A chegada dos carros elétricos chineses está provocando uma transformação profunda na indústria automotiva da Tailândia, tradicionalmente dominada por fabricantes japonesas. Em poucos anos, marcas da China conquistaram cerca de 85% do mercado local de veículos elétricos, oferecendo preços competitivos, conectividade e tecnologias que passaram a atrair os consumidores. Entretanto, a velocidade dessa mudança trouxe consequências para a cadeia industrial: fechamento de fábricas, redução de encomendas de autopeças e preocupação com milhares de empregos. O país, conhecido durante décadas como a “Detroit do Oriente”, tornou-se um exemplo de como a eletrificação pode acelerar a renovação tecnológica sem necessariamente preservar a estrutura produtiva existente. Para o Brasil, que também recebe investimentos de fabricantes chinesas, a experiência apresenta lições importantes sobre nacionalização de componentes, qualificação profissional e desenvolvimento industrial.
Marcas chinesas transformam o mercado que era dominado pelo Japão
A indústria automotiva tailandesa foi estruturada ao longo de décadas por fabricantes como Toyota, Honda, Nissan, Mitsubishi, Suzuki e Subaru, responsáveis pela instalação de fábricas e pelo desenvolvimento de uma extensa rede de fornecedores.
Esse cenário começou a mudar rapidamente com a chegada de BYD, GWM, Changan, GAC e outras fabricantes chinesas, impulsionadas pela expansão dos veículos elétricos e por incentivos governamentais.
Segundo reportagem do The New York Times, reproduzida pelo Estadão, as marcas chinesas passaram a representar aproximadamente 85% do mercado tailandês de automóveis elétricos.
O avanço foi acompanhado por mudanças industriais. A BYD inaugurou uma fábrica em Rayong em 2024, enquanto a GWM assumiu instalações anteriormente utilizadas pela General Motors. A Ford também incorporou uma unidade que pertenceu à Suzuki.
A transformação afetou fabricantes tradicionais: Suzuki e Subaru encerraram operações industriais locais, enquanto outras empresas japonesas reduziram ou reorganizaram sua produção.
Elétricos ganham mercado, mas importações continuam elevadas
A Tailândia adotou incentivos para acelerar a eletrificação, incluindo reduções tributárias, subsídios e facilidades para importação, associados a compromissos posteriores de produção local.
A estratégia ajudou a ampliar a participação dos elétricos nas vendas de veículos novos. Segundo a reportagem, esses automóveis representaram aproximadamente um terço do mercado nos primeiros sete meses de 2026.
Entretanto, cerca de dois terços dos elétricos comercializados nesse intervalo eram importados, principalmente da China.
Esse desequilíbrio evidencia uma questão importante: aumentar as vendas de veículos elétricos não significa necessariamente ampliar a produção nacional na mesma proporção.
A substituição de automóveis fabricados localmente por veículos importados pode reduzir encomendas para fornecedores, mesmo quando o mercado consumidor apresenta crescimento.
Fornecedores de autopeças enfrentam dificuldades
A mudança tecnológica também afeta a composição dos veículos. Um automóvel elétrico dispensa componentes como escapamento, sistema de alimentação de combustível, embreagem convencional e diversos elementos associados ao motor a combustão.
Por outro lado, amplia a demanda por baterias, motores elétricos, inversores, sistemas de gerenciamento eletrônico e componentes de alta tensão.
O problema surge quando a indústria local, historicamente especializada em veículos a combustão, não consegue participar dessas novas cadeias de fornecimento.
Na Tailândia, empresas fornecedoras das montadoras japonesas perderam encomendas, e algumas encerraram suas atividades. O setor tradicional de autopeças integra uma cadeia que emprega aproximadamente 700 mil trabalhadores, segundo os dados apresentados na reportagem.
O professor Ruth Banomyong, da Universidade Thammasat, alerta que até 300 mil empregos podem desaparecer nos próximos cinco anos em um cenário de rápida transformação industrial.
Esse número é uma projeção de risco, não uma quantidade de demissões já ocorridas. Seu resultado dependerá da adaptação das empresas, dos investimentos e das políticas industriais.
Produzir o carro no país não significa fabricar suas peças localmente
A questão central está no conteúdo local dos veículos, indicador que considera a participação de componentes e processos nacionais na fabricação.
Uma montadora pode instalar uma linha de montagem em determinado país e continuar dependendo fortemente de baterias, sistemas eletrônicos e componentes importados.
Estudo do Rhodium Group aponta que fabricantes chinesas de automóveis na Tailândia apresentam índices declarados de conteúdo local geralmente entre 40% e 60%, enquanto fabricantes japonesas estabelecidas há décadas registram, em muitos casos, níveis de 70% a 80%.
A diferença está relacionada ao tempo de desenvolvimento das cadeias industriais e à presença de fornecedores especializados. Isso não significa ausência de investimentos chineses locais, mas demonstra que instalar uma fábrica e desenvolver uma cadeia nacional de valor são etapas diferentes.
A própria BYD informa utilizar fornecedores tailandeses e realizar atividades industriais locais, mas a discussão sobre a origem de células de bateria e componentes eletrônicos continua relevante.
Governo tenta corrigir os efeitos da transição
Diante das dificuldades, o governo tailandês passou a revisar mecanismos de incentivo, buscando fortalecer a produção local e a utilização de componentes nacionais.
As políticas de eletrificação EV3 e EV3.5 incluem compromissos de fabricação doméstica vinculados aos benefícios concedidos anteriormente para importação.
Também foram anunciados ajustes para administrar estoques e estimular exportações, além de condições relacionadas ao cumprimento das obrigações industriais.
A experiência mostra que incentivos para ampliar as vendas precisam estar associados a metas de produção, transferência tecnológica e desenvolvimento de fornecedores.
Sem essas exigências, parte importante do valor agregado pode permanecer nos países que produzem baterias, semicondutores e sistemas eletrônicos.
Consumidor ganha em tecnologia e preço, mas indústria enfrenta pressão
Para o consumidor tailandês, a chegada das fabricantes chinesas ampliou a oferta de automóveis com telas digitais, câmeras de visão 360 graus, sistemas de assistência à condução e propulsão elétrica.
A combinação entre equipamentos e preços competitivos aumentou a pressão sobre fabricantes tradicionais, especialmente aquelas com menor presença no segmento de elétricos acessíveis.
Entretanto, é importante diferenciar sistemas avançados de assistência ao motorista de condução autônoma. Recursos como piloto automático adaptativo e centralização em faixa não dispensam automaticamente a supervisão humana.
A concorrência pode estimular melhorias tecnológicas e comerciais, mas a sustentabilidade do setor também depende de assistência técnica, fornecimento de peças, estabilidade das marcas e empregos industriais.
O que a Tailândia pode ensinar ao Brasil?
O Brasil vive uma transformação semelhante, com a chegada de novas fabricantes chinesas e a ampliação da oferta de veículos elétricos e híbridos.
A experiência tailandesa mostra que a instalação de fábricas representa apenas uma parte do desenvolvimento industrial.
Para ampliar os benefícios econômicos, será necessário estimular a produção de componentes, a qualificação profissional e a integração de fornecedores brasileiros às novas tecnologias.
Isso inclui oportunidades relacionadas a motores elétricos, eletrônica de potência, sistemas de gerenciamento de baterias, cabos de alta tensão, estruturas e gerenciamento térmico.
Outro aspecto fundamental é preparar as empresas tradicionalmente ligadas aos motores a combustão para participar de novos processos de fabricação, evitando que a transformação tecnológica provoque uma ruptura desnecessária na cadeia de fornecimento.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – A experiência da Tailândia apresenta um alerta importante: eletrificar o mercado automotivo e desenvolver uma indústria nacional de veículos elétricos não são necessariamente o mesmo processo.
A indústria chinesa conquistou competitividade porque avançou em baterias, eletrônica, sistemas de propulsão e escala produtiva. Essa integração contribui para oferecer veículos tecnologicamente equipados a preços que pressionam fabricantes tradicionais.
Entretanto, a transição exige atenção à cadeia de fornecedores. Um automóvel elétrico possui arquitetura diferente da de um modelo a combustão, mas continua dependendo de uma extensa estrutura industrial, envolvendo metalurgia, materiais, sistemas elétricos, suspensão, freios e componentes eletrônicos.
O desafio para países como Brasil e Tailândia é garantir que parte relevante dessas tecnologias também seja desenvolvida e fabricada localmente. A simples montagem de veículos com componentes importados pode gerar empregos, mas oferece resultados industriais diferentes daqueles proporcionados por uma cadeia de produção integrada.
Outro aspecto é a qualificação profissional. A manutenção e a fabricação de veículos eletrificados exigem conhecimentos sobre alta tensão, baterias, gerenciamento térmico e diagnóstico eletrônico. Preparar trabalhadores e fornecedores para essas atividades será fundamental para preservar a competitividade.
Também é necessário evitar interpretações simplistas. A chegada das fabricantes chinesas não é, por si só, responsável por todas as dificuldades da indústria tailandesa. Mudanças na demanda, concorrência, políticas governamentais e decisões das próprias fabricantes tradicionais também influenciam o resultado.
A principal lição para o Brasil é que a transição energética precisa caminhar junto com uma política de desenvolvimento industrial. Não basta ampliar a oferta de veículos elétricos: é necessário transformar investimentos em produção local, conhecimento técnico, fornecedores competitivos e empregos qualificados. O futuro da mobilidade também depende de quem desenvolve e fabrica suas tecnologias.
Para acompanhar indústria automotiva, carros elétricos, produção nacional, engenharia e transformação do mercado, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- 85% – Participação aproximada das marcas chinesas no mercado tailandês de veículos elétricos, conforme a reportagem.
- Rayong – Polo industrial onde estão instaladas operações de fabricantes como BYD e GWM.
- 2024 – Ano de inauguração da fábrica da BYD na Tailândia.
- 700 mil trabalhadores – Dimensão aproximada da cadeia tradicional de fornecedores automotivos citada na reportagem.
- 300 mil empregos – Projeção de postos potencialmente ameaçados em cinco anos, não de demissões confirmadas.
- EV3 e EV3.5 – Programas tailandeses de incentivo à eletrificação vinculados a compromissos industriais.
- Conteúdo local – Indicador importante para avaliar quanto da fabricação efetivamente utiliza componentes e processos nacionais.
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- Conteúdo local – Participação de peças, materiais e processos produtivos nacionais na fabricação de determinado veículo.
- Cadeia de fornecedores – Conjunto de empresas responsáveis por produzir e fornecer componentes utilizados na montagem de automóveis.
- Eletrônica de potência – Tecnologia responsável por controlar a conversão e a distribuição de energia elétrica nos sistemas de propulsão.
- Integração vertical – Estratégia em que uma empresa controla diferentes etapas da produção, desde componentes estratégicos até o produto final.

