O setor automotivo brasileiro atravessa uma reconfiguração profunda que vai além das linhas de montagem. A septuagenária e poderosa Anfavea — Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores — enfrenta o desafio de manter sua hegemonia diante de uma divisão institucional sem precedentes. Enquanto as montadoras tradicionais mantêm seu núcleo na Anfavea, a nova onda de fabricantes chinesas, liderada por nomes como BYD, GWM e GAC, tem optado por fortalecer entidades como a Abeifa e a ABVE. Esse cenário cria um ambiente de incertezas, onde os dados de produção, vendas e empregos do setor passaram a ser lidos por diferentes lentes, dificultando a análise do real impacto da indústria no País.
A disputa por influência ganha contornos práticos com o anúncio de Marcelo de Godoy, presidente da Abeifa, sobre a fase final de negociação para a filiação de quatro novas marcas chinesas (Omoda & Jaecoo, Jetour, GAC e Zeekr).
O movimento é estratégico: três delas já possuem planos concretos de produção local, o que historicamente seria o passaporte automático para a Anfavea. No entanto, a preferência pela Abeifa sinaliza uma ruptura no modelo tradicional de representatividade.
O impacto dessa fragmentação é sentido na transparência das informações: a Anfavea já contempla dados de produção de GWM e BYD, mas ainda exclui essas marcas de seus quadros oficiais de empregos, gerando uma lacuna na leitura do setor.
O conflito de métricas estende-se também aos veículos eletrificados. Enquanto a Anfavea e a Fenabrave incluem os híbridos leves em seus relatórios — modalidade amplamente adotada pela Stellantis na produção local —, a ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico) ignora essa categoria, focando estritamente em tecnologias com maior grau de eletrificação.
Essa divergência torna a interpretação dos números um exercício complexo, exigindo constantes ressalvas para que jornalistas e investidores compreendam as estatísticas divulgadas.
A tensão tornou-se pública durante a última coletiva da Anfavea, liderada por seu presidente-executivo Igor Calvet. A expectativa pela filiação das gigantes chinesas foi substituída pela inclusão da JCB e da Volvo CE (fabricantes de máquinas agrícolas e de construção), evidenciando o distanciamento entre a pauta da associação tradicional e a nova realidade da mobilidade urbana.
Questionado sobre os incentivos à importação e a resistência das chinesas em aderir à Anfavea, Calvet mantém a postura de que a entidade não discrimina por origem, embora a vitória da BYD na recente renovação das cotas de alíquota zero tenha deixado clara a existência de visões opostas entre a montadora chinesa e a associação dos fabricantes tradicionais.
Para o setor, o desafio é entender como essa divisão impactará a interlocução com o governo federal. Com o mercado automotivo brasileiro atravessando um ciclo de novas fábricas e tecnologias, a dispersão em três associações distintas — Anfavea, Abeifa e ABVE — pode enfraquecer o discurso do setor em pautas cruciais, como incentivos fiscais e diretrizes para a descarbonização.
Enquanto a Anfavea tenta se adaptar à era de um presidente-executivo profissional, a Abeifa e a ABVE colhem os frutos da agilidade em abraçar os novos players que, com planos agressivos de nacionalização, prometem transformar o Brasil em um hub estratégico global para a mobilidade de nova geração.
Análise Mecânica Online® com Tarcisio Dias – A fragmentação da representatividade automotiva no Brasil é o reflexo direto de uma indústria que não consegue mais ser “tamanho único”.
A Anfavea, historicamente focada no modelo das “quatro grandes” (o chamado legacy), encontra dificuldades em adaptar seu lobby para uma realidade onde o veículo elétrico e a importação estratégica não são mais exceções, mas o núcleo do crescimento.
Quando vemos marcas como Omoda & Jaecoo e GAC preferindo a Abeifa, percebemos que o diálogo com o governo está migrando para onde a flexibilidade é maior.
O risco de essa “confusão total” de dados é o enfraquecimento do setor perante políticas públicas: se o setor não fala a mesma língua, o governo terá margem para aplicar políticas de “dividir para conquistar”.
Retrovisor Mecânica Online®
- Cenário Atual: Divisão institucional entre Anfavea, Abeifa e ABVE reflete a polarização entre montadoras tradicionais e chinesas.
- Novos Players: Omoda & Jaecoo, Jetour, GAC e Zeekr avançam em negociações para filiação à Abeifa.
- Divergências: Falta de consenso na contabilização de empregos e na classificação de veículos híbridos leves entre as entidades.
- Ajuste na Anfavea: Entidade passa por transição de liderança, agora com presidente-executivo profissional (Igor Calvet), buscando navegar na crise de representatividade.
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CKD (Completely Knocked Down) e SKD (Semi Knocked Down) são regimes de importação onde o veículo chega ao país parcialmente ou totalmente desmontado para ser finalizado na fábrica local, visando benefícios fiscais. Híbrido Leve (MHEV) é um sistema onde um pequeno motor elétrico auxilia o motor a combustão, sem capacidade de mover o veículo sozinho, ponto central da divergência estatística. Anfavea é a entidade que representa os fabricantes tradicionais, enquanto a Abeifa atua como associação dos importadores e fabricantes de veículos leves. Pauta vocacional refere-se ao interesse de uma montadora em se alinhar a uma entidade que represente com mais clareza seus planos de produção industrial ou apenas de importação.

