A Waymo iniciou serviços públicos de transporte autônomo em Denver, San Diego e Tampa em 1º de setembro, expandindo sua presença nos EUA para 14 cidades. Denver e San Diego estrearam com o Ojai, construído pela Zeekr, como plataforma exclusiva de veículo — um papel cada vez maior para o robotáxi mais novo da Waymo, à medida que a empresa se desfaz da frota de Jaguar I-Pace.
Por trás dessa expansão está uma história pouco comum: um robotáxi que nasce na China, atravessa o oceano incompleto de propósito e só se torna, de fato, um carro autônomo depois de meses de integração em solo americano — tudo isso em meio a tarifas de importação que ultrapassam 100% do valor do veículo.
O Ojai, identificado internamente como Zeekr CM1e (e antes associado à designação Zeekr RT), é fabricado em Ningbo, na China, e enviado aos Estados Unidos para integração do sistema autônomo em Mesa, no Arizona. A Zeekr fornece a plataforma do veículo; a Waymo entra com o sistema de direção autônoma, o hardware de computação e os sensores. A Magna participa da integração final.
Em Denver, o Ojai enfrenta um ambiente novo: clima frio e alta altitude. O veículo usa a arquitetura SEA-M, da Geely, com sistemas redundantes de direção e frenagem eletrônicos. O motor síncrono de ímã permanente traseiro entrega 200 kW (268 cv) e 342 N·m de torque, com bateria de capacidade bruta de 93 kWh.
O pacote de sensores de sexta geração da Waymo usa quatro unidades LiDAR, seis radares e 13 câmeras externas de 17 megapixels — bem menos que as 29 câmeras e cinco LiDARs da quinta geração, usada no Jaguar I-Pace. Carcaças aquecidas e dez limpadores em miniatura (cada um com menos de 76 mm) mantêm as superfícies dos sensores livres de neve, lama e gelo.
O Ojai mede 4.640 mm de comprimento, com entre-eixos de 3.000 mm, e usa portas deslizantes opostas ao redor de uma abertura sem coluna B. A cabine 2+3 oferece quatro posições utilizáveis para passageiros — o banco do motorista não fica disponível para uso.
Até o final de agosto, mais de 3.200 chassis CM1e haviam desembarcado no Porto de Los Angeles, com mais de 2.600 chegando só nos primeiros oito meses de 2026, segundo registros alfandegários. Cerca de 300 veículos já circulam transportando passageiros comercialmente pelo país. Denver e San Diego começaram com disponibilidade limitada, com expansão gradual prevista. Outras cerca de 2.900 unidades seguem em fase de integração, calibração ou reserva na região de Mesa.
A expansão acontece em meio ao crescimento geral da Waymo: a empresa já ultrapassou 500 mil viagens semanais com veículos totalmente autônomos e mira 1 milhão até o fim de 2026. A frota comercial total nos EUA, somando I-Pace e Ojai, já passa de 4.000 veículos.
O processo de produção do Ojai separa deliberadamente a plataforma do veículo do sistema autônomo — a engenharia se estende às operações de desenvolvimento da Zeekr na Suécia. A Zeekr fabrica o CM1e em Ningbo e o envia sem computação autônoma, sensores externos, telemática e outros sistemas conectados, instalados só depois nos EUA. A alfândega trata o veículo importado como um “planador” mecânico incompleto.
Esse detalhe importa para o bolso: declarações alfandegárias indicam valor base declarado de cerca de US$ 38 a 39 mil por chassi. Uma análise estima o custo total relacionado à importação entre 102,5% e 127,5% do valor — somando tarifa padrão, taxa adicional da Seção 301 para elétricos chineses e outras taxas portuárias. Isso coloca o custo do chassi já em solo americano entre US$ 78 mil e US$ 86,5 mil, antes mesmo de qualquer sistema autônomo ser instalado.
Depois da integração feita pela Waymo, uma análise de custos da cadeia de suprimentos estima o veículo completo em cerca de US$ 103 a 110 mil — bem abaixo dos aproximadamente US$ 200 mil estimados para o custo histórico do Jaguar I-Pace com hardware autônomo da Waymo. Vale destacar: são estimativas do setor, não custos de aquisição divulgados oficialmente pela Waymo.
No lado regulatório, o Departamento de Indústria e Segurança dos EUA propôs restrições para certos softwares e hardwares conectados de origem chinesa, enquanto registros da NHTSA mostram histórico de certificação e correções federais para o CM1e — veículos de pré-produção passaram por ajustes de segurança envolvendo trilho do banco do passageiro, acabamento da coluna C e software do sistema de retenção, antes de entrarem na frota de passageiros.
A escolha pela plataforma chinesa também reflete escassez de opções: a produção do Jaguar I-Pace terminou no fim de 2024, e a GM cancelou seu programa Cruise Origin no mesmo ano — reduzindo as plataformas prontas disponíveis para empresas de direção autônoma. A Waymo também desenvolve outra plataforma com a Hyundai, baseada no IONIQ 5 e montada nos EUA, mas ainda sem evidência de que vá entrar em operação comercial no mesmo volume do programa com a Zeekr.
O nome Ojai foi adotado pela Waymo em janeiro de 2026, depois que a plataforma já havia sido associada publicamente às designações Zeekr RT e CM1e. Não deve ser confundido com o Zeekr Mix, voltado ao consumidor final — ambos compartilham a arquitetura SEA-M, mas o Ojai é uma configuração exclusiva para frotas comerciais, construída em torno do sistema autônomo da Waymo.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – A estratégia do “planador incompleto” é, na prática, uma forma de separar tarifas de hardware e tarifas de tecnologia: importar o veículo sem os sistemas autônomos e instalá-los depois, nos EUA, muda a forma como a alfândega classifica e taxa o produto — mesmo com tarifa ainda acima de 100%.
O corte pela metade no número de sensores (13 câmeras e 4 LiDARs, contra 29 câmeras e 5 LiDARs da geração anterior) não é sinal de menos capacidade, é sinal de maturidade de engenharia: sistemas de fusão de sensores mais sofisticados permitem cobrir o mesmo campo de visão com menos hardware, reduzindo custo sem, em tese, reduzir segurança.
Se as estimativas do setor estiverem corretas, o Ojai completo custaria cerca da metade do Jaguar I-Pace equipado — um dado que ajuda a explicar por que a Waymo está migrando tão rápido de plataforma, já que unidade econômica mais barata é peça central para qualquer robotáxi chegar perto de operar com lucro em escala.
Os ajustes de segurança em veículos de pré-produção (trilho de banco, acabamento de coluna, software de retenção) fazem parte do processo normal de certificação, não são, por si só, motivo de alarme — mas é bom que existam registros públicos via NHTSA permitindo esse tipo de verificação.
Vale reforçar a ressalva que a própria apuração original faz: os valores de custo do Ojai são estimativas de mercado, não números confirmados pela Waymo — tratá-los como definitivos seria um erro editorial.
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Waymo chega a 14 cidades dos EUA: o serviço comercial começou em Denver, San Diego e Tampa em 1º de setembro.
Ojai é fabricado em Ningbo, na China: pela Zeekr, antes de seguir para integração autônoma em Mesa, no Arizona.
Mais de 3.200 chassis já desembarcaram nos EUA: cerca de 300 unidades já transportam passageiros comercialmente.
Tarifa de importação pode superar 100%: elevando o custo do chassi para até US$ 86,5 mil antes da integração autônoma.
Custo total estimado é bem menor que o do Jaguar I-Pace: cerca de US$ 103 a 110 mil, contra US$ 200 mil do modelo anterior, segundo estimativas do setor.
Waymo mira 1 milhão de viagens semanais até o fim de 2026: a frota comercial total nos EUA já passa de 4.000 veículos.
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Planador rolante (rolling glider): veículo importado sem determinados sistemas eletrônicos ou de software, para que essas partes sejam instaladas posteriormente no país de destino — estratégia que pode alterar a forma como tarifas alfandegárias são aplicadas.
LiDAR: sensor que usa pulsos de laser para medir distância e mapear o ambiente ao redor do veículo em três dimensões, peça central dos sistemas de direção autônoma.
Motor síncrono de ímã permanente: tipo de motor elétrico eficiente e compacto, que usa ímãs fixos no rotor para gerar torque com menor perda de energia, comum em veículos elétricos modernos.
Tarifa Seção 301: sobretaxa de importação aplicada pelos Estados Unidos a determinados produtos de origem chinesa, incluindo veículos elétricos a bateria, além da tarifa padrão de importação.

