisão não acontece porque a Jetour tenha pouca escala.
A marca já construiu uma operação de grande volume na China e ampliou sua presença em mercados internacionais, especialmente no Oriente Médio e na América Latina.
As entregas acumuladas no mercado chinês já superam 1,7 milhão de unidades, mostrando que a Chery não está tentando criar uma marca premium do zero.
O objetivo é utilizar uma operação já conhecida para entrar em uma faixa de maior valor agregado, maior margem e menor dependência da guerra de preços do mercado de massa.
Esse movimento também acompanha uma tendência entre fabricantes chineses que, depois de crescer rapidamente com produtos competitivos em preço e conteúdo, passaram a buscar segmentos mais sofisticados.
Exeed e Jetour terão funções diferentes
A reorganização cria uma estrutura interessante dentro do Grupo Chery.
A Exeed continua ocupando o espaço do luxo tradicional, com foco maior em refinamento, tecnologia, conforto e uso predominantemente urbano e rodoviário.
A Jetour passará a trabalhar em outro território: luxo associado a capacidade fora de estrada.
Na prática, a Chery pretende operar com dois braços premium de propostas diferentes.
A Exeed pode mirar compradores de SUVs e sedãs sofisticados.
A Jetour terá uma identidade mais robusta, aventureira e associada a viagens, trilhas, reboque e grandes SUVs.
O desafio será impedir que produtos e preços das duas marcas se aproximem demais e criem concorrência dentro do próprio grupo.
G700 já mostra a nova Jetour
O melhor exemplo da transformação é o Jetour G700.
O grande SUV híbrido plug-in utiliza carroceria sobre chassi, mede aproximadamente 5,20 metros de comprimento, supera 2 metros de largura e possui quase 2 metros de altura.
Seu conjunto combina um motor 2.0 turbo a motores elétricos instalados nos eixos dianteiro e traseiro.
Dependendo da configuração e do mercado, o sistema pode superar 900 cv de potência combinada, acompanhado de torque acima de 1.100 Nm.
A aceleração de 0 a 100 km/h fica na casa dos 4,6 segundos, um número muito mais associado a automóveis esportivos do que a um SUV de grandes dimensões e construção sobre chassi.
Não é apenas um SUV potente
O reposicionamento da Jetour não se sustenta apenas nos números de potência.
O G700 traz características efetivamente voltadas à utilização fora do asfalto.
Entre elas estão vão livre ao redor de 230 mm, ângulo de ataque próximo de 35 graus, saída de aproximadamente 28 graus e capacidade de travessia de água que pode chegar a 900 mm, conforme a configuração.
A arquitetura utiliza tração integral eletrificada, estrutura body-on-frame e suspensão preparada para uso severo.
O modelo também possui capacidade elevada de reboque.
Ou seja, a Jetour procura evitar um problema comum entre SUVs de aparência aventureira: parecer off-road sem possuir estrutura capaz de sustentar essa proposta.
Eletrificação vira ferramenta para o off-road
Outro ponto importante está na maneira como a Chery utiliza a eletrificação.
No G700, os motores elétricos não servem apenas para reduzir consumo ou emissões.
Eles permitem controle rápido de torque entre os eixos, grande força disponível em baixa velocidade e respostas extremamente precisas em situações de pouca aderência.
Essa característica pode ser particularmente útil em areia, lama, pedras e subidas de forte inclinação.
A distribuição eletrônica de torque consegue reagir em frações de segundo, permitindo explorar a aderência disponível em cada roda de forma muito eficiente.
É uma abordagem que está se tornando cada vez mais comum entre fabricantes chineses: usar sistemas híbridos de alta potência como alternativa aos tradicionais motores diesel ou grandes V8 encontrados em utilitários off-road.
Bateria grande amplia possibilidades de uso
O G700 também mostra como os híbridos plug-in chineses estão ficando cada vez mais próximos de veículos elétricos em capacidade de bateria.
Dependendo da configuração, existem versões com baterias acima de 30 kWh e outras próximas de 60 kWh.
As variantes de maior capacidade podem superar 200 km de autonomia elétrica em determinados ciclos de homologação.
Isso significa que um SUV grande e pesado pode realizar boa parte dos deslocamentos urbanos utilizando apenas eletricidade, mantendo o motor a combustão para viagens longas ou situações em que a bateria precisa de suporte.
É uma combinação particularmente interessante para um veículo aventureiro, no qual autonomia continua sendo um fator importante.
Cabine também sobe de categoria
O movimento para o luxo aparece claramente no interior.
O G700 utiliza uma enorme área digital integrada ao painel, acompanhada de central multimídia de grande dimensão e processadores de alto desempenho.
Há versões com cinco ou seis lugares, bancos com aquecimento, ventilação e massagem, carregadores sem fio e sistemas de áudio de alta potência.
Nas configurações mais sofisticadas, a segunda fileira pode receber bancos com posição relaxante do tipo zero gravity.
Essa combinação de hardware off-road com acabamento e eletrônica sofisticados é justamente a base do novo posicionamento da Jetour.
A proposta deixa de ser apenas oferecer muito equipamento por um preço agressivo.
A marca passa a tentar construir uma experiência de produto premium.
F700 mostra que estratégia inclui picapes
A ofensiva não deverá ficar restrita aos SUVs.
A Jetour F700 leva uma filosofia semelhante para o mercado de picapes.
O modelo utiliza construção sobre chassi, sistema híbrido de alta potência e equipamentos voltados a reboque e uso fora de estrada.
Dependendo da configuração, o conjunto também pode alcançar potência próxima dos 900 cv.
A picape deve oferecer bloqueios de diferenciais, grande profundidade de travessia e capacidade elevada de reboque.
Isso deixa claro que a Jetour pretende construir uma família de produtos premium off-road, e não apenas lançar um único SUV de imagem.
Brasil entra diretamente nessa estratégia
O movimento global interessa diretamente ao mercado brasileiro.
A Jetour vem ampliando sua operação no País e já prepara produtos de posicionamento mais sofisticado.
O G700 está nos planos da marca para o Brasil e deve ocupar o topo da gama quando chegar.
A linha brasileira também inclui SUVs como S06, T1 e T2, que ajudam a construir a identidade aventureira da marca em diferentes faixas de preço.
O G700 deverá levar essa proposta a outro patamar.
Se a estratégia internacional for aplicada integralmente por aqui, a Jetour deixará de disputar apenas consumidores interessados em SUVs chineses bem equipados e passará a mirar também compradores de grandes utilitários premium e modelos 4×4 tradicionais.
Concorrência deixa de ser apenas chinesa
Essa mudança amplia bastante o universo de concorrentes.
Uma Jetour de maior volume pode competir principalmente com marcas chinesas generalistas.
Uma Jetour premium off-road passa a olhar para clientes que hoje consideram produtos de Land Rover, Toyota, Lexus, Ford, Jeep, Mercedes-Benz e outros fabricantes de SUVs de alto valor agregado.
O desafio aumenta consideravelmente.
Potência, telas e equipamentos deixam de ser suficientes.
O consumidor desse nível também avalia qualidade estrutural, calibração de suspensão, isolamento acústico, durabilidade, pós-venda, imagem de marca e valor residual.
O preço baixo deixa de ser a principal arma
Essa talvez seja a principal consequência da nova estratégia.
Fabricantes chineses cresceram internacionalmente utilizando uma combinação muito eficiente de preço, tecnologia e quantidade de equipamentos.
No segmento premium, competir apenas entregando mais conteúdo por menos dinheiro pode não ser suficiente.
A Jetour precisará convencer que seus produtos possuem valor próprio mesmo quando o preço se aproxima do praticado por marcas tradicionais.
Isso exige uma transformação que vai além do automóvel.
Concessionárias, atendimento, pós-venda, disponibilidade de peças, garantia, experiência de compra e percepção de exclusividade passam a ter peso muito maior.
Globalização 3.0 muda também a Chery
O reposicionamento da Jetour faz parte de uma estratégia mais ampla.
A Chery pretende aprofundar a integração de suas operações internacionais, deixando de trabalhar apenas com exportação de veículos e avançando para estruturas mais locais de vendas, serviços, engenharia e tecnologia.
Nesse desenho, cada marca tende a ganhar uma função mais definida.
A Chery principal permanece como operação de maior alcance.
A Exeed atua no luxo tradicional.
A Jetour assume o espaço de aventura e off-road premium.
Esse tipo de organização permite ao grupo atender públicos diferentes sem obrigar uma única marca a tentar cobrir todas as faixas de mercado.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – A Chery está fazendo com a Jetour algo que as fabricantes chinesas precisarão fazer cada vez mais: parar de depender apenas da relação preço-equipamento e construir identidade própria.
Transformar a Jetour em especialista premium de off-road é uma maneira bastante lógica de conseguir isso porque aproveita uma característica que já fazia parte da marca: viagens, lazer e contato com ambientes fora das cidades.
Existe coerência técnica. O G700 não é apenas um SUV convencional com suspensão elevada e revestimentos plásticos. Carroceria sobre chassi, tração integral, elevada capacidade de travessia e um sistema híbrido com mais de 900 cv mostram uma engenharia direcionada a uma utilização específica.
A eletrificação também merece atenção. Nos grandes SUVs chineses, o motor elétrico deixou de ser apenas uma ferramenta para reduzir consumo. Passou a funcionar como elemento de desempenho e controle de tração. A resposta instantânea permite distribuir torque com enorme precisão entre os eixos.
Mas potência não cria uma marca premium sozinha.
O verdadeiro teste estará em durabilidade, calibração, qualidade de montagem, pós-venda e valor residual. É justamente nesses pontos que fabricantes tradicionais construíram décadas de reputação.
A divisão de funções entre Exeed e Jetour também faz sentido. Uma pode trabalhar luxo convencional; a outra, um território aventureiro e de imagem mais robusta. O risco aparece se produtos, preços e comunicação começarem a se sobrepor.
Para o Brasil, o movimento é particularmente importante porque o G700 deverá funcionar como uma espécie de cartão de visitas dessa nova fase.
Se a estratégia global for aplicada integralmente por aqui, a Jetour deixará de disputar apenas clientes de SUVs chineses eletrificados e passará a procurar compradores que hoje consideram grandes utilitários premium e modelos 4×4 tradicionais.
Para acompanhar a expansão da Jetour, os novos SUVs chineses e a transformação das marcas premium, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
Nova posição: a Chery pretende transformar a Jetour em uma marca premium especializada em veículos off-road.
Exeed permanece: a marca continua como braço de luxo de proposta mais convencional dentro do grupo.
Mais de 1,7 milhão: volume acumulado de entregas da Jetour no mercado chinês até agosto de 2026.
G700: SUV de aproximadamente 5,20 metros, construção sobre chassi e potência que pode superar 900 cv.
900 mm: capacidade máxima de travessia de água anunciada para determinadas configurações do G700.
Brasil: o G700 faz parte dos planos da Jetour para ampliar sua presença na faixa superior do mercado.
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Carroceria sobre chassi: construção em que a carroceria é instalada sobre uma estrutura separada e robusta, solução comum em veículos voltados a carga, reboque e uso fora de estrada.
PHEV: híbrido plug-in com bateria recarregável externamente e motores elétricos capazes de movimentar o veículo por distâncias relevantes.
DHT: transmissão desenvolvida especificamente para sistemas híbridos, administrando a atuação conjunta do motor a combustão e dos motores elétricos.
Marca premium off-road: posicionamento que combina luxo, tecnologia e desempenho com equipamentos estruturais realmente voltados a terrenos severos.

