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Mestre Carsughi: morre aos 93 anos o jornalista que uniu engenharia e paixão pelo automóvel

Nascido em Arezzo, na Itália, em 1932, Claudio Carsughi construiu uma carreira de mais de sete décadas no rádio, na televisão, na internet e nas revistas especializadas – testou a Romi-Isetta em 1956, foi o primeiro a ver e testar o Gol da Volkswagen e acompanhou cinco Copas do Mundo como comentarista

Claudio Carsughi morreu nesta quinta-feira, 10 de setembro de 2026, às 7h44, aos 93 anos. Nascido em Arezzo, na Itália, em 13 de outubro de 1932, ele construiu uma carreira de mais de sete décadas que atravessou rádio, jornal impresso, revistas, televisão e internet. Engenheiro de formação pela Poli-USP, tornou-se uma das vozes mais respeitadas da imprensa automotiva e esportiva brasileira, testemunha da transformação da indústria desde os primeiros automóveis produzidos no país até a era da eletrificação. Deixa mulher, filhos, netos e bisnetos. Este texto tem origem em publicação da filha dele, a jornalista Claudia Carsughi.

Claudio Carsughi chegou ao Brasil com cinco anos, em março de 1946, a bordo do navio Duque de Caxias. A família deixou a Itália após o fim da Segunda Guerra Mundial, temendo o início de um terceiro conflito. A ideia inicial era permanecer por apenas um ano no país, mas as consequências da guerra prolongaram a estadia – que se tornou definitiva.

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No Rio de Janeiro, a família ficou cerca de um mês antes de seguir para São Paulo. Ele estudou no colégio italiano Dante Alighieri e depois ingressou na faculdade de Engenharia Civil da Poli-USP. Trabalhou por pouco tempo como engenheiro, mas o jornalismo já corria no sangue.

A explicação para a mudança ele dava de forma simples: “resolvi fazer aquilo que eu amava e nada melhor que passar a vida trabalhando, assim o trabalho virou prazer”.

A carreira começou cedo, aos 13 anos, escrevendo para o jornal italiano Corriere dello Sport. Em 1950, escreveu um texto sobre a movimentação do povo brasileiro em relação à Copa do Mundo – e esse foi o início de sua trajetória.

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No início dos anos 1950, trabalhou na Rádio Cultura de Poços de Caldas, em Minas Gerais. Em 1957, foi contratado pela Rádio Panamericana, que posteriormente se tornaria a Jovem Pan.

Começou ligado ao futebol, mas rapidamente ampliou sua atuação: em 1958, já comentava futebol, Fórmula 1 e indústria automobilística. A relação com a Pan foi interrompida algumas vezes, mas se tornou uma das mais longas e marcantes histórias profissionais do rádio brasileiro.

Entre 1960 e 1963, trabalhou na Rádio Bandeirantes. Depois passou pela Rádio Record e, quando a emissora deixou de transmitir futebol, voltou àquela que foi sua casa por mais de 60 anos, a Rádio Jovem Pan.

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Na imprensa escrita, trabalhou na Gazeta Esportiva e, em 1965, foi convidado por Mino Carta para integrar a equipe do recém-lançado Jornal da Tarde.

Foi correspondente do Corriere dello Sport, da revista Calcio e Ciclismo Illustrato e, posteriormente, do Tuttosport. A partir de 1995, passou a colaborar também com o jornal italiano La Stampa, especialmente na cobertura da indústria automobilística.

Foi nesse momento que o jornalista e o engenheiro se encontraram. Seu conhecimento técnico proporcionava avaliar de forma absolutamente completa cada carro que chegava às suas mãos.

Seu primeiro grande teste automobilístico foi com a Romi-Isetta, em 1956. Foi justamente no período em que a produção de automóveis começava a ganhar corpo no país. Testou e avaliou uma enorme quantidade de veículos produzidos no Brasil e no exterior.

Em 1971, passou pela Editora Abril, trabalhando na revista Placar. Em 1974, chegou à Quatro Rodas, onde permaneceu por 25 anos. Foi o primeiro jornalista a ver e testar o Gol da Volkswagen – e também a se despedir dele e chutar a bola para a chegada do Polo.

Entre 1974 e 1990, foi responsável pela área técnica e pela avaliação de automóveis da revista. Suas matérias eram sempre muito técnicas, pois naquela época o jornalismo exigia conhecimento e seriedade.

Cada número publicado sobre um carro era fruto de muitas medições, análise técnica, desempenho, comportamento dinâmico e comparação entre modelos.

Foi testemunha ocular da transformação da indústria, dos primeiros automóveis à evolução dos motores, segurança, tecnologia embarcada até chegar aos dias de hoje com a eletrificação.

Sempre foi fã dos carros com transmissão manual.

Dizia que não queria um computador pensando por ele na direção.

Quando foi desligado da Quatro Rodas, em 1990, imediatamente foi contratado pela Revista Oficina Mecânica.

A experiência adquirida durante décadas de contato direto com automóveis, fabricantes e profissionais do setor fez dele uma das vozes mais respeitadas da imprensa especializada brasileira.

Embora o automóvel tenha se tornado uma de suas maiores marcas profissionais, nunca deixou de ser também um jornalista esportivo.

No rádio, participou de grandes coberturas de futebol.

Acompanhou cinco Copas do Mundo consecutivas como comentarista da Rádio Panamericana: 1970, 1974, 1978, 1982 e 1986.

As melhores histórias desses momentos estão descritas em primeira pessoa na biografia que sua filha escreveu sobre ele: “Meus 50 anos de Brasil”.

Também foi pioneiro no uso de estatísticas durante transmissões esportivas, algo que hoje parece natural, mas que naquele período ainda era novidade.

A partir do final dos anos 1950, passou a acompanhar e comentar o automobilismo internacional.

Ao longo das décadas seguintes, esteve presente em grandes momentos da Fórmula 1, acompanhando pilotos, equipes, transformações técnicas e a evolução de um esporte que também mudaria profundamente.

Seu conhecimento técnico fazia com que seus comentários fossem diferentes.

Ele não olhava apenas para o resultado de uma corrida. Procurava entender o carro, o motor, a estratégia, o comportamento do piloto e as circunstâncias que explicavam o desempenho.

No dia da morte de Ayrton Senna, em 1994, ele acompanhava pela televisão em casa.

Ao ver a batida, correu para seu rádio de ondas curtas e ouviu a transmissão italiana.

No momento em que a doutora do centro médico anunciou a morte encefálica, ligou imediatamente para a Jovem Pan.

Sem titubear, afirmou categoricamente que o ídolo tinha partido.

Foi o primeiro jornalista a dar a notícia que, como ele dizia, jamais quis dar.

Em 1992, foi convidado pela Ferrari para conhecer Maranello.

Na pista de Fiorano, teve a oportunidade de testar uma Ferrari Testarossa.

A experiência foi publicada na revista Oficina Mecânica, onde trabalhava naquele período.

Quase duas décadas depois, em 2011, voltou a Maranello por insistência da filha, Claudia, para colher material para o livro.

Desta vez, ela foi com ele.

A viagem teve um significado especial para Claudia, que pôde acompanhar o pai em um lugar que fazia parte de sua história profissional e de suas paixões.

Na Ferrari, ele testou a California e conheceu novamente a fábrica, observando as transformações pelas quais a empresa havia passado desde sua primeira visita.

Depois da revista Oficina Mecânica, participou da criação da revista Auto&Técnica, em meados dos anos 1990.

Também continuava trabalhando como correspondente internacional e comentarista.

Em 1996, passou a integrar a ESPN Brasil, onde comentou Fórmula 1 e futebol até 2005.

Depois, passou a trabalhar no SporTV, no programa Arena, comentando Fórmula 1, motociclismo e futebol.

Sua carreira atravessou diferentes gerações de mídia.

Começou no jornal impresso e no rádio, passou pelas revistas, chegou à televisão e, posteriormente, alcançou a internet.

Essa capacidade de se adaptar talvez seja uma das características mais marcantes de sua trajetória.

Em 2012, ele e a filha lançaram o Site do Carsughi, reunindo conteúdos sobre indústria automobilística, Fórmula 1, futebol e turismo.

Depois de deixar a Jovem Pan, em 2015, passou a produzir conteúdo também pelo UOL, com os canais Carsughi, UOL Carros e UOL Esporte.

Pouco tempo depois, voltou ao rádio pela Rádio Nacional, integrando a equipe do programa “No Mundo da Bola”.

Também participou da programação esportiva da TV Brasil.

Aos poucos, o homem que havia começado escrevendo para um jornal italiano na juventude havia atravessado praticamente todas as grandes transformações da comunicação brasileira.

Ao longo dos anos, recebeu diversas homenagens e reconhecimentos pela contribuição ao jornalismo, ao automobilismo e ao esporte.

Ganhou na TV Record por alguns anos o troféu Roquete Pinto, além de vários prêmios de jornalismo pela Editora Abril.

Em 2015, a filha criou o prêmio “Carsughi L’Auto Preferita”, reunindo jornalistas especializados para avaliar os principais modelos e marcas do mercado automobilístico.

O nome Carsughi passou, assim, a fazer parte também da história da premiação da indústria automotiva brasileira.

Em 2025, aos 93 anos, recebeu uma homenagem na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

O reconhecimento se deu em razão de sua trajetória e da contribuição que prestou ao jornalismo e ao automobilismo brasileiro.

Mas talvez o reconhecimento mais significativo tenha sido aquele que veio de colegas e de gerações de profissionais que aprenderam com ele.

Rubens Barrichello, Felipe Massa, Milton Neves e tantos outros passaram a chamá-lo de “Mestre Carsughi”.

Era um italiano na sua essência, mas que cultivou um grande amor pelo Brasil.

Em casa, a língua oficial sempre foi o italiano e ele sempre estava atualizado com as notícias daqui e da Itália.

Foi no Brasil que constituiu sua família, seus amigos e toda a sua história profissional.

Foi marido, pai, avô, bisavô, jornalista, engenheiro, comentarista, editor, correspondente e, acima de tudo, um homem profundamente correto.

Outro grande ensinamento que passou foi o de ser extremamente objetivo.

Em poucas palavras sempre disse tudo o que pensava – e essa característica, do ponto de vista da filha, foi o que mais marcou sua carreira e seu sucesso.

Falar assertivamente, sem enrolações.

Mais de sete décadas contando histórias.

Quando se olha para a trajetória profissional de Claudio Carsughi, percebe-se que ela não pode ser resumida apenas pelos veículos em que trabalhou ou pelos cargos que ocupou.

Sua história atravessa gerações.

Começa no rádio e no jornal impresso, passa pelas revistas, pelas grandes transmissões esportivas, pela Fórmula 1, pelas Copas do Mundo, pela indústria automobilística, pela televisão e chega à internet.

Ele acompanhou a transformação do automóvel brasileiro desde a Romi-Isetta.

Viu nascer e crescer a Fórmula 1 no país. Cobriu cinco Copas do Mundo consecutivas.

Trabalhou em algumas das principais redações esportivas e automobilísticas do Brasil.

Conheceu e entrevistou gerações de pilotos, jogadores, dirigentes, engenheiros e jornalistas.

E fez tudo isso sem abandonar sua característica mais marcante: a independência de pensamento.

Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Claudio Carsughi foi, antes de tudo, um jornalista que nunca separou técnica de paixão. Formado engenheiro, escolheu o jornalismo – e fez dessa escolha uma ponte entre dois mundos que raramente se conversam.

Ele entendia de motor, de chassi, de dinâmica veicular, mas também entendia de gente, de história e de contexto. Essa combinação é rara e explica por que suas avaliações eram tão respeitadas.

O episódio da morte de Ayrton Senna, em 1994, é talvez o retrato mais preciso de quem ele era. Ele não esperou confirmação oficial, não consultou assessores, não mediu palavras: ouviu a transmissão italiana, ligou para a Jovem Pan e deu a notícia. Foi o primeiro a dizer que o ídolo havia partido – e jamais quis dar essa notícia.

Isso é jornalismo no seu sentido mais essencial: apurar, confirmar e informar, mesmo quando dói. Carsughi testou a Romi-Isetta em 1956 e a Ferrari California em 2011.

Entre um teste e outro, testemunhou a transformação completa da indústria automobilística – dos motores carburados à injeção eletrônica, da direção mecânica à assistida, do carro analógico ao digital.

Ele nunca escondeu sua preferência pelos carros com transmissão manual. Dizia que não queria um computador pensando por ele. Essa frase, dita décadas antes da era dos carros autônomos, soa hoje quase profética.

O legado de Carsughi não está apenas nos textos que escreveu ou nas transmissões que fez. Está nas gerações de jornalistas que aprenderam com ele a importância de entender o que se está falando antes de falar. Está no Prêmio Carsughi L’Auto Preferita, criado pela filha Claudia em 2015.

Está na biografiam que inclusive recebi com sua dedicatória, “Meus 50 anos de Brasil”, que registra em primeira pessoa as histórias de cinco Copas do Mundo.

E está, sobretudo, na independência de pensamento que ele manteve até o fim. O Mestre Carsughi partiu nesta quinta-feira, às 7h44. Deixa a mulher, os filhos, os netos, os bisnetos e uma obra que atravessa mais de sete décadas.

Deixa também uma pergunta que todo jornalista especializado deveria se fazer: será que estamos entendendo tão profundamente aquilo que cobrimos quanto ele entendia de carros? A resposta, provavelmente, é não. E é por isso que ele já faz falta.

Tarcisio Dias e Cláudio Carsughi nas coberturas automotivas

Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia

  • Romi-Isetta, 1956: primeiro grande teste automobilístico de Carsughi, realizado quando a produção nacional de veículos começava a ganhar corpo. O modelo, fabricado pela Romi, foi um dos primeiros automóveis produzidos no Brasil.
  • Quatro Rodas por 25 anos: entre 1974 e 1990, ele foi responsável pela área técnica e pela avaliação de automóveis da revista, tornando-se uma das figuras mais importantes da publicação e referência em testes técnicos.
  • Primeiro a testar o Gol: Carsughi foi o primeiro jornalista a ver e testar o Volkswagen Gol – e também a se despedir dele, chutando a bola para a chegada do Polo. O episódio sintetiza sua longevidade profissional.
  • Cinco Copas do Mundo consecutivas: 1970, 1974, 1978, 1982 e 1986. Como comentarista da Rádio Panamericana, acompanhou de perto diferentes gerações do futebol brasileiro e internacional.
  • Primeiro a noticiar a morte de Senna: em 1994, ouviu a transmissão italiana pelo rádio de ondas curtas, ligou para a Jovem Pan e afirmou categoricamente que Ayrton Senna havia partido – antes de qualquer confirmação oficial.
  • Ferrari e Maranello: em 1992, testou a Testarossa em Fiorano. Em 2011, voltou para testar a California, acompanhado da filha Claudia. As duas visitas marcaram sua relação com a marca italiana e com a paixão pela Fórmula 1.

Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende

  • Poli-USP: Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, uma das mais tradicionais instituições de engenharia do país. Carsughi formou-se em Engenharia Civil, mas trocou a profissão pelo jornalismo.
  • Rádio de ondas curtas: tecnologia de transmissão que permitia captar emissoras de outros países. Foi por meio dela que Carsughi ouviu a transmissão italiana no dia da morte de Ayrton Senna, em 1994.
  • Corriere dello Sport: jornal esportivo italiano fundado em 1924, sediado em Roma. Carsughi começou a escrever para ele aos 13 anos e depois se tornou correspondente no Brasil.
  • Fiorano: pista de testes privada da Ferrari, localizada em Maranello, na Itália. Foi lá que Carsughi testou a Testarossa em 1992, durante sua primeira visita à fábrica da marca italiana.

Claudio Carsughi deixa um legado de mais de sete décadas de jornalismo técnico, independente e apaixonado. A Mecânica Online® presta sua homenagem ao Mestre e segue comprometida com a seriedade que ele sempre nos ensinou.

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