A BMW anuncia corte de até 8 mil empregos e se torna a quinta montadora alemã a reduzir sua força de trabalho em 2026, atrás de Volkswagen, Porsche, Mercedes-Benz e Audi. A crise é puxada pela concorrência chinesa em veículos elétricos, pela queda nas vendas na China e pelas tarifas dos Estados Unidos. A Volkswagen lidera os cortes, com até 100 mil vagas eliminadas e quatro fábricas fechadas na Alemanha.
A indústria automotiva alemã atravessa um dos momentos mais duros de sua história recente. Cinco das principais montadoras do país já anunciaram cortes de pessoal em 2026.
O gatilho comum é o avanço das fabricantes chinesas de veículos elétricos, que corroem margens e participação de mercado das marcas premium europeias.
A pressão se soma a fatores externos, como tarifas comerciais dos Estados Unidos e o aumento no custo da energia, agravando o cenário para as montadoras alemãs.
Na quarta-feira, a BMW se tornou a mais recente montadora a anunciar demissões, com corte de até 8 mil postos em todo o mundo.
O número representa cerca de 5% da força de trabalho da BMW, que soma 154 mil funcionários ao redor do planeta.
A empresa, dona também das marcas Mini e Rolls-Royce, afirmou que os cortes serão concentrados na Alemanha, via rotatividade natural e programa de demissão voluntária.
As vendas da BMW na China caíram para o nível mais baixo desde 2017, com queda de 30% no segundo trimestre em relação ao ano anterior.
No campo financeiro, o lucro líquido do segundo trimestre da BMW recuou 35%, para 1,2 bilhão de euros, com receita caindo de 34 para 31 bilhões de euros.
Dois dias antes da BMW, a Porsche anunciou o corte de mais 5 mil empregos na Alemanha até o fim de 2035, cerca de um em cada cinco trabalhadores.
As medidas afetam a fábrica principal em Stuttgart-Zuffenhausen e o centro de pesquisa e desenvolvimento da marca em Weissach.
A Porsche já havia cortado 1.900 postos previstos até 2029 e deixado expirar 2 mil contratos por prazo determinado na região de Stuttgart.
Entre as novas medidas, a marca esportiva vai adiar aumentos salariais e vincular bônus de desempenho diretamente aos lucros da companhia.
A Porsche também reduziu pessoal na fábrica de Leipzig e fechou três subsidiárias, afetando cerca de 500 funcionários no total.
Administrada com independência dentro do Grupo Volkswagen, a Porsche encerrou o ano passado com quase 41.800 funcionários, 85% deles na Alemanha.
Quem promove os cortes mais profundos, porém, é a própria Volkswagen, maior fabricante de automóveis da Europa.
A montadora dobrou seu programa de redução de pessoal no mês passado, elevando a meta para até 100 mil postos eliminados.
A empresa também planeja fechar quatro fábricas na Alemanha, medida rejeitada pelos sindicatos e pelo estado da Baixa Saxônia.
A Baixa Saxônia detém 20% das ações com direito a voto da VW e pode vetar decisões estratégicas da montadora.
Com 630 mil funcionários no mundo — 680 mil somando joint ventures na China —, a VW emprega 60% a mais que a Toyota para produzir volume semelhante de veículos.
A gigante de Wolfsburg controla mais etapas da produção internamente, e os custos de fábrica na Alemanha chegam a ser o dobro dos das concorrentes.
O avanço lento em veículos elétricos corroeu ainda mais as vendas da VW na China, mercado que já representou um terço do faturamento da marca.
A Mercedes-Benz segue caminho diferente das rivais, buscando economizar 5 bilhões de euros até 2027 sem demissões compulsórias na Alemanha.
Até março deste ano, cerca de 5.500 funcionários administrativos, de P&D e de TI aceitaram pacotes de indenização e deixaram a Mercedes.
A montadora também adiou o pagamento de bônus para quase três quartos dos funcionários alemães até 2027, além de propor jornada de 40 horas sem remuneração extra.
Na terça-feira, a Mercedes informou uma perda de mais de 700 milhões de euros ligada à forte concorrência chinesa no setor.
Apesar disso, o lucro líquido do segundo trimestre da marca cresceu 13,5%, para 1,09 bilhão de euros, mesmo com o resultado da divisão de automóveis caindo um quarto.
Já a Audi, marca premium do Grupo VW, havia anunciado no ano passado o corte de até 7.500 empregos na Alemanha até 2029.
No mês passado, a fábrica de Neckarsulm entrou na lista de possíveis fechamentos previstos para 2030, ameaçando cerca de 15 mil trabalhadores.
A unidade, responsável pelos modelos A5, A6 e A8, já reduziu a produção anual de 300 mil para 225 mil veículos.
O contraste entre as estratégias chama atenção: enquanto VW e Porsche cortam de forma direta, a Mercedes-Benz aposta em saídas voluntárias e redução de jornada.
Para o mercado global, o episódio reforça uma tendência mundial de reestruturação trabalhista diante da eletrificação acelerada da indústria automotiva.
Análise Mecânica Online® com Tarcisio Dias – A onda de cortes na Alemanha marca o fim de um modelo de produção verticalizada que sustentou o país por décadas.
Volkswagen e Porsche mostram que o tamanho da folha de pagamento se tornou um passivo diante da eficiência das montadoras chinesas de elétricos.
A postura da Mercedes-Benz, evitando demissões compulsórias, é uma aposta de médio prazo em preservar know-how interno mesmo sob pressão financeira.
O desfecho dessa reestruturação deve redefinir o mapa da indústria automotiva europeia nos próximos anos, com efeitos diretos sobre fornecedores e cadeia produtiva.
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Plano inicial da VW – a montadora havia anunciado inicialmente o corte de 50 mil postos, número que dobrou para 100 mil no mês passado.
Acordo da Mercedes em 2027 – a marca fechou com o conselho de trabalhadores, em março do ano passado, a meta de economizar 5 bilhões de euros sem demissões forçadas.
Plano da Audi para 2029 – anunciado no ano passado, previa cortar até 7.500 vagas na Alemanha por meio de programas voluntários.
Restruturação da Porsche até 2029 – programa anterior já previa 1.900 cortes e o fim de 2 mil contratos temporários em Stuttgart.
Resiliência da BMW – a montadora era vista como menos exposta à concorrência chinesa, até alertar no mês passado sobre a forte queda nas vendas na China.
Força de trabalho da VW – a companhia soma 630 mil funcionários no mundo, volume historicamente citado como símbolo da potência industrial alemã.
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Rotatividade natural é a saída voluntária de funcionários por aposentadoria ou pedido de demissão, sem a necessidade de a empresa demitir ninguém.
Demissão voluntária é um programa em que a empresa oferece indenização para quem topa deixar o emprego por vontade própria.
Joint venture é uma associação entre duas empresas para operar juntas em um mercado, dividindo investimentos, riscos e resultados.
Tarifa comercial é um imposto cobrado sobre produtos importados, usado por governos para proteger a indústria local ou pressionar outros países.
Veículo elétrico (VE) é o carro movido exclusivamente por motor elétrico e baterias, sem depender de motor a combustão.

