A evolução dos veículos híbridos e elétricos está transformando as exigências da indústria de lubrificantes e fluidos automotivos. Sistemas que antes tinham como função principal reduzir o atrito e proteger componentes mecânicos agora precisam atender também a requisitos de isolamento elétrico, controle térmico e compatibilidade com novos materiais. Essas mudanças estiveram entre os principais temas do XIX Simpósio Internacional de Lubrificantes, Aditivos e Fluidos, realizado pela Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), em 27 de outubro de 2026, em São Paulo. O encontro também discutiu os desafios do biodiesel, a dependência brasileira de óleos básicos importados e a inclusão do setor de fluidos nos incentivos do programa MOVER.
A transformação da indústria automotiva não está restrita aos motores, às baterias e aos sistemas eletrônicos. Ela também modifica as características dos produtos utilizados para preservar o funcionamento dos veículos.
Com a expansão dos sistemas híbridos, elétricos e de combustíveis alternativos, óleos lubrificantes, fluidos de arrefecimento e produtos para transmissões precisam atender a condições de funcionamento cada vez mais específicas.
O tema reuniu representantes de montadoras, fornecedores, centros de pesquisa e especialistas no XIX Simpósio Internacional de Lubrificantes, Aditivos e Fluidos, realizado pela AEA no Millenium Center, na capital paulista.
Com o tema Ecossistema da Mobilidade: Conectando Pessoas, Tecnologia e Sustentabilidade, o encontro abordou os impactos da eletrificação, da descarbonização e das novas exigências regulatórias.
Mercado de lubrificantes pode chegar a 2,2 bilhões de litros
O setor brasileiro de lubrificantes apresenta perspectivas de crescimento, mesmo diante da transformação dos sistemas de propulsão.
Segundo dados apresentados por Sérgio Rebêlo, da FactorK, o consumo nacional está estimado em 1,7 milhão de metros cúbicos por ano.
A projeção indica que o volume poderá alcançar 2,2 milhões de metros cúbicos em 2035, crescimento aproximado de 29%.
| Indicador | Volume |
|---|---|
| Consumo anual atual estimado | 1,7 bilhão de litros |
| Projeção para 2035 | 2,2 bilhões de litros |
| Crescimento projetado | 29,4% |
Os valores representam estimativas de mercado, não volumes de produção já contratados ou garantidos.
Um dos desafios brasileiros está na dependência da importação de óleos básicos, utilizados como matérias-primas na formulação dos lubrificantes.
A disponibilidade desses componentes influencia os custos e a capacidade de atender às especificações técnicas exigidas pelas montadoras.
Óleos de baixa viscosidade exigem matérias-primas especiais
Os lubrificantes modernos precisam oferecer proteção mecânica mesmo quando formulados com viscosidades mais baixas.
A redução da viscosidade pode contribuir para diminuir perdas por atrito e bombeamento em determinadas condições de funcionamento.
Entretanto, o produto precisa manter características adequadas de proteção contra desgaste, oxidação e formação de depósitos.
Durante o simpósio, Rafael Ribeiro, da Chevron Oronite, destacou a importância dos óleos básicos do Grupo III para determinadas formulações de baixa viscosidade.
Esses óleos passam por processos avançados de refino e apresentam características favoráveis para a produção de lubrificantes de elevado desempenho.
A dificuldade está na substituição desses componentes quando ocorrem restrições de fornecimento.
Alterar o óleo básico de uma formulação não significa simplesmente trocar uma matéria-prima por outra equivalente.
Dependendo da composição, podem ser necessários novos ensaios de desempenho e processos de homologação para comprovar o atendimento às exigências técnicas.
Motores híbridos criam novos desafios de lubrificação
Nos veículos híbridos, o motor a combustão pode permanecer desligado durante parte do deslocamento e voltar a funcionar conforme a demanda de potência ou energia.
Esse funcionamento intermitente modifica as condições de trabalho do lubrificante.
Em determinadas situações, o motor pode operar por períodos curtos, sem atingir as temperaturas observadas durante uma utilização prolongada.
Isso pode favorecer a acumulação de umidade e a diluição do óleo por combustível, especialmente quando o funcionamento não permite a evaporação adequada desses contaminantes.
Também existem desafios relacionados à proteção contra corrosão e desgaste durante sucessivas partidas.
O tema foi abordado por especialistas de empresas como Lubrizol e Richful, que discutiram novas exigências de formulação para motores híbridos.
Um dos pontos importantes é garantir que o lubrificante ofereça proteção mesmo em condições de utilização diferentes daquelas encontradas em veículos exclusivamente a combustão.
Carros elétricos precisam de fluidos com funções diferentes
Os automóveis totalmente elétricos dispensam o óleo lubrificante convencional do motor a combustão, mas continuam utilizando fluidos técnicos em diferentes sistemas.
Entre as aplicações estão redutores de transmissão, sistemas de arrefecimento, unidades de propulsão e circuitos de gerenciamento térmico.
Nesses veículos, a escolha do fluido pode envolver características que não são prioritárias nos lubrificantes tradicionais.
Além da proteção contra desgaste, determinadas aplicações exigem atenção à condutividade elétrica, compatibilidade com materiais e capacidade de transferência de calor.
Essa diferença é importante porque motores elétricos, inversores e baterias trabalham em condições térmicas específicas.
O controle da temperatura influencia diretamente o desempenho e a durabilidade dos componentes.
Especialistas da Infineum, Lubrizol e Richful discutiram a necessidade de desenvolver formulações e procedimentos de avaliação adaptados às novas arquiteturas.
Um fluido desenvolvido para um motor a combustão não deve ser utilizado automaticamente em um sistema de propulsão elétrica, mesmo quando ambos desempenham funções relacionadas à lubrificação.
Motores a hidrogênio também precisam de lubrificantes específicos
A utilização de hidrogênio em motores de combustão interna representa outra área de pesquisa.
Embora esses motores não utilizem gasolina ou diesel como combustível principal, continuam possuindo componentes mecânicos que precisam de lubrificação.
Durante o simpósio, Robert Wulff, da alemã APL, apresentou resultados de uma pesquisa realizada em parceria com a TotalEnergies.
Em determinadas condições experimentais, uma formulação específica de lubrificante proporcionou redução de até 100 vezes na emissão de partículas.
O resultado demonstra que o lubrificante pode influenciar a formação de emissões mesmo em motores que utilizam hidrogênio.
Isso acontece porque a combustão de hidrogênio não elimina completamente a participação de pequenas quantidades de óleo presentes na câmara de combustão.
Entretanto, a redução apresentada corresponde às condições do estudo, não sendo possível generalizá-la para qualquer motor ou condição de funcionamento.
Biodiesel amplia exigências para motores diesel
O avanço dos combustíveis renováveis também impõe desafios para os lubrificantes.
Segundo dados apresentados por Alexandre Melo, da S&P Global Energy, o Brasil possui capacidade instalada de aproximadamente 15,5 bilhões de litros anuais de biodiesel.
A ociosidade estimada é de pelo menos 30%, indicando capacidade industrial disponível para expansão da produção.
Entretanto, o aumento do teor de biodiesel misturado ao diesel depende de avaliações técnicas, decisões regulatórias e condições econômicas.
Durante o simpósio, especialistas da Afton Chemical e da Vibra Energia apresentaram estudos envolvendo misturas com até 50% de biodiesel.
Entre os temas avaliados estavam os efeitos dos combustíveis sobre o funcionamento dos motores e o desempenho dos lubrificantes.
Misturas com elevados teores de biodiesel podem apresentar características diferentes de estabilidade, comportamento em baixas temperaturas e interação com componentes dos sistemas de alimentação.
A eventual diluição do óleo lubrificante por combustível também precisa ser considerada em determinadas aplicações.
Os testes com misturas contendo até 50% de biodiesel não significam que esse percentual esteja automaticamente autorizado para todos os motores diesel em circulação no Brasil.
A utilização depende de especificações técnicas, regulamentação e orientações dos fabricantes.
AEA quer incluir lubrificantes e fluidos no programa MOVER
Uma das propostas apresentadas durante o encontro envolve a ampliação da participação da indústria de fluidos automotivos no Programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVER).
A iniciativa está sendo desenvolvida pela comissão técnica da AEA em conjunto com o Sindicom.
O objetivo é reconhecer atividades relacionadas à pesquisa, desenvolvimento, ensaios e homologação de fluidos automotivos nos mecanismos de incentivo do programa.
O estudo foi apresentado por Carolina Silva, da Infineum, integrante da comissão técnica da entidade.
A proposta foi encaminhada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
O argumento central é que os lubrificantes e fluidos contribuem diretamente para a eficiência energética, as emissões e a durabilidade dos veículos.
Entretanto, a proposta ainda representa um pleito do setor, e não a confirmação de que essas atividades já foram incorporadas aos benefícios do MOVER.
Qualidade dos fluidos de arrefecimento preocupa especialistas
Outro tema importante foi a qualidade dos fluidos de arrefecimento comercializados no mercado brasileiro de reposição.
Durante sua apresentação, Fernanda Ribeiro, da Iconic, destacou que existem normas técnicas nacionais para esses produtos, mas seu atendimento não é obrigatório de maneira geral.
A preocupação está relacionada à utilização de fluidos inadequados, que podem comprometer a proteção dos componentes do sistema de arrefecimento.
Para 2027, um grupo de trabalho do Sindicom pretende avaliar entre 50 e 75 amostras disponíveis no mercado.
Os resultados deverão contribuir para discussões sobre requisitos de qualidade e fiscalização.
A análise é importante porque o fluido de arrefecimento não serve apenas para controlar a temperatura.
Ele também precisa oferecer proteção contra corrosão, estabilidade química e compatibilidade com diferentes materiais, conforme a aplicação.
Brasileiros demonstram interesse limitado nos elétricos
O simpósio também abordou o comportamento dos consumidores diante da transformação da mobilidade.
Em apresentação realizada por Patrícia Pavanelli, da Ipsos, foram divulgados dados sobre a disposição da população em adotar alternativas de transporte menos poluentes.
Segundo o levantamento, 67% dos brasileiros afirmam estar dispostos a modificar hábitos de transporte para reduzir emissões.
Entretanto, apenas 36% consideram os veículos elétricos atraentes, percentual inferior à média global de 47%.
| Indicador da pesquisa Ipsos | Resultado |
|---|---|
| Brasileiros dispostos a mudar hábitos de transporte | 67% |
| Brasileiros que consideram elétricos atraentes | 36% |
| Média global de atratividade dos elétricos | 47% |
Os resultados demonstram que a intenção de contribuir para a redução das emissões não se traduz necessariamente em preferência imediata por automóveis elétricos.
Questões como preço, infraestrutura de recarga e condições de utilização continuam influenciando a decisão dos consumidores.
Montadoras defendem integração entre fornecedores e engenharia
O painel sobre a mobilidade do futuro reuniu representantes de diferentes áreas da indústria.
Participaram Everton Lopes, da Mahle; Paulo Jorge, da Mercedes-Benz; e Raquel Mizoe, da General Motors, com mediação de Margareth Carvalho, da AEA.
Os debatedores destacaram que a convivência entre motores a combustão, sistemas híbridos, veículos elétricos e novas alternativas energéticas exige maior integração entre fabricantes e fornecedores.
O desenvolvimento de lubrificantes e fluidos precisa acompanhar as características de cada arquitetura desde as fases iniciais dos projetos.
A discussão também destacou a importância da previsibilidade regulatória e de soluções que conciliem descarbonização, competitividade e segurança operacional.
SIMEA 2026 premia pesquisas da engenharia brasileira
O encerramento do simpósio foi marcado pela divulgação dos trabalhos reconhecidos na Premiação SIMEA 2026.
Segundo a AEA, aproximadamente 130 trabalhos foram propostos, dos quais 120 foram aprovados.
A avaliação contou com cerca de 60 especialistas, e aproximadamente 60 estudos foram apresentados durante o SIMEA 2026 e posteriormente disponibilizados online.
O prêmio de Melhor Trabalho Técnico foi concedido à pesquisa:
“Especiação de hidrocarbonetos nas emissões de um veículo flex-fuel Proconve L8 com gasolina E22 e etanol hidratado”, desenvolvida por profissionais da Petrobras.
O estudo aborda a composição dos hidrocarbonetos presentes nas emissões de um veículo flex, considerando diferentes combustíveis e exigências do Proconve L8.
Além do vencedor principal, nove trabalhos receberam Menção Honrosa, distribuídos em sete categorias.
| Categoria | Trabalho reconhecido | Instituições |
|---|---|---|
| Bem-estar e conforto | Redução de ruído do sistema de admissão em motor aspirado | Volkswagen e Vibroacústica |
| Combustíveis e lubrificantes | Misturas com alto teor de biodiesel em motores fora de estrada | Vale e Instituto Mauá de Tecnologia |
| Dinâmica veicular | Otimização de trocas de marchas com algoritmos genéticos e redes neurais | Unicamp |
| Emissões | Desenvolvimento de catalisadores TWC para motores a etanol | Não informadas no material |
| Emissões | Estratégias de aquecimento de catalisadores em motores turbo flex GDI | FEV |
| Gerenciamento de energia | Bancada dinamométrica para estratégias de hibridização | Volkswagen e Unicamp |
| Powertrain avançado | Antena para ignição assistida por plasma de micro-ondas | USP |
| Materiais e tribologia | Efeitos da corrente elétrica em aço AISI 4140 nitretado | UFSC |
| Transformação digital | Plataforma ATLAS de sincronização de dados de bancada e ECU | Mahle |
A premiação contempla temas que demonstram a diversidade da engenharia automotiva brasileira, incluindo inteligência artificial, emissões, novos combustíveis e materiais.

Mecânica Online® com Tarcisio Dias – O XIX Simpósio Internacional de Lubrificantes, Aditivos e Fluidos reforça uma questão fundamental: a transformação dos sistemas de propulsão não diminui a importância dos fluidos automotivos, mas modifica profundamente suas funções.
Nos motores a combustão tradicionais, os lubrificantes precisam reduzir atrito, controlar desgaste, remover parte do calor, proteger contra corrosão e manter contaminantes em suspensão.
Com a popularização dos veículos híbridos, surgem condições de funcionamento diferentes. Partidas frequentes, períodos prolongados com o motor desligado e temperaturas de operação eventualmente mais baixas exigem atenção à estabilidade do lubrificante.
Nos automóveis elétricos, a principal mudança está na integração entre lubrificação, transferência de calor e propriedades elétricas.
Determinados componentes precisam de fluidos capazes de proteger engrenagens e rolamentos, enquanto outros circuitos exigem produtos específicos para controlar a temperatura de baterias, motores e sistemas eletrônicos.
É importante destacar que não existe um fluido universal para todos esses sistemas. A composição precisa atender às características da aplicação e às especificações do fabricante.
A discussão sobre os óleos básicos do Grupo III também é relevante para o Brasil. A dependência de matérias-primas importadas pode afetar a disponibilidade de formulações avançadas, especialmente aquelas que exigem viscosidades reduzidas e elevado desempenho.
Já o avanço do biodiesel e dos motores a hidrogênio demonstra que a descarbonização não depende exclusivamente de automóveis elétricos. Diferentes tecnologias poderão coexistir, cada uma exigindo soluções específicas de lubrificação.
Outro ponto importante está na qualidade dos fluidos de arrefecimento. Utilizar produtos sem especificação adequada pode acelerar processos de corrosão, comprometer a transferência de calor e provocar danos em componentes do sistema.
A proposta de incluir pesquisa e desenvolvimento de fluidos nos mecanismos de incentivo do MOVER merece discussão técnica porque a eficiência energética de um automóvel é resultado do funcionamento integrado de seus componentes.
O futuro da lubrificação automotiva não será determinado apenas pela redução do atrito, mas pela capacidade de desenvolver fluidos que contribuam para a segurança, a eficiência energética e a durabilidade de diferentes sistemas de propulsão. O evento contou com o apoio de divulgação do Mecânica Online®.
Para acompanhar lubrificantes, engenharia automotiva, veículos híbridos, eletrificação, combustíveis renováveis e novas tecnologias, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- 27 de outubro – Data do XIX Simpósio Internacional de Lubrificantes, Aditivos e Fluidos da AEA.
- 1,7 bilhão de litros – Consumo anual estimado de lubrificantes no Brasil.
- 2,2 bilhões de litros – Projeção de consumo para 2035.
- Grupo III – Categoria de óleos básicos importante para determinadas formulações de baixa viscosidade.
- Até 100 vezes – Redução de partículas obtida em condições específicas de pesquisa com motores a hidrogênio.
- 15,5 bilhões de litros – Capacidade anual instalada estimada de biodiesel no Brasil.
- 50 a 75 amostras – Avaliações de fluidos de arrefecimento planejadas para 2027.
- 120 trabalhos – Estudos aprovados no processo do SIMEA 2026.
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- Viscosidade – Propriedade que representa a resistência de um fluido ao escoamento, fundamental para a formação de películas lubrificantes.
- Óleo básico Grupo III – Óleo básico de elevado índice de viscosidade, geralmente produzido por processos avançados de refino, utilizado em diferentes formulações de alto desempenho.
- Diluição por combustível – Contaminação do lubrificante por combustível não queimado, que pode alterar sua viscosidade e outras propriedades.
- Gerenciamento térmico – Controle das temperaturas dos componentes mecânicos, elétricos e eletrônicos, incluindo motores, baterias e inversores.
- Tribologia – Área da engenharia que estuda atrito, desgaste e lubrificação entre superfícies em contato.