Freios estão mudando junto com os veículos, e desenvolver uma nova solução exige muito mais do que fabricar uma pastilha ou lona e colocá-la na estrada. A Frasle Mobility acaba de instalar em Detroit uma estrutura capaz de reproduzir em laboratório diferentes condições de funcionamento de sistemas da linha pesada. O equipamento é importante, mas a estratégia por trás dele revela algo maior sobre a internacionalização da engenharia desenvolvida pela companhia brasileira.
A Frasle Mobility inaugurou o Movetech EUA em Detroit, Michigan, ampliando para os Estados Unidos a estrutura internacional de pesquisa, desenvolvimento e inovação da companhia.
O novo espaço conta com um dinamômetro de ensaios destinado à linha pesada, que será utilizado para simulações, testes e análises de materiais.
A iniciativa aproxima a engenharia da empresa de montadoras, fabricantes de sistemas de freios e outros parceiros instalados em um dos principais polos automotivos mundiais.
Mais do que uma nova instalação física, o movimento representa outra etapa da integração das equipes globais de engenharia da Frasle Mobility.
Dinamômetro coloca o freio à prova sem precisar da estrada
O principal equipamento da nova estrutura é um dinamômetro adquirido pela Frasle Mobility e instalado nas dependências da Greening Testing Laboratories.
A parceria garante um espaço dedicado às atividades de engenharia da companhia.
Na prática, esse tipo de equipamento permite reproduzir de forma controlada condições de funcionamento de componentes de frenagem, possibilitando que engenheiros realizem simulações e comparem materiais durante o processo de desenvolvimento.
Isso reduz a dependência de avaliações exclusivamente em veículos e permite controlar parâmetros de ensaio com maior repetibilidade.
No caso da operação norte-americana, o equipamento será voltado à linha pesada, segmento no qual exigências de carga, energia de frenagem, durabilidade e aplicação tornam o desenvolvimento particularmente relevante.
A empresa não informou, no material divulgado, especificações técnicas como potência, torque máximo, velocidade ou capacidade energética do novo dinamômetro.
Detroit aproxima engenharia e cliente
A escolha de Detroit tem relação direta com a estratégia comercial e tecnológica da companhia.
A Frasle Mobility já possui presença no mercado OEM norte-americano de lonas de freio e pretende ampliar sua participação em novos projetos e aplicações desenvolvidos com fabricantes de veículos e sistemas de frenagem.
A lógica é aproximar desenvolvimento e cliente.
Segundo Alexandre Roman, gerente de engenharia na América do Norte e responsável pelo Movetech em Detroit, essa proximidade permite compreender necessidades específicas e desenvolver tecnologias com maior agilidade e precisão.
É um movimento importante porque componentes de frenagem não são necessariamente desenvolvidos de maneira isolada.
Características do veículo, massa, aplicação, arquitetura do sistema e requisitos definidos pelos fabricantes interferem no desenvolvimento dos materiais e componentes.
Estar fisicamente mais próximo dos centros de engenharia dos clientes pode, portanto, reduzir distâncias também durante as etapas de validação e desenvolvimento conjunto.
Centro brasileiro continua no comando da rede
Apesar da expansão internacional, o núcleo principal do Movetech permanece em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul.
A estrutura brasileira reúne aproximadamente 160 profissionais dedicados à engenharia avançada, incluindo especialistas, mestres, doutores e PhDs.
É em Caxias do Sul que permanece concentrada a maior capacidade técnica, laboratorial e de gestão da rede.
Além dos Estados Unidos, o Movetech já possui operações no Brasil, México, Índia e China, conectadas ao centro de excelência gaúcho.
A dimensão dessa estrutura aparece nos números apresentados pela companhia.
Anualmente, os laboratórios globais do Movetech produzem mais de 5 mil protótipos e realizam mais de 70 mil ensaios.
Isso representa uma média superior a 190 ensaios por dia, considerando os 365 dias do ano, apenas como referência matemática para dimensionar o volume anual informado.
Pesquisa vai além das lonas e pastilhas
Embora a Frasle seja historicamente associada aos materiais de fricção, o campo de pesquisa do Movetech é mais amplo.
As equipes trabalham com materiais de fricção, discos de freio, compósitos estruturais, componentes hidráulicos, polímeros e soluções completas para sistemas automotivos.
Essa diversificação acompanha a própria transformação da indústria.
O desenvolvimento de um componente moderno precisa considerar não apenas seu funcionamento isolado, mas sua interação com materiais, eletrônica, sistemas hidráulicos e características específicas de cada aplicação.
E a evolução dos sistemas de propulsão adiciona novos desafios à frenagem.
Veículos eletrificados, por exemplo, podem utilizar regeneração para realizar parte das desacelerações, alterando a frequência e determinadas condições de utilização dos freios por atrito.
Isso não elimina discos, pastilhas ou outros componentes. Ao contrário, cria novas condições de trabalho que também precisam ser compreendidas, testadas e validadas.
Engenharia brasileira ganha presença dentro de um polo mundial
A abertura do Movetech EUA também tem uma dimensão importante para a indústria brasileira.
O centro de excelência permanece em Caxias do Sul, mas passa a contar com mais uma estrutura internacional capaz de trabalhar diretamente com mercados e clientes locais.
Em vez de concentrar toda a atividade de desenvolvimento em um único país, a empresa cria pontos de engenharia próximos dos principais mercados, mantendo-os conectados à estrutura brasileira.
É uma internacionalização que não acontece somente pela venda de produtos.
A empresa passa a ampliar também sua presença por meio de engenharia, ensaios e desenvolvimento tecnológico.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Quando pensamos em inovação automotiva, normalmente lembramos imediatamente de baterias, inteligência artificial, motores elétricos ou sistemas de condução assistida. Um dinamômetro de freios dificilmente recebe a mesma atenção, mas ele representa exatamente o tipo de infraestrutura sem a qual muitas dessas evoluções não poderiam chegar ao mercado.
Desenvolvimento automotivo depende de repetição.
Um engenheiro precisa modificar um material, testar, medir o resultado, comparar com a configuração anterior e repetir o processo até compreender seu comportamento.
É justamente aí que estruturas laboratoriais ganham importância.
No caso da Frasle Mobility, há outro aspecto particularmente relevante: o centro de excelência da rede continua localizado no Brasil.
Detroit aproxima a engenharia dos clientes norte-americanos. México, Índia e China ampliam a presença internacional. Mas Caxias do Sul permanece como núcleo técnico e de gestão dessa rede.
Isso significa que a internacionalização não acontece apenas pela exportação de uma peça fabricada no Brasil.
Conhecimento, ensaios e capacidade de desenvolvimento também entram nessa cadeia global.
E o momento é particularmente interessante para sistemas de frenagem.
Eletrificação e regeneração estão mudando a maneira como o freio por atrito é utilizado, enquanto veículos comerciais continuam exigindo enorme capacidade térmica, durabilidade e previsibilidade.
O freio continua tendo a mesma missão fundamental — desacelerar o veículo com segurança —, mas as condições em que precisa cumprir essa tarefa estão evoluindo.
Ter laboratórios próximos dos clientes e uma rede global de engenharia pode encurtar justamente o caminho entre identificar uma nova necessidade, desenvolver a solução e comprovar que ela funciona.
Para acompanhar como engenharia, materiais e novas tecnologias estão transformando componentes fundamentais do automóvel e do transporte pesado, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- Detroit – A cidade foi escolhida para aproximar a engenharia da Frasle Mobility das montadoras e fabricantes de sistemas presentes no mercado norte-americano.
- Linha pesada – O Movetech EUA começa equipado com um novo dinamômetro dedicado a ensaios para aplicações desse segmento.
- 160 profissionais – O centro de excelência em Caxias do Sul reúne uma equipe especializada em engenharia avançada.
- 70 mil ensaios por ano – É o volume informado para os laboratórios globais da rede Movetech.
- 5 mil protótipos – Mais de cinco mil unidades são produzidas anualmente para atividades de desenvolvimento.
- Rede internacional – Brasil, México, Índia, China e agora Estados Unidos integram a estrutura global do Movetech.
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- Dinamômetro de freios – Equipamento de laboratório que permite submeter sistemas e componentes de frenagem a condições controladas para medir e comparar seu comportamento.
- Material de fricção – Material utilizado em componentes como pastilhas e lonas para gerar o atrito necessário à desaceleração do veículo.
- OEM – Original Equipment Manufacturer identifica, nesse contexto, o mercado de componentes fornecidos para utilização original pelos fabricantes de veículos ou sistemas.
- Frenagem regenerativa – Nos veículos eletrificados, permite utilizar o sistema de propulsão elétrica para desacelerar e recuperar parte da energia, trabalhando em conjunto com os freios por atrito.

