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Compra de 251 caminhões elétricos leva eletrificação ao transporte pesado de grãos no Brasil
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Compra de 251 caminhões elétricos leva eletrificação ao transporte pesado de grãos no Brasil

A eletrificação dos caminhões brasileiros começa a enfrentar um teste muito diferente das entregas urbanas em trajetos previsíveis. Uma transportadora de Mato Grosso decidiu colocar a tecnologia justamente...

Por Redação Mecânica Online®
11 min

A eletrificação dos caminhões brasileiros começa a enfrentar um teste muito diferente das entregas urbanas em trajetos previsíveis. Uma transportadora de Mato Grosso decidiu colocar a tecnologia justamente onde peso, distância, relevo e produtividade tornam qualquer mudança de matriz energética muito mais difícil — e fez uma encomenda que muda a escala desse experimento.

A XCMG Brasil e a Transportadora Navarini anunciaram a venda de 251 cavalos mecânicos 100% elétricos E7-95T, em uma operação estimada em aproximadamente R$ 500 milhões. Segundo as empresas, trata-se da maior compra de caminhões rodoviários elétricos pesados já realizada na América Latina.

O contrato foi assinado na sede global da XCMG, em Xuzhou, na China. A Navarini, transportadora sediada em Sorriso (MT) e dedicada à logística do agronegócio, passará a operar, segundo o anúncio, a maior frota desse tipo na região.

O tamanho financeiro da operação permite outra leitura. Dividindo os aproximadamente R$ 500 milhões pelos 251 veículos, chega-se a uma média próxima de R$ 1,99 milhão por caminhão. Esse cálculo serve apenas para dimensionar o contrato, pois as empresas não informaram que o valor total corresponda exclusivamente ao preço unitário dos cavalos mecânicos.

Mais relevante do que o número de veículos é a aplicação escolhida.

Grande parte da eletrificação de caminhões avançou inicialmente em operações urbanas, distribuição e trajetos relativamente curtos, nos quais distância diária, pontos de recarga e retorno à base podem ser previstos com maior facilidade.

A proposta da Navarini é levar a propulsão elétrica para o transporte pesado de grãos e percursos de longa distância, submetendo os veículos a condições bastante diferentes.

É nesse cenário que aparece o XCMG E7-95T.

De acordo com as informações divulgadas pelas empresas, o cavalo mecânico possui Peso Bruto Total (PBT) de 74 toneladas e Capacidade Máxima de Tração (CMT) de 120 toneladas.

Os dois números precisam ser compreendidos corretamente. PBT e CMT não significam que o caminhão possa transportar legalmente 74 ou 120 toneladas de carga útil nas rodovias brasileiras.

O PBT considera o peso máximo do veículo carregado conforme sua configuração, enquanto a CMT indica a capacidade máxima de peso que o conjunto motriz foi projetado para tracionar, dentro das condições técnicas estabelecidas pelo fabricante. A circulação efetiva continua submetida às regras de peso, configuração e limites legais aplicáveis a cada composição veicular.

Segundo a XCMG, o projeto destinado à Navarini não nasceu simplesmente da escolha de um caminhão existente em catálogo.

As empresas afirmam que passaram meses realizando estudos da operação, análise do relevo, dimensionamento técnico das aplicações e testes em condições reais, antes da assinatura do contrato.

Esse trabalho é especialmente importante em um caminhão elétrico pesado porque a autonomia não depende apenas da capacidade da bateria.

Massa transportada, velocidade média, inclinação das rodovias, temperatura, utilização de sistemas auxiliares e até o sentido da rota podem alterar significativamente o consumo de energia por quilômetro.

Um caminhão carregado subindo por longos trechos exige grande quantidade de energia. No percurso contrário, porém, a propulsão elétrica oferece uma possibilidade inexistente no conjunto diesel convencional: recuperar parte da energia durante desacelerações e descidas por meio da frenagem regenerativa.

Isso torna o estudo detalhado de cada rota fundamental.

A XCMG afirma que os testes realizados com a Navarini avaliaram autonomia, comportamento com carga máxima e custo operacional. Entretanto, o comunicado não informa capacidade da bateria, potência dos motores elétricos, autonomia nominal, potência máxima de recarga, tempo necessário para carregamento ou consumo em kWh/km.

Sem esses dados, ainda não é possível realizar uma comparação técnica completa entre o E7-95T e um cavalo mecânico a diesel equivalente.

Também não foram detalhados os corredores nos quais os 251 caminhões trabalharão, a distância diária prevista, a quantidade de carregadores, a potência instalada ou a estratégia operacional de recarga.

Essas informações serão particularmente importantes para avaliar o projeto.

Em um automóvel elétrico, encontrar um carregador disponível pode resolver boa parte da necessidade energética de uma viagem. Em uma operação logística envolvendo centenas de caminhões pesados, a infraestrutura precisa ser dimensionada como parte do próprio sistema de transporte.

Se muitos veículos precisarem recuperar grandes quantidades de energia simultaneamente, a demanda elétrica pode atingir níveis elevados. Isso envolve transformadores, subestações, gerenciamento de potência, programação das recargas e disponibilidade da rede.

O desafio aumenta quando o caminhão precisa permanecer pouco tempo parado.

No transporte comercial, tempo de recarga também é tempo de imobilização do ativo. Por isso, a equação econômica não depende somente do preço da eletricidade diante do diesel, mas da integração entre autonomia, rota, carga, recarga e produtividade.

A Navarini afirma que o projeto começou em 2024, quando decidiu avançar na eletrificação de sua frota voltada ao agronegócio.

Antes da encomenda de 251 unidades, segundo as empresas, os caminhões foram submetidos a condições reais e severas de utilização, experiência que teria fornecido os resultados necessários para a decisão de ampliar a escala.

Outro argumento da eletrificação está na manutenção.

Um conjunto de propulsão elétrico elimina componentes presentes em um caminhão convencional, como motor diesel, sistema de injeção de combustível e diversos elementos relacionados ao tratamento dos gases de escape.

Isso não significa ausência de manutenção. Caminhões elétricos continuam utilizando suspensão, pneus, freios, sistemas pneumáticos, gerenciamento térmico, eletrônica de potência e outros componentes sujeitos a inspeções e reparos.

A bateria de alta tensão também se torna um dos componentes mais importantes para custo, desempenho e vida útil do veículo, tornando sua gestão térmica e estratégia de recarga fundamentais para a operação.

A frenagem regenerativa pode contribuir para diminuir a utilização dos freios de serviço em determinadas situações, potencialmente reduzindo desgaste. O resultado efetivo, entretanto, depende de rota, carga, programação do sistema e maneira como o caminhão é conduzido.

No aspecto ambiental, a XCMG destaca que o E7-95T apresenta zero emissão de gases de efeito estufa durante sua operação pelo sistema de propulsão.

A expressão precisa ser delimitada. Um caminhão elétrico não possui emissões de escapamento provenientes de um motor diesel, mas a avaliação ambiental completa depende também da origem da eletricidade, fabricação das baterias, produção do veículo e demais etapas de seu ciclo de vida.

No Brasil, a participação elevada de fontes renováveis na geração elétrica pode favorecer a redução das emissões associadas à utilização, especialmente quando comparada a operações rodoviárias intensivas em diesel.

A XCMG também aponta menor ruído e potencial redução do custo por quilômetro rodado como vantagens da solução. A comprovação econômica em grande escala dependerá justamente da experiência da Navarini com os 251 veículos.

Para uma transportadora, a conta precisa considerar aquisição, energia, manutenção, pneus, disponibilidade operacional, infraestrutura, depreciação e vida útil da bateria.

É essa dimensão que transforma o contrato em algo mais importante do que uma simples compra de caminhões elétricos.

Se a operação conseguir demonstrar produtividade, disponibilidade e custo total competitivo no transporte pesado de grãos, poderá fornecer informações práticas sobre uma aplicação considerada muito mais difícil para a eletrificação rodoviária.

Mecânica Online® com Tarcisio Dias – A dimensão da compra chama atenção, mas o verdadeiro teste começa quando esses 251 caminhões entrarem efetivamente na rotina do agronegócio. Comprar um caminhão elétrico pesado é uma decisão industrial; fazê-lo trabalhar diariamente com produtividade comparável à de uma operação consolidada a diesel é um desafio de engenharia e logística.

A CMT de 120 toneladas demonstra a capacidade estrutural e de tração declarada para o E7-95T, mas não responde sozinha às perguntas mais importantes. Potência, capacidade da bateria, consumo energético carregado, autonomia real, velocidade de recarga e gerenciamento térmico serão fundamentais para compreender o desempenho do conjunto.

Há uma diferença importante entre eletrificar uma rota urbana e uma operação rodoviária pesada. Na cidade, a regeneração frequente e o retorno periódico à base podem favorecer o elétrico. No transporte de grãos, longas distâncias e grandes massas aumentam a energia necessária e tornam o planejamento de recarga muito mais crítico.

O relevo merece atenção especial. Uma subida prolongada aumenta bastante o consumo, enquanto uma descida oferece oportunidade para recuperação de energia. Mapear o perfil altimétrico deixa de ser apenas uma informação da rota e passa a integrar a estratégia energética do caminhão.

Outro ponto decisivo será a infraestrutura. Com 251 veículos, não estamos falando de instalar alguns carregadores. Dependendo da capacidade das baterias e da estratégia operacional, a demanda de potência necessária para alimentar uma frota desse porte pode transformar a própria instalação elétrica em um projeto de engenharia de grande escala.

Também será importante observar o custo total de propriedade. O caminhão elétrico pode reduzir gastos com energia e determinados itens de manutenção, mas possui bateria de alto valor e depende de infraestrutura específica. A comparação correta não é apenas preço do diesel contra preço do kWh: é quanto custa transportar uma tonelada por quilômetro durante toda a vida econômica do veículo.

Se a experiência da Navarini confirmar os resultados obtidos nos testes, o projeto poderá oferecer algo de que a eletrificação brasileira ainda precisa: dados reais de uma grande frota trabalhando em transporte pesado e condições severas, e não somente números obtidos em demonstrações controladas.

Acompanhar essa operação permitirá entender até onde a bateria já consegue substituir o diesel em uma das aplicações mais exigentes do transporte brasileiro. Siga @tarcisiomecanicaonline para acompanhar conteúdos sobre caminhões, eletrificação, baterias e as tecnologias que estão transformando a mecânica do transporte pesado.

Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia

  • 251 caminhões elétricos – A Navarini encomendou 251 cavalos mecânicos XCMG E7-95T, no negócio anunciado como o maior do gênero na América Latina.
  • R$ 500 milhões – É o valor aproximado informado para a operação, equivalente matematicamente a cerca de R$ 1,99 milhão por veículo, sem que isso represente necessariamente o preço individual de cada caminhão.
  • CMT de 120 toneladas – Indica a capacidade máxima de tração tecnicamente estabelecida para o veículo, não uma autorização para transportar essa quantidade de carga nas rodovias.
  • Teste no agronegócio – Os veículos serão destinados a uma aplicação que combina grandes massas, longas distâncias e condições severas de operação.
  • Infraestrutura será fundamental – Uma frota elétrica desse tamanho exige planejamento de energia, potência disponível, carregadores e períodos de imobilização para recarga.
  • Dados ainda faltam – O anúncio não detalha bateria, potência dos motores, autonomia, consumo energético e velocidade de recarga, informações essenciais para uma análise técnica completa.

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Cavalo mecânico – É a parte dianteira motorizada do conjunto rodoviário, responsável por tracionar semirreboques e fornecer os sistemas necessários à movimentação da composição.

CMT – Capacidade Máxima de Tração representa o peso máximo que o veículo foi tecnicamente projetado para tracionar, conforme especificação do fabricante e respeitando as regras legais de circulação.

Frenagem regenerativa – Durante determinadas desacelerações, o motor elétrico passa a trabalhar como gerador, transformando parte da energia cinética do caminhão em eletricidade que retorna à bateria.

Custo total de propriedade – Também conhecido como TCO, reúne aquisição, energia ou combustível, manutenção, infraestrutura, disponibilidade, depreciação e outros custos do veículo durante sua vida operacional.

Compra de 251 caminhões elétricos leva eletrificação ao transporte pesado de grãos no Brasil
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