A próxima barreira da eletrificação pesada não está simplesmente em colocar mais bateria no caminhão. Para enfrentar rotas longas, é necessário encontrar espaço para armazenar energia sem comprometer reboque, capacidade de manobra, carga útil e tempo de recarga. A Scania agora reorganiza o próprio veículo para atacar exatamente esse equilíbrio.
A Scania desenvolveu uma configuração de caminhão elétrico capaz de alcançar até 720 quilômetros de autonomia, dependendo da especificação e das condições de operação.
A solução foi pensada para transporte de longa distância e combina baterias adicionais instaladas atrás da cabine, conjuntos montados no chassi e compatibilidade com o Megawatt Charging System, o MCS.
O objetivo é ampliar a quantidade de energia disponível sem depender exclusivamente do espaço tradicionalmente utilizado pelas baterias ao longo do chassi.
Em uma configuração típica, podem ser instalados dois conjuntos de baterias MP20 atrás da cabine, acrescentando aproximadamente 356 kWh de capacidade instalada.
Essas baterias trabalham em conjunto com os demais módulos posicionados no veículo.
Mais do que aumentar o alcance, a arquitetura pretende oferecer aos transportadores uma possibilidade maior de escolher quanto espaço e massa serão destinados às baterias e quanto deverá permanecer disponível para a operação de carga.
Esse equilíbrio é um dos principais desafios dos caminhões elétricos.
Uma bateria maior normalmente permite armazenar mais energia, mas também acrescenta massa ao veículo.
Em um caminhão de transporte comercial, isso pode interferir diretamente na carga útil disponível e, consequentemente, na produtividade da operação.
A proposta da Scania passa justamente por distribuir essa capacidade energética em diferentes regiões do caminhão.
Parte das baterias permanece instalada no chassi e sob a cabine, enquanto os conjuntos adicionais ocupam uma área localizada atrás dela.
Essa configuração trabalha em conjunto com a nova dianteira IVD, sigla para Increased Vehicle Dimension.
Com essa arquitetura, a Scania consegue desenvolver determinadas configurações 6x2x4 compatíveis com combinações europeias de semirreboques mesmo quando o comprimento total do conjunto ultrapassa 16,5 metros.
O objetivo é preservar compatibilidade prática com reboques e capacidade de manobra, apesar da ampliação da área ocupada pelo sistema de armazenamento de energia.
A mudança de dimensões não serve apenas para acomodar baterias.
Segundo a Scania, a nova dianteira também pode reduzir o consumo de energia em até 3%, dependendo da configuração do caminhão e da operação.
A aerodinâmica assume importância particularmente elevada em um caminhão elétrico de longa distância.
Em velocidades rodoviárias, uma parcela relevante da energia é utilizada para vencer a resistência do ar.
Reduzir essa resistência significa exigir menos energia dos motores para manter determinada velocidade, contribuindo diretamente para ampliar a distância percorrida com a energia disponível.
Isso também explica por que um ganho aparentemente pequeno de alguns pontos percentuais pode ser relevante em operações que acumulam grandes quilometragens.
A autonomia máxima de 720 quilômetros não deve, entretanto, ser interpretada como uma distância fixa para todas as situações.
A própria configuração escolhida, carga transportada e condições de operação interferem no resultado.
Em um caminhão elétrico pesado, fatores como velocidade, topografia, temperatura, vento e massa total podem alterar o consumo energético ao longo da rota.
A Scania também associa a nova solução ao carregamento MCS.
O sistema foi desenvolvido para transferir potências muito superiores às normalmente encontradas na recarga convencional de automóveis elétricos.
Isso é particularmente importante quando o veículo utiliza baterias de grande capacidade.
Não basta conseguir armazenar energia suficiente para percorrer centenas de quilômetros. É necessário recuperar essa energia em um período compatível com as paradas previstas pela operação de transporte.
Essa é uma das principais razões para o desenvolvimento do Megawatt Charging System.
Para uma transportadora, uma recarga longa demais pode significar horas de indisponibilidade e comprometer o planejamento do veículo.
Com potência elevada, o objetivo é aproximar a parada para recarga dos próprios intervalos existentes na jornada logística e na rotina do motorista.
Isso transforma a discussão.
Em vez de perguntar apenas quanto tempo uma bateria demora para carregar, passa a ser necessário analisar quanto tempo o caminhão já ficaria parado naquela rota e quanta energia pode ser recuperada dentro desse intervalo.
A configuração 6x2x4 também mostra como a eletrificação não elimina as exigências tradicionais da engenharia de veículos pesados.
Distribuição de massa, posicionamento dos eixos, capacidade de esterçamento, carga sobre cada eixo e compatibilidade com o semirreboque continuam sendo aspectos fundamentais.
No caso de um conjunto com baterias adicionais atrás da cabine, a distribuição de peso passa a fazer parte diretamente da estratégia energética.
Por isso, aumentar autonomia não pode ser analisado isoladamente.
Mais energia armazenada pode permitir viagens maiores entre recargas, mas o veículo precisa continuar atendendo às necessidades de manobra, carga e legislação aplicáveis à operação.
A Scania apresenta justamente essa abordagem como uma solução integrada.
Autonomia, bateria, aerodinâmica, dimensões, configuração de eixos e recarga são tratados como partes do mesmo problema operacional.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Os 720 quilômetros chamam atenção, mas o aspecto tecnicamente mais interessante está na forma como a Scania procura chegar a esse número. A engenharia está começando a tratar a autonomia dos caminhões elétricos como um problema de arquitetura do veículo inteiro, e não somente de capacidade da bateria.
Instalar cerca de 356 kWh adicionais atrás da cabine demonstra isso claramente. Existe energia adicional disponível, mas ela precisa ocupar algum lugar e adicionar massa ao conjunto. A pergunta correta, portanto, não é somente quantos quilômetros o caminhão poderá percorrer, mas quanto dessa autonomia adicional compensa a massa e o espaço necessários para obtê-la.
A nova dianteira também participa dessa equação. Em trajetos rodoviários, aerodinâmica pode representar uma parcela relevante do consumo. Se uma alteração física permitir reduzir em até 3% a energia necessária em determinadas operações, esse ganho se acumula durante centenas de quilômetros e reduz a energia que precisa sair das baterias.
Depois vem a infraestrutura. Um caminhão capaz de percorrer 700 quilômetros pode continuar sendo pouco produtivo se precisar permanecer muitas horas parado para recuperar energia. É por isso que bateria maior e MCS precisam evoluir juntas.
Também existe uma diferença importante entre autonomia máxima e autonomia operacional. Empresas de transporte precisarão trabalhar com margens, considerando relevo, clima, carga, disponibilidade dos carregadores e possíveis desvios. Planejar um caminhão elétrico de longa distância significa planejar energia com a mesma importância que hoje se planejam combustível, rota e jornada.
A solução da Scania mostra uma tendência que deverá ficar cada vez mais clara: o caminhão elétrico de longa distância não será definido apenas por uma bateria gigantesca. O melhor projeto será aquele que conseguir equilibrar energia armazenada, carga útil, aerodinâmica, dimensões e tempo de recarga para uma missão específica.
Compreender essa relação será decisivo para avaliar quando a eletrificação consegue realmente substituir o diesel em rotas longas. Siga @tarcisiomecanicaonline para acompanhar conteúdos sobre caminhões elétricos, baterias, recarga MCS e as tecnologias que estão transformando o transporte pesado.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- Até 720 km – É a autonomia máxima indicada para determinadas configurações e condições de operação.
- Mais bateria atrás da cabine – Dois conjuntos MP20 podem acrescentar aproximadamente 356 kWh de capacidade instalada.
- MCS para longas distâncias – O carregamento em megawatts busca reduzir o tempo necessário para recuperar grandes quantidades de energia.
- Aerodinâmica ajuda – A nova dianteira pode reduzir o consumo energético em até 3%, dependendo da especificação e da utilização.
- Configuração 6x2x4 – A arquitetura foi pensada para manter compatibilidade com determinadas combinações europeias de semirreboques.
- Autonomia não é tudo – Carga útil, dimensões, massa das baterias e estratégia de recarga continuam determinantes para a produtividade.
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MP20 – Conjunto de baterias utilizado pela Scania que pode ser instalado atrás da cabine para ampliar a quantidade de energia armazenada no caminhão.
MCS – Sistema de carregamento de alta potência desenvolvido para transferir grandes quantidades de energia para veículos comerciais pesados em períodos menores.
Configuração 6x2x4 – Arranjo de três eixos no qual seis posições de roda são consideradas, duas recebem tração e quatro participam da direção conforme a configuração do veículo.
Resistência aerodinâmica – Força exercida pelo ar contra o movimento do caminhão. Quanto maior a velocidade e a área frontal, maior pode ser a energia necessária para manter o veículo em deslocamento.


