A Ford quer impedir que as montadoras chinesas ganhem espaço nos Estados Unidos, mas isso não significa abrir mão da tecnologia desenvolvida na China. Jim Farley defende cautela na entrada dessas marcas e afirma que a Europa demorou para reagir. Ao mesmo tempo, sua própria companhia mantém acordos com empresas chinesas. Parece contraditório à primeira vista, mas revela uma estratégia bem mais complexa: aprender e produzir com parceiros chineses enquanto tenta evitar enfrentá-los diretamente dentro do mercado americano.
O CEO da Ford, Jim Farley, voltou a defender restrições à entrada das montadoras chinesas nos Estados Unidos, usando a Europa como exemplo do que, na avaliação dele, o país deveria evitar.
Durante evento da Automotive News em Detroit, Farley afirmou que os EUA precisam agir com calma diante da questão e avaliou que, para a Europa, “já é tarde demais”, diante do avanço das fabricantes chinesas naquele mercado.
A declaração ocorre justamente enquanto Washington discute qual deverá ser a política de longo prazo para fabricantes chineses.
Uma proposta bipartidária no Congresso pretende tornar permanentes determinadas restrições, incluindo a proibição de venda por fabricantes com mais de 15% de participação chinesa, embora o texto ainda esteja em tramitação e tenha passado por discussões sobre exceções.
Portanto, não existe neste momento uma decisão definitiva que encerre o debate sobre como os Estados Unidos tratarão essas empresas no futuro.
Ford olha para a Europa como advertência
A preocupação de Farley está ligada à velocidade com que a indústria chinesa ganhou escala internacional.
Segundo a Reuters, a China deverá exportar aproximadamente 12 milhões de automóveis em 2026, contra cerca de 3 milhões em 2022.
Esse avanço pressiona fabricantes tradicionais principalmente em custos, velocidade de desenvolvimento, eletrificação, baterias, software e experiência digital.
Na Europa, essa competição já obrigou fabricantes estabelecidos a rever estratégias.
A própria Ford reconheceu, ao anunciar sua parceria com a Geely, que o mercado europeu enfrenta competição global intensa, pressão permanente sobre custos e novas referências de tecnologia e software.
É justamente esse cenário que Farley não gostaria de ver reproduzido nos Estados Unidos.
Mas a resposta escolhida pela Ford possui uma particularidade: competir com os chineses não significa deixar de trabalhar com eles.
Ford e Geely serão parceiras na Espanha
Em julho, Ford e Geely anunciaram uma joint venture voltada ao mercado europeu na fábrica da montadora americana em Valência, na Espanha.
O projeto prevê compartilhar capacidade industrial para produzir veículos das duas fabricantes.
A operação deverá começar no primeiro semestre de 2027, condicionada às aprovações regulatórias, enquanto os primeiros novos veículos estão previstos para sair da fábrica em 2028.
Segundo a própria Ford, a parceria permitirá compartilhar escala e custos de desenvolvimento, utilizando a fábrica espanhola para veículos multienergia destinados ao mercado europeu.
Farley defendeu justamente essa lógica.
A estratégia da Ford é buscar parceiros chineses em áreas nas quais a empresa entende que não possui determinada propriedade intelectual ou onde uma parceria possa reduzir a necessidade de capital, especialmente em regiões como Europa e Sudeste Asiático.
Ou seja, existe uma diferença importante entre permitir que uma concorrente chinesa dispute diretamente o consumidor americano e utilizar tecnologia, propriedade intelectual ou capacidade industrial chinesa dentro da estratégia da própria Ford.
É essa distinção que ajuda a compreender uma posição que, observada superficialmente, parece contraditória.
CATL também está no centro da discussão
A relação mais sensível envolve baterias.
A Ford trabalha com tecnologia da CATL, uma das maiores fabricantes chinesas de baterias, em seu projeto industrial em Michigan.
Farley argumenta que esse tipo de parceria pode permitir à companhia incorporar conhecimento e tecnologia necessários para competir, enquanto mantém produção nos Estados Unidos.
Essa aproximação, porém, gerou atrito com o governo americano.
O secretário de Transportes dos Estados Unidos, Sean Duffy, criticou publicamente as relações da Ford com companhias chinesas, incluindo CATL e Geely. A Ford contestou as críticas e afirmou que havia erros factuais na argumentação apresentada pelo governo.
A discussão, portanto, ultrapassa a concorrência comercial.
Ela envolve cadeias de fornecimento, propriedade intelectual, segurança econômica, empregos e domínio de tecnologias consideradas estratégicas.
Carro conectado transforma discussão em segurança nacional
Outro componente do debate está nos dados produzidos pelos automóveis modernos.
Farley levantou preocupações de segurança relacionadas à capacidade dos veículos conectados de coletar informações.
Essa discussão não surgiu agora.
Os Estados Unidos já adotaram restrições relacionadas a tecnologias chinesas em veículos conectados, enquanto tarifas superiores a 100% também dificultam atualmente a entrada de automóveis chineses no país.
É importante, porém, separar a preocupação de segurança apresentada por Farley e por autoridades americanas de uma comprovação de que qualquer veículo de uma marca chinesa esteja necessariamente realizando espionagem.
O debate regulatório envolve riscos potenciais associados a software, conectividade, sensores, câmeras, dados e controle de componentes conectados.
É uma questão que tende a crescer conforme o automóvel passa a funcionar cada vez mais como uma plataforma digital sobre rodas.
Congresso tenta transformar restrições em regra permanente
A disputa ganhou outra dimensão política.
Os senadores Bernie Moreno, republicano, e Elissa Slotkin, democrata, trabalham para avançar uma legislação que estabeleceria restrições permanentes à entrada de fabricantes chineses.
A proposta já passou pelo Comitê de Comércio do Senado, mas ainda precisa avançar no processo legislativo. Uma tentativa de acelerar sua tramitação encontrou resistência, e uma nova votação é esperada após o retorno do Senado em novembro.
Ao mesmo tempo, o presidente Donald Trump já demonstrou abertura à possibilidade de fabricantes chineses produzirem automóveis dentro dos Estados Unidos, empregando trabalhadores americanos.
Existem, portanto, posições diferentes dentro do próprio debate americano.
Uma corrente procura impedir estruturalmente a entrada de fabricantes ligados à China, enquanto outra admite discutir produção local sob determinadas condições.
O resultado dessa disputa ainda não está definido.
A questão não é apenas preço
O crescimento das fabricantes chinesas costuma ser associado aos preços competitivos, mas reduzir sua vantagem somente ao preço seria simplificar demais a transformação que está acontecendo.
A indústria chinesa avançou rapidamente em baterias, eletrônica de potência, integração de software e carregamento de alta potência.
A corrida tecnológica continua acelerando.
Fabricantes chineses já apresentam sistemas experimentais e comerciais de recarga em níveis superiores a 1 MW, embora atingir essas potências na prática dependa também da bateria, do veículo, da curva de carregamento e principalmente da infraestrutura elétrica disponível.
A resposta da Ford ajuda a mostrar que fabricantes ocidentais não enxergam as empresas chinesas apenas como concorrentes.
Elas também se tornaram fontes de tecnologia, escala industrial e referências de custo.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Existe uma aparente contradição na estratégia da Ford, mas ela fica menor quando observamos o problema pela engenharia e pela indústria.
Jim Farley está dizendo basicamente duas coisas diferentes.
A primeira é: não queremos enfrentar as montadoras chinesas diretamente dentro dos Estados Unidos nas condições atuais.
A segunda é: precisamos aprender e trabalhar com empresas chinesas em tecnologias nas quais elas desenvolveram vantagens importantes.
É uma estratégia defensiva e, ao mesmo tempo, pragmática.
O ponto que mais me chama atenção é que essa discussão mostra como mudou o significado de dominar a indústria automotiva.
Durante décadas, vantagem tecnológica significava principalmente saber desenvolver motor, transmissão, plataforma, suspensão e processos de fabricação.
Tudo isso continua importante.
Mas agora precisamos acrescentar bateria, semicondutores, eletrônica de potência, software, inteligência artificial, conectividade e arquitetura elétrica.
E justamente em várias dessas áreas a indústria chinesa ganhou enorme velocidade.
Impedir a venda de carros chineses pode reduzir a pressão competitiva sobre uma indústria doméstica durante determinado período.
Mas isso, isoladamente, não desenvolve uma bateria melhor, não reduz o custo de produção, não acelera o desenvolvimento de software e não cria uma arquitetura elétrica mais eficiente.
Por outro lado, simplesmente abrir um mercado sem discutir segurança de dados, reciprocidade comercial, subsídios e condições competitivas também seria reduzir uma questão industrial extremamente complexa a uma disputa de preços.
É por isso que a estratégia da Ford merece atenção.
Ela pretende usar parcerias para absorver eficiência e tecnologia enquanto tenta ganhar tempo para competir.
O desafio será saber o que acontece quando esse tempo acabar.
Porque barreiras comerciais podem mudar.
A competência tecnológica construída durante esse período permanece.
E talvez essa seja a discussão mais importante para qualquer indústria automotiva, inclusive a brasileira: proteger mercado e desenvolver tecnologia são coisas diferentes — e uma não substitui a outra.
Para acompanhar como China, Estados Unidos e Europa estão redesenhando a indústria, a engenharia e a tecnologia dos automóveis, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- Farley pede cautela – O CEO da Ford defende que os Estados Unidos evitem uma abertura rápida às fabricantes chinesas e cita a experiência europeia como advertência.
- 12 milhões de exportações – É a projeção citada pela Reuters para as exportações chinesas de veículos em 2026, contra aproximadamente 3 milhões em 2022.
- Ford e Geely juntas – As empresas planejam produzir veículos em uma joint venture na fábrica de Valência, na Espanha.
- CATL entra pela tecnologia – A Ford mantém relação com a fabricante chinesa de baterias enquanto defende restrições à entrada direta das montadoras chinesas no mercado americano.
- Proibição ainda está em discussão – O Congresso americano analisa legislação para tornar permanentes determinadas restrições relacionadas às fabricantes chinesas; o processo ainda não foi concluído.
- Produção americana é outra possibilidade – Donald Trump manifestou abertura à instalação de fábricas chinesas nos Estados Unidos sob condições de produção e emprego locais.
Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende
- Propriedade intelectual – Conjunto de tecnologias, projetos, processos, softwares e conhecimentos protegidos ou controlados por uma empresa e que podem representar vantagem competitiva.
- Eletrônica de potência – Sistemas responsáveis por controlar e converter a energia elétrica entre bateria, motor, carregador e outros componentes de um veículo eletrificado.
- Veículo conectado – Automóvel capaz de trocar dados com sistemas externos, utilizando recursos de comunicação para serviços, atualizações e outras funcionalidades.
- Joint venture – Empresa ou operação criada conjuntamente por duas ou mais companhias para compartilhar investimentos, riscos, capacidade industrial ou desenvolvimento tecnológico.

