A transformação dos veículos comerciais começa a ir além da troca do motor a combustão por baterias. Na IAA Transportation, a Stellantis Pro One mostra uma estratégia na qual o veículo passa a ser apenas uma parte de um ecossistema que combina conectividade, inteligência artificial, manutenção, conversões profissionais e até soluções autônomas para logística urbana.
A Stellantis Pro One apresenta em Hannover uma ofensiva voltada à mobilidade profissional que reúne 13 veículos em uma área de aproximadamente 1.000 m², além de demonstrações externas e soluções digitais destinadas à gestão de frotas.
A proposta é ampliar a atuação para além da venda de vans e comerciais leves.
O grupo estrutura sua estratégia sobre cinco pilares: dados e conectividade, Pro One NEXT, serviços integrados, CustomFit e uma rede global de distribuidores profissionais.
Na prática, isso significa transformar o veículo comercial em um equipamento conectado que pode ser monitorado, personalizado e administrado ao longo de toda a operação.
Um dos principais elementos dessa estratégia é o Stellantis Pro One NEXT, sistema desenvolvido para acompanhar disponibilidade e utilização das frotas.
A plataforma permite monitorar em tempo real aproximadamente 800 mil veículos conectados, com o objetivo de identificar necessidades de intervenção e administrar casos de maneira proativa.
Os primeiros centros de comando NEXT já operam no Reino Unido e nos Estados Unidos, enquanto a Stellantis prepara expansão para outros mercados europeus.
A ideia é bastante clara: tentar reduzir o período em que um veículo comercial permanece parado.
Para uma empresa de transporte ou serviços, disponibilidade muitas vezes é mais importante do que simplesmente possuir o veículo.
Uma van imobilizada para manutenção não produz receita, não realiza entregas e pode obrigar a empresa a utilizar outro veículo para cumprir o serviço.
Por isso, conectividade e manutenção começam a ser utilizadas para buscar maior previsibilidade das intervenções e menor tempo de indisponibilidade.
A Stellantis também apresenta três novidades com abordagens bastante diferentes.
A primeira é uma nova Smart Compact Van, desenvolvida para o segmento de comerciais compactos.
A plataforma será oferecida pelas diferentes marcas do grupo como Citroën Berlingo Van First, Fiat Doblò EasyPro, Opel Combo Start e Peugeot Partner Active.
A proposta é oferecer um veículo essencialmente profissional, priorizando funcionalidade, modularidade e custo de operação.
O interior foi redesenhado com diferentes soluções para aproveitar melhor o espaço.
Entre elas está o Flexiseat, banco do passageiro modular e rebatível que pode acrescentar até 0,5 m³ ao volume disponível para carga.
A opção Modulable permite transformar parte do interior em uma espécie de escritório móvel.
Já o Moduwork oferece três configurações para a região dos passageiros: dois bancos, um banco acompanhado por mesa deslizante ou um banco combinado com espaço para transportar objetos de até 3,4 metros de comprimento.
Há ainda a Drive Drawer, que cria área de armazenamento sob o banco do motorista, além da Dashbox e da Moduconsole.
O objetivo é adaptar uma mesma cabine a profissionais que transportam ferramentas, documentos, equipamentos e peças ao longo do dia.
A nova van compacta também terá diferentes sistemas de propulsão.
Está previsto um novo conjunto totalmente elétrico com autonomia de até 270 quilômetros, além de três motores a combustão — dois diesel e um a gasolina.
Um sistema híbrido leve também deverá integrar a gama posteriormente.
A segunda novidade vai para uma escala muito menor.
O Fiat TRIS é um veículo elétrico de três rodas destinado principalmente às operações urbanas de última milha.
Sua proposta não é substituir uma van tradicional em todas as utilizações.
O TRIS procura atender operações nas quais baixo custo, dimensões reduzidas, facilidade de estacionamento e alta frequência de pequenas entregas são mais importantes do que elevada velocidade ou grande autonomia.
O veículo utiliza uma bateria de 6,9 kWh e pode percorrer até 90 quilômetros por carga.
A recarga pode ser realizada utilizando uma tomada doméstica convencional de 220 V.
Apesar das dimensões compactas, a capacidade de carga útil supera 500 kg, e a plataforma permite transportar até duas europaletes.
O raio de giro é de apenas 3,05 metros.
Essas características mostram claramente sua vocação.
Em centros urbanos densos, mercados, condomínios, áreas industriais ou operações de entrega local, capacidade de manobra e facilidade de acesso podem ser mais importantes do que autonomia rodoviária.
A família TRIS inclui configurações Pick-Up, Cargo, Chassis-Cabin e Platform, ampliando as possibilidades de aplicação profissional.
Em Hannover, a Fiat também apresenta uma nova configuração com portas, desenvolvida a partir de sugestões de clientes.
A mudança melhora proteção contra chuva e vento, segurança da carga e conforto do motorista.
A terceira estreia rompe ainda mais com o conceito tradicional de veículo comercial.
O BOW., de Box on Wheels, é um conceito de logística totalmente elétrico e autônomo desenvolvido em parceria com a UQI Robotics.
A proposta combina eletrificação, inteligência artificial, robótica, conectividade e condução autônoma.
O BOW. foi pensado para operações em centros urbanos e também em ambientes controlados como fábricas, hospitais e aeroportos.
Nesses locais, rotas podem ser repetitivas, velocidades relativamente baixas e fluxos logísticos previsíveis, criando condições potencialmente mais favoráveis à automatização.
O objetivo do conceito não é apenas mostrar um veículo sem motorista.
A proposta é estudar como uma plataforma autônoma pode se transformar em parte de uma operação logística digital, conectando planejamento, movimentação de cargas e serviços.
Um protótipo é demonstrado dinamicamente fora do estande da Stellantis Pro One.
Outro eixo importante da estratégia está no CustomFit.
O programa permite solicitar veículos já convertidos ou preparados para determinadas aplicações diretamente pela rede das marcas.
As modificações podem ser realizadas na própria fábrica ou em colaboração com uma rede de mais de 650 parceiros certificados.
A vantagem é reduzir a quantidade de etapas entre compra, transformação e entrada em operação.
Entre os exemplos apresentados está o eDucato Fridge, equipado com uma nova tomada de força elétrica de alta tensão, ou ePTO, operando em 400 V.
O sistema permite alimentar diretamente equipamentos de refrigeração utilizados na cadeia fria.
Em uma van elétrica refrigerada, essa integração é particularmente importante.
O sistema de refrigeração também consome energia e precisa funcionar durante a operação de transporte.
Ao utilizar a própria arquitetura elétrica de alta tensão do veículo, torna-se possível eliminar determinados equipamentos auxiliares e simplificar a cadeia energética.
Outro exemplo é o Peugeot Partner Pro-Skill 4×4, versão elétrica equipada com sistema de tração nas quatro rodas desenvolvido pela Dangel e preparada para utilização em canteiros de obras.
O veículo combina equipamentos como Moduwork, sistema de visão HD Dynamic Surround Vision e central multimídia de 10 polegadas.
A Opel também apresenta o Vivaro Dropside, destinado a operações que precisam combinar dimensões relativamente compactas com uma carroceria aberta.
A configuração pode transportar até quatro europaletes e foi pensada para aplicações de manutenção, paisagismo, serviços municipais e construção.
A Stellantis Pro One também prepara uma nova estratégia de versões para suas vans compactas.
Os modelos poderão ser oferecidos em diferentes níveis de acabamento, indo de uma configuração Smart, orientada a custo-benefício, até versões intermediárias, superiores e séries especiais.
A estratégia procura atender desde grandes frotas que priorizam simplicidade até profissionais que exigem equipamentos específicos ou maior personalização.
A fabricante informa ter comercializado 1,65 milhão de veículos comerciais e picapes em 2025, correspondendo a aproximadamente 15% do mercado global.
O planejamento apresentado prevê ainda 11 novos modelos nos próximos cinco anos.
Mais importante do que a quantidade de veículos expostos em Hannover, entretanto, é a mudança na definição do negócio.
A Stellantis Pro One procura se posicionar não apenas como fabricante de veículos comerciais, mas como fornecedora de soluções para a operação profissional, combinando automóveis, serviços, dados, infraestrutura e personalização.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – A apresentação da Stellantis Pro One mostra uma mudança importante na indústria de veículos comerciais. O produto principal continua sendo o veículo, mas a competitividade começa a depender cada vez mais do que acontece antes, durante e depois da compra.
Um comercial leve pode passar anos realizando entregas, manutenção técnica ou serviços urbanos. Nesse período, custo de manutenção, disponibilidade, facilidade de conversão e organização da frota podem representar mais dinheiro do que algumas diferenças encontradas na ficha técnica.
É por isso que soluções como o NEXT merecem atenção. A conectividade permite transformar determinados dados do veículo em ferramentas de operação. Saber antecipadamente que um componente precisa de manutenção pode ser mais valioso para uma empresa do que descobrir a falha quando o veículo já está imobilizado.
O CustomFit segue a mesma lógica. Uma van profissional dificilmente permanece exatamente como saiu da fábrica. Ela pode receber prateleiras, isolamento térmico, equipamentos de refrigeração, plataformas ou ferramentas. Integrar essas modificações ao processo de compra pode reduzir tempo de preparação e riscos de incompatibilidade.
O Fiat TRIS e o BOW. mostram outra tendência: nem toda operação profissional precisa de uma van convencional. Para algumas rotas, um veículo muito pequeno ou até uma plataforma autônoma pode realizar o serviço com menor consumo de energia e ocupando menos espaço urbano.
Mas autonomia continua exigindo cautela. O BOW. é apresentado como conceito e demonstração tecnológica. Sua aplicação em larga escala dependerá de segurança, legislação, integração com pedestres e outros veículos, infraestrutura digital e responsabilidade operacional.
No final, a transformação do veículo comercial parece seguir uma direção bastante clara: menos foco em um único produto e mais atenção ao sistema completo que mantém a operação funcionando.
A tecnologia profissional precisa ser analisada pela produtividade que consegue entregar no mundo real. Siga @tarcisiomecanicaonline para acompanhar conteúdos sobre vans, eletrificação, conectividade, logística e as novas tecnologias aplicadas aos veículos comerciais.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- 800 mil veículos conectados – O Pro One NEXT foi desenvolvido para monitoramento e gerenciamento proativo de frotas dentro do ecossistema Stellantis.
- Quatro marcas na mesma arquitetura – A nova Smart Compact Van será oferecida como Citroën Berlingo Van First, Fiat Doblò EasyPro, Opel Combo Start e Peugeot Partner Active.
- Até 270 km elétricos – A nova van compacta terá uma versão BEV acompanhada por opções a combustão e, posteriormente, híbrida leve.
- TRIS leva mais de 500 kg – O pequeno elétrico de três rodas utiliza bateria de 6,9 kWh e oferece autonomia de até 90 km.
- BOW. aposta na autonomia – O conceito elétrico desenvolvido com a UQI Robotics explora operações logísticas sem motorista em cidades e ambientes controlados.
- CustomFit integra conversões – A Stellantis trabalha com mais de 650 parceiros certificados e também realiza determinadas transformações diretamente em fábrica.
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ePTO – Tomada de força elétrica que utiliza o sistema de alta tensão do veículo para alimentar equipamentos auxiliares, como unidades de refrigeração, sem depender de um motor separado.
Última milha – Etapa final da entrega, normalmente realizada entre um centro de distribuição e o destinatário. É uma das partes mais complexas e caras da logística urbana.
Uptime – Tempo no qual o veículo permanece disponível para trabalhar, sem estar parado por manutenção, falhas ou reparos.
Conversão profissional – Modificação realizada em um veículo comercial para adaptá-lo a uma função específica, como refrigeração, oficina móvel, transporte de equipamentos ou utilização em obras.

