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Pesquisadora da USP desmonta mito sobre biocombustíveis: produção de energia não reduz oferta de alimentos

Estudo internacional e experiência brasileira mostram que é possível ampliar simultaneamente a produção de alimentos, biocombustíveis e preservar o meio ambiente, contrariando uma das principais críticas ao setor.

A narrativa de que a produção de biocombustíveis compromete a segurança alimentar mundial não encontra respaldo nas evidências científicas atuais. A avaliação é da professora Glaucia Mendes Souza, da Universidade de São Paulo (USP) e líder da Força-Tarefa de Biocombustíveis para a Descarbonização do Transporte da IEA Bioenergy. Segundo a pesquisadora, o conceito de “food versus fuel” está ultrapassado e deve dar lugar à visão de que alimentos e biocombustíveis podem crescer de forma complementar. A experiência brasileira nas últimas cinco décadas, aliada a estudos internacionais, reforça essa conclusão e destaca o papel da bioenergia na descarbonização do transporte sem comprometer a produção agrícola.

O debate sobre a relação entre produção de alimentos e biocombustíveis voltou ao centro das discussões internacionais à medida que diversos países aceleram suas políticas de descarbonização. Embora parte da crítica, especialmente na Europa, sustente que o aumento da produção de etanol e biodiesel reduz áreas destinadas à agricultura, estudos científicos apontam um cenário bastante diferente.

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Durante entrevista ao podcast Conexão MBCBrasil – A Mobilidade em Pauta, a professora Glaucia Mendes Souza, titular da USP e líder da Força-Tarefa de Biocombustíveis para a Descarbonização do Transporte da IEA Bioenergy, afirmou que a discussão baseada na oposição entre alimentos e combustíveis já não representa a realidade.

Segundo a pesquisadora, “a bioenergia não é um jogo de soma zero. Um time não teve que perder para o outro ganhar”, defendendo que o conceito mais adequado atualmente é “food and fuel”, ou seja, produção simultânea de alimentos e energia.

A afirmação é sustentada por uma meta-análise internacional envolvendo 224 estudos científicos, que concluiu não existir correlação estatística significativa entre a produção de biocombustíveis e a insegurança alimentar. De acordo com a pesquisadora, quando há alguma influência sobre os preços agrícolas, esse efeito costuma ocorrer principalmente em países desenvolvidos. Já nas economias emergentes, os impactos são neutros ou até positivos para o acesso aos alimentos.

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O Brasil aparece como um dos principais exemplos dessa compatibilidade entre produção agrícola e bioenergia. Ao longo dos 50 anos do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), o país deixou de ser importador de alimentos para tornar-se um dos maiores exportadores mundiais, ao mesmo tempo em que consolidou sua indústria de etanol e implementou políticas ambientais como o Código Florestal.

Para Glaucia Mendes Souza, a experiência brasileira demonstra que é plenamente possível ampliar simultaneamente a produção de alimentos, expandir os biocombustíveis e preservar os recursos naturais.

O presidente do Conselho do Instituto MBCBrasil, José Eduardo Luzzi, reforçou esse entendimento ao destacar os resultados alcançados em 2025, quando o Brasil produziu aproximadamente 37 bilhões de litros de etanol e quase 10 bilhões de litros de biodiesel, reduzindo significativamente as emissões de dióxido de carbono pela substituição dos combustíveis fósseis.

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Segundo Luzzi, outro diferencial brasileiro está na preservação ambiental. Atualmente, cerca de 65% da vegetação nativa permanece preservada no país, enquanto aproximadamente 100 milhões de hectares de pastagens degradadas apresentam potencial para expansão tanto da produção agropecuária quanto da bioenergia, sem necessidade de novos desmatamentos.

Outro ponto destacado pela pesquisadora diz respeito às verdadeiras causas da fome no mundo. Segundo ela, a escassez de alimentos não é o principal problema. A falta de renda e o acesso limitado à energia elétrica representam obstáculos muito maiores para a segurança alimentar.

Glaucia explica que comunidades sem acesso à eletricidade enfrentam dificuldades para conservar alimentos e desenvolver atividades produtivas. Nesse contexto, a bioenergia também contribui para melhorar as condições sociais, levando energia a regiões remotas e gerando renda nas áreas produtoras.

Do ponto de vista regulatório, a pesquisadora cita o RenovaBio como um dos programas mais avançados do mundo na integração entre sustentabilidade ambiental e produção de combustíveis renováveis.

O programa vincula a certificação da produção de biocombustíveis ao cumprimento do Código Florestal, permitindo que produtores certificados recebam CBIOs (Créditos de Descarbonização) negociados na bolsa de valores. O sistema utiliza registros do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e monitoramento por imagens de satélite para comprovar que a produção ocorre sem desmatamento.

Estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que o Brasil ainda possui grande potencial de expansão da produção de etanol sem necessidade de ampliar significativamente sua área agrícola. Entre as estratégias previstas estão o maior aproveitamento do milho de segunda safra, o aumento da produtividade agrícola, a recuperação de pastagens degradadas e o uso mais eficiente de resíduos agroindustriais.

Segundo as projeções, essas medidas poderiam acrescentar cerca de 24 bilhões de litros de etanol à produção nacional, fortalecendo a posição brasileira na transição energética global.

A discussão ganha ainda mais importância diante da crescente busca mundial por alternativas capazes de reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Nesse cenário, a experiência brasileira reforça que a expansão dos biocombustíveis pode ocorrer de forma integrada à agricultura, contribuindo simultaneamente para a segurança energética, o desenvolvimento rural e a preservação ambiental.

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Biocombustíveis – São combustíveis produzidos a partir de matérias-primas renováveis, como cana-de-açúcar, milho, soja e resíduos agrícolas, substituindo parcialmente gasolina e diesel.

Etanol de segunda geração – Produzido a partir do aproveitamento da palha e do bagaço da cana, aumenta a produção sem ampliar a área plantada.

RenovaBio – Política nacional criada para reduzir as emissões de carbono no setor de transportes por meio da expansão sustentável dos biocombustíveis.

CBIO – Crédito de Descarbonização emitido para produtores certificados de biocombustíveis, negociado no mercado financeiro conforme a redução efetiva das emissões de CO₂.

CAR (Cadastro Ambiental Rural) – Sistema eletrônico que registra propriedades rurais e permite monitorar, via satélite, o cumprimento da legislação ambiental.

Pastagens degradadas – Áreas já abertas para pecuária que podem ser recuperadas para produção agrícola ou bioenergia, evitando novos desmatamentos.

IEA Bioenergy – Programa internacional ligado à Agência Internacional de Energia que reúne especialistas para desenvolver tecnologias e políticas voltadas à bioenergia sustentável.

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