A Aliança para a Inovação Automotiva, que reúne as principais montadoras que atuam nos Estados Unidos, enviou uma carta ao Congresso pedindo a aprovação de uma lei que proíba permanentemente a entrada de veículos, software e hardware chineses no mercado americano. O movimento busca transformar em legislação permanente as restrições atuais, que dependem de regulamentações que podem ser revertidas por futuras administrações. O pedido ocorre mesmo sem que nenhum veículo de montadora chinesa seja oficialmente vendido nos EUA hoje, e a proposta pode afetar indiretamente marcas europeias com participação chinesa, como a Mercedes-Benz.
A Aliança para a Inovação Automotiva, que representa a General Motors (GM), Ford, Toyota, Volkswagen, Hyundai, Honda, Stellantis e outras grandes montadoras, enviou na quinta-feira uma carta ao Congresso pedindo ação rápida. O CEO do grupo, John Bozzella, afirmou que as montadoras chinesas estão “despejando veículos subsidiados com software e hardware conectados em todo o mundo” .
A carta foi enviada aos líderes da Câmara e do Senado, com o pedido de que a proibição seja aprovada antes do recesso legislativo no final do ano . “Isso ainda não aconteceu nos EUA, mas dada a escala e a urgência dessa ameaça, instamos que o senhor promulgue uma proibição de veículos, software e hardware chineses antes do recesso deste ano e transforme essa política em lei nacional”, escreveu Bozzella .
As barreiras já existem, mas não são permanentes
Os veículos chineses já estão efetivamente bloqueados do mercado americano hoje, por meio de uma combinação de tarifas e regulamentações. O governo Biden impôs uma tarifa de 100% sobre veículos elétricos chineses e o Departamento de Comércio implementou a Regra de Veículos Conectados, que proíbe software chinês em novos veículos a partir do ano-modelo 2027 e hardware a partir de 2030 .
O que a aliança quer é transformar essas restrições em lei permanente, em vez de deixá-las dependentes de regulamentações que uma administração futura poderia reverter . A carta pede que a proibição abranja não apenas a importação, mas também a fabricação e venda de veículos conectados por montadoras chinesas nos EUA .
O argumento central da aliança é geopolítico: veículos conectados coletam dados sobre motoristas, rotas e infraestrutura, levantando preocupações de segurança nacional . No entanto, a carta é uma peça de lobby em um momento em que o Congresso ainda não aprovou a legislação, e a jogada é de calendário: o que hoje depende do Departamento de Comércio passaria a ser lei .
A complexidade da proibição
A proibição não é tão simples quanto parece. Em julho, o Comitê de Comércio do Senado aprovou uma legislação para endurecer a proibição governamental à entrada de montadoras chinesas no mercado americano, mas ela ainda enfrenta obstáculos para ser aprovada definitivamente .
Um dos pontos mais polêmicos é uma disposição que proibiria empresas com mais de 15% de participação de entidades chinesas de vender veículos nos EUA. Isso afetaria a Mercedes-Benz, que tem quase 20% de investimento chinês passivo — sendo 9,69% do empresário chinês Li Shufu (fundador da Geely) e 9,98% da estatal BAIC .
O senador Ted Cruz, presidente do comitê, afirmou que a disposição precisaria de alterações antes de se tornar lei, e que “nunca consideraria” proibir a Mercedes-Benz de vender nos EUA . O senador Bernie Moreno afirmou que a Mercedes teria até 2030 para se adequar e poderia obter isenções .
A Polestar, controlada pela Geely, já foi forçada a interromper as vendas nos EUA a partir do ano-modelo 2027 . Já a Volvo, também controlada pela Geely, recebeu autorização em maio para continuar vendendo, demonstrando a complexidade da aplicação das regras .
Quem está fora da carta
A carta da aliança não é assinada por todas as montadoras. Estão ausentes Tesla, Rivian, Lucid e Waymo, que não estão entre os 45 membros do grupo . A ausência da Tesla, maior fabricante de veículos elétricos dos EUA, e da Waymo, maior operadora de robotáxis, mostra que a “unidade” da indústria não é completa .
A aliança também deixou de fora da carta qualquer menção a um compromisso com a concorrência no mercado interno. Ao pedir o bloqueio, a indústria defende o status quo, não o mercado aberto . A posição é coerente em termos de segurança nacional, mas significa abrir mão da pressão competitiva que poderia acelerar a redução de preços dos elétricos no mercado americano .
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – O pedido da aliança americana é um sinal claro de que a indústria automotiva dos EUA está preocupada com a competitividade chinesa. O mais interessante é que a proibição já existe na prática, e o pedido é para torná-la permanente, mostrando que o setor teme que uma futura administração possa reverter as restrições.
A cláusula dos 15% de participação chinesa revela as tensões internas, pois afetaria a Mercedes-Benz, mostrando que a guerra comercial pode ter efeitos colaterais nos aliados europeus. A ausência da Tesla e da Waymo na carta indica que nem toda a indústria vê a ameaça chinesa da mesma forma.
Minha avaliação é que a indústria americana está usando o argumento da segurança nacional para proteger seu mercado, mas a longo prazo, a falta de concorrência pode atrasar a inovação e manter os preços elevados para o consumidor. A decisão final dependerá do Congresso, e a disputa entre os lobbies promete ser intensa nos próximos meses.
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RETROVISOR MECÂNICA ONLINE® – ENTENDE O QUE ESTÁ POR TRÁS DA NOTÍCIA
Proibição permanente: A aliança quer transformar as restrições atuais em lei, para que não possam ser revertidas por uma futura administração.
Nenhum carro chinês vendido hoje: Apesar da urgência, nenhum veículo de montadora chinesa é vendido oficialmente nos EUA atualmente.
Cláusula dos 15%: A proposta de lei pode afetar a Mercedes-Benz, que tem quase 20% de participação chinesa em seu capital.
Tesla e Waymo fora: As maiores empresas de veículos elétricos e de robotáxis dos EUA não assinaram a carta.
Tarifa de 100%: A barreira comercial já existe, com uma tarifa de 100% sobre veículos elétricos chineses.
Polestar proibida, Volvo autorizada: O mesmo controlador chinês (Geely) teve resultados diferentes, mostrando a complexidade da aplicação das regras.
MECÂNICA ONLINE® — MECÂNICA DO JEITO QUE VOCÊ ENTENDE
Tarifa de 100% sobre veículos chineses: Imposto de importação que dobra o preço de um veículo chinês nos EUA, tornando-o inviável comercialmente.
Regra de Veículos Conectados: Regulamentação que proíbe software chinês em novos veículos nos EUA a partir de 2027 e hardware chinês a partir de 2030.
Dumping: Prática de vender produtos a preços abaixo do custo de produção, geralmente com subsídios governamentais, para conquistar mercado.
Participação chinesa: Percentual do capital de uma empresa que é controlado por investidores ou entidades chinesas, que pode ser um critério para restrições comerciais.
Lobby: Atividade de grupos de pressão para influenciar decisões legislativas ou regulatórias em favor de seus interesses.

