O mercado brasileiro de veículos surpreendeu novamente e obrigou a Anfavea a revisar suas projeções para cima. O País pode encerrar 2026 com 3,1 milhões de emplacamentos, mas existe um desequilíbrio por trás dessa recuperação: as vendas crescem muito mais que a produção nacional plena, as importações avançam 30,4% e os embarques ao exterior continuam em forte retração.
A Anfavea elevou novamente suas projeções para vendas e produção de veículos no Brasil em 2026, depois de um terceiro trimestre mais forte que o previsto.
A entidade agora espera 3,1 milhões de autoveículos emplacados até dezembro, volume que representaria crescimento de 15,2% sobre 2025 e recolocaria o mercado brasileiro em um patamar não alcançado desde 2014.
A revisão é expressiva.
No início do ano, a expectativa era de crescimento de apenas 2,7%. Depois do primeiro semestre, a associação já havia elevado a estimativa diante da aceleração do mercado. Agora, com os resultados do terceiro trimestre, a projeção foi ampliada novamente.
O movimento mostra que a demanda interna conseguiu superar expectativas mesmo em um ambiente ainda marcado por juros elevados e custo de crédito relevante.
Setembro teve maior volume desde dezembro de 2014
A mudança de cenário ficou evidente em setembro.
Foram 281,4 mil autoveículos emplacados, o maior volume mensal registrado no Brasil desde dezembro de 2014.
O resultado reforçou a trajetória de recuperação iniciada nos meses anteriores e teve como principal motor o segmento de automóveis e comerciais leves.
Para essa categoria, a Anfavea agora projeta crescimento de 16,4% em 2026.
Na direção oposta aparecem os veículos pesados.
Caminhões e ônibus ainda enfrentam um ambiente muito mais difícil, e a previsão é de que encerrem o ano com retração conjunta de 6,5%.
Portanto, o crescimento do mercado não está distribuído igualmente entre todos os segmentos.
Produção sobe, mas bem menos que as vendas
A Anfavea também revisou para cima a previsão de produção nacional.
A expectativa agora é de crescimento de 6,7% diante de 2025, superando 2,8 milhões de autoveículos fabricados ou montados no País.
Caso confirmado, será o melhor resultado desde 2019.
Ainda assim, existe uma diferença expressiva entre os dois lados do mercado.
Enquanto as vendas podem crescer 15,2%, a produção avançaria apenas 6,7%.
Esse descompasso mostra que uma parcela cada vez maior da expansão da demanda brasileira está sendo atendida por veículos importados ou operações industriais com menor conteúdo local.
É esse o principal alerta por trás dos números positivos.
Produção de setembro foi a melhor para o mês desde 2014
Em setembro, as fábricas brasileiras produziram 268,3 mil autoveículos, melhor resultado para o mês desde 2014.
No acumulado de janeiro a setembro, foram 2,166 milhões de unidades, crescimento de 8,7% diante dos nove primeiros meses de 2025.
À primeira vista, a expansão parece robusta.
Mas a composição desse crescimento revela outra realidade.
O País produziu 173 mil veículos adicionais em relação ao mesmo período do ano passado.
Desse total, apenas cerca de 50 mil unidades vieram da produção local plena.
As outras 123 mil foram associadas à montagem CKD e SKD.
Em outras palavras, aproximadamente 71% do crescimento absoluto da produção veio de veículos montados a partir de conjuntos importados.
CKD e SKD mudam a leitura dos números industriais
É justamente nesse ponto que o dado de produção exige uma análise mais cuidadosa.
Veículos CKD e SKD entram nas estatísticas de produção nacional porque passam por montagem no País.
Mas seu impacto sobre a cadeia produtiva pode ser bastante diferente daquele de um automóvel fabricado com maior participação de componentes nacionais.
No CKD, o veículo chega desmontado em um número maior de componentes e necessita de uma etapa de montagem mais extensa.
No SKD, conjuntos maiores já chegam parcialmente montados, reduzindo a quantidade de processos realizados localmente.
Quanto menor o conteúdo nacional, menor tende a ser a demanda sobre fabricantes brasileiros de autopeças e algumas etapas industriais.
Por isso, duas fábricas podem contabilizar o mesmo número de unidades produzidas, mas gerar níveis muito diferentes de valor agregado local, emprego e compras de fornecedores brasileiros.
123 mil unidades equivalem a uma fábrica de grande porte
A dimensão desses 123 mil veículos montados em CKD e SKD também merece atenção.
Segundo a própria Anfavea, esse volume supera a produção anual de 60% das fábricas de veículos leves instaladas no Brasil.
Ou seja, não se trata de um fenômeno marginal.
A montagem de kits importados já se tornou suficientemente grande para alterar de forma significativa os números da indústria nacional.
É justamente por isso que a associação tem insistido na necessidade de diferenciar aumento de produção de aumento efetivo de industrialização nacional.
Eletrificados explicam 69% do crescimento do mercado
Outro fator decisivo para a expansão das vendas está na eletrificação.
Até setembro, os veículos eletrificados responderam por 69% de todo o crescimento dos emplacamentos de veículos leves em 2026.
Eles já representam 20,1% dos registros de veículos leves zero quilômetro.
É uma participação muito significativa para uma categoria que até poucos anos atrás ocupava um nicho reduzido do mercado brasileiro.
O crescimento foi especialmente intenso entre os elétricos puros, cujas vendas triplicaram no período.
Isso ajuda a explicar simultaneamente dois movimentos: o avanço do mercado interno e o crescimento das importações.
Grande parte dos novos elétricos comercializados no País ainda chega de fábricas estrangeiras, especialmente chinesas.
Carro Sustentável também impulsiona modelos de entrada
O crescimento não está restrito aos eletrificados.
O programa Carro Sustentável também exerceu papel importante na recuperação do mercado de entrada.
Dos aproximadamente 350 mil automóveis adicionais vendidos em 2026, segundo o balanço apresentado pela entidade, 84 mil unidades estão relacionadas aos modelos favorecidos pelo programa.
Isso ajudou a reaquecer uma faixa de mercado que vinha sofrendo com o aumento dos preços dos automóveis novos.
A combinação entre incentivos para carros de entrada e forte expansão dos eletrificados explica boa parte do salto observado nas vendas de automóveis.
Automóveis avançam 22,5%
O segmento de automóveis é justamente o grande responsável pelo desempenho do mercado em 2026.
As vendas acumuladas cresceram 22,5%.
É um ritmo muito superior ao observado em outros segmentos e mostra como a recuperação está concentrada nos veículos leves.
Comerciais leves também ajudam, especialmente com a força do mercado de picapes.
Já caminhões e ônibus seguem com resultados negativos.
Essa diferença mostra que falar em “mercado automotivo aquecido” exige cuidado: algumas áreas vivem forte expansão, enquanto outras permanecem em processo de recuperação.
Caminhões ainda recuam 3,8%
Nos primeiros nove meses do ano, os emplacamentos de caminhões caíram 3,8%.
A produção recuou ainda mais: 6,4%.
O cenário reflete fatores como juros, custo de financiamento, desempenho de setores compradores e ciclos de renovação de frota.
A Anfavea aponta a segunda etapa do Move Brasil como elemento que pode ajudar a recuperação, mas os números ainda permanecem abaixo dos registrados em 2025.
Ônibus caem tanto em vendas quanto na produção
A situação dos ônibus também continua negativa.
Os emplacamentos recuaram 4,4% no acumulado, enquanto a produção apresentou queda de 11,2%.
O segmento costuma depender fortemente de renovações de frota, compras públicas, concessões de transporte e acesso a linhas específicas de financiamento.
Por isso, sua dinâmica pode ser bastante diferente daquela observada nos automóveis de passeio.
Exportações viram o principal ponto negativo
Se o mercado interno surpreende positivamente, as exportações caminham na direção oposta.
A Anfavea agora projeta que o Brasil encerrará 2026 com queda de 17,7% nos embarques ao exterior.
É uma revisão ainda mais negativa que a realizada anteriormente.
No começo do ano, o cenário era bastante diferente: havia expectativa de manutenção ou até crescimento dos volumes externos.
A deterioração veio principalmente da Argentina, tradicionalmente o maior destino dos veículos brasileiros.
Exportações estão abaixo de 40 mil há seis meses
O problema também mostra persistência.
As exportações brasileiras permanecem há seis meses consecutivos abaixo de 40 mil unidades mensais.
Entre janeiro e setembro, foram embarcados aproximadamente 334 mil veículos, queda de 23% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A magnitude da redução ajuda a explicar por que a produção nacional não acompanha o ritmo das vendas internas.
O mercado brasileiro cresce, mas uma parte importante da capacidade que poderia ser direcionada às exportações perdeu demanda.
Argentina explica perda de quase 100 mil unidades
A redução para a Argentina foi particularmente severa.
Os embarques ao país vizinho diminuíram em quase 100 mil unidades no acumulado do ano.
Dois fatores aparecem por trás desse movimento.
O primeiro é a própria retração do mercado argentino.
O segundo é o ganho de participação de veículos produzidos na China e no México, que passaram a competir de maneira mais intensa em mercados tradicionalmente abastecidos pelas fábricas brasileiras.
Isso mostra que a indústria nacional enfrenta uma transformação competitiva não apenas dentro do Brasil, mas também em seus principais destinos de exportação.
China ganha espaço nos mercados sul-americanos
A presença chinesa na América do Sul está alterando fluxos comerciais históricos.
Durante décadas, fabricantes instalados no Brasil utilizaram o País como uma importante base regional de produção e exportação.
Com a entrada crescente de veículos chineses diretamente em mercados como Argentina, Chile, Colômbia e outros países da região, esse modelo começa a sofrer pressão.
Os novos concorrentes combinam escala industrial, eletrificação avançada e preços competitivos.
A consequência é uma disputa não apenas por consumidores brasileiros, mas também pelos mercados que sustentavam parte das exportações nacionais.
Importações crescem 30,4%
Ao mesmo tempo em que o Brasil exporta menos, está importando muito mais.
Em 2026, já entraram no País 463,9 mil autoveículos, crescimento de 30,4%.
O número se aproxima rapidamente do total de importações registrado durante todo o ano anterior.
Mais importante é a origem desses veículos.
A China responde por 55% de tudo o que foi importado em 2026.
Isso equivale a aproximadamente 255 mil unidades.
O avanço chinês deixou, portanto, de ser um fenômeno limitado a algumas marcas ou nichos.
Chineses já têm 11,3% do mercado brasileiro
Os veículos de origem chinesa já representam 11,3% do mercado nacional, segundo os dados apresentados pela Anfavea.
Há poucos anos, essa participação era residual.
O avanço está diretamente associado a fabricantes como BYD, GWM, OMODA & JAECOO, GAC, Geely e outras marcas que ampliaram rapidamente portfólio, rede e presença comercial.
Grande parte dessa ofensiva também está concentrada justamente nos veículos eletrificados, segmento que mais cresce no País.
O resultado é uma relação direta entre eletrificação, aumento das importações e mudança da estrutura industrial brasileira.
Balança comercial passa ao déficit
A combinação entre exportações em queda e importações crescendo acima de 30% trouxe outra consequência: a balança comercial automotiva passou a apresentar déficit expressivo.
Historicamente, a indústria automobilística brasileira teve períodos importantes de superávit graças às exportações regionais.
Em 2026, o fluxo mudou.
Mais veículos entram no País ao mesmo tempo em que menos automóveis brasileiros deixam as fábricas com destino ao exterior.
Esse desequilíbrio torna-se ainda mais sensível porque parte das importações corresponde a modelos montados posteriormente em CKD ou SKD no território nacional.
Produzir mais não significa necessariamente nacionalizar mais
Essa é provavelmente a principal contradição dos números divulgados pela Anfavea.
O Brasil caminha para produzir mais de 2,8 milhões de veículos, melhor resultado desde 2019.
Mas o conteúdo efetivamente produzido pela cadeia nacional não necessariamente cresce no mesmo ritmo.
Se grande parte da expansão vem da montagem de componentes trazidos do exterior, especialmente conjuntos completos de motorização, baterias, carrocerias e outros sistemas, o impacto sobre fornecedores locais fica limitado.
Por isso, a discussão começa a migrar de quantos veículos são produzidos para quanto valor é efetivamente produzido no Brasil.
Mercado pode voltar a 3 milhões depois de 12 anos
Apesar dos desafios industriais, o resultado comercial continua sendo extremamente relevante.
Se a previsão de 3,1 milhões de emplacamentos se confirmar, o mercado brasileiro voltará a superar a barreira de 3 milhões de unidades após mais de uma década.
A última vez em que esse nível foi atingido foi em 2014.
Isso reforça o tamanho da recuperação depois dos anos de retração, pandemia, problemas de abastecimento e juros elevados.
A questão passa a ser quanto desse mercado será abastecido por fábricas brasileiras e quanto ficará com veículos importados ou operações de menor conteúdo local.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – A previsão de 3,1 milhões de veículos é excelente para o mercado brasileiro, mas seria um erro analisar esse resultado apenas pelo número de emplacamentos. A verdadeira discussão está em quanto desse crescimento consegue permanecer dentro da cadeia industrial nacional.
O dado mais revelador é este: das 173 mil unidades adicionais produzidas em 2026, apenas 50 mil vieram da produção local plena, enquanto 123 mil saíram de operações CKD e SKD. Isso significa que aproximadamente sete em cada dez unidades responsáveis pelo crescimento industrial tiveram maior dependência de componentes importados.
CKD e SKD não são necessariamente negativos. Eles podem funcionar como porta de entrada para novas fabricantes, permitir desenvolvimento gradual de fornecedores e reduzir inicialmente a complexidade industrial. O problema aparece quando essa etapa se torna permanente e substitui uma nacionalização mais profunda.
A eletrificação torna essa questão ainda mais importante. Os eletrificados já respondem por 20,1% das vendas de veículos leves e por 69% do crescimento do mercado, mas boa parte dessa tecnologia ainda chega pronta do exterior. Baterias, motores elétricos, inversores e componentes eletrônicos representam uma parcela crescente do valor de um veículo moderno.
Ao mesmo tempo, a queda de 23% nas exportações até setembro mostra que o Brasil está perdendo espaço justamente nos mercados que historicamente davam escala adicional às fábricas nacionais. Menor exportação significa menor diluição de custos e pode reduzir competitividade industrial no longo prazo.
A entrada de 463,9 mil importados, dos quais 55% vieram da China, completa essa transformação. O consumidor brasileiro está se beneficiando de maior variedade, tecnologia e competição, mas a indústria instalada precisa responder com produtividade, nacionalização tecnológica e capacidade exportadora.
O Brasil está voltando a ser um grande mercado consumidor. O próximo desafio é garantir que volte também a ser um grande produtor competitivo, com maior valor agregado local, e não apenas um destino crescente para veículos e kits fabricados no exterior.
Para acompanhar as vendas, a produção e as transformações da indústria automotiva brasileira, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
3,1 milhões: nova projeção de emplacamentos para 2026, alta de 15,2% sobre o ano passado.
2,8 milhões: produção nacional projetada, com crescimento estimado em 6,7%.
281,4 mil: emplacamentos de setembro, maior volume mensal desde dezembro de 2014.
123 mil CKD/SKD: parcela do crescimento de produção gerada pela montagem de conjuntos importados.
-17,7% nas exportações: nova previsão para o fechamento de 2026.
55% chineses: participação da China nos 463,9 mil veículos importados pelo Brasil até setembro.
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SKD: veículo que chega ao País parcialmente montado, exigindo menos etapas industriais locais para ser finalizado.
CKD: conjunto mais desmontado que o SKD, exigindo maior quantidade de operações de montagem no País, embora ainda dependa fortemente de componentes importados.
Conteúdo local: parcela de peças, mão de obra, engenharia e processos industriais realizados dentro do Brasil.
Balança comercial automotiva: diferença entre o valor ou volume de veículos e componentes exportados e importados pelo País.

