Enquanto as baterias avançam rapidamente nos caminhões pesados, a Mercedes-Benz mantém aberta uma segunda rota para operações em que autonomia elevada e paradas curtas são particularmente importantes. O combustível escolhido exige uma infraestrutura completamente diferente: hidrogênio armazenado em estado líquido.
O Mercedes-Benz NextGenH2 Truck fará sua estreia pública na IAA Transportation 2026 como a próxima etapa do programa de caminhões pesados a hidrogênio da Daimler Truck.
O veículo foi desenvolvido para transporte de longa distância e utiliza célula a combustível alimentada por hidrogênio líquido, solução com a qual a fabricante pretende alcançar autonomias superiores a 1.000 quilômetros por abastecimento.
A Daimler Truck planeja colocar uma pequena série de aproximadamente 100 caminhões em operações reais com clientes na Alemanha, começando no final de 2026.
O primeiro cliente anunciado é a empresa de logística Dachser.
Inicialmente, uma unidade deverá entrar em operação diária no final deste ano. Outros dois veículos estão previstos até meados de 2027.
Os caminhões ficarão baseados no centro logístico da empresa em Karlsruhe e serão utilizados principalmente em transporte de longa distância.
A tecnologia central permanece baseada na célula a combustível BZA150 da Cellcentric, já utilizada no programa anterior de testes.
Na célula a combustível, o hidrogênio não é queimado em um motor convencional.
Ele participa de uma reação eletroquímica que produz eletricidade para alimentar o sistema de propulsão elétrica, tendo a água como principal produto da reação no veículo.
O NextGenH2 incorpora ainda componentes desenvolvidos para o eActros 600.
Entre eles estão a ProCabin, a geração atualizada do eixo elétrico, sistemas eletrônicos e recursos de segurança e assistência.
Essa estratégia permite compartilhar componentes entre caminhões elétricos a bateria e veículos elétricos alimentados por célula a combustível, mesmo utilizando sistemas diferentes para armazenar a energia.
A escolha pelo hidrogênio líquido é um dos elementos mais importantes do projeto.
Ao ser armazenado em condição criogênica, o hidrogênio líquido permite transportar maior quantidade de combustível em determinado volume do que determinadas soluções de armazenamento gasoso.
Em contrapartida, manter hidrogênio no estado líquido exige temperaturas extremamente baixas e sistemas específicos de armazenamento, isolamento e abastecimento.
A Daimler Truck aposta nessa arquitetura para combinar autonomia superior a 1.000 quilômetros e tempos reduzidos de abastecimento, características relevantes para determinadas operações de longa distância.
O projeto também recebeu modificações destinadas ao uso cotidiano.
A reorganização dos componentes permitiu reduzir a distância entre-eixos e aumentar a compatibilidade com semirreboques convencionais.
Outra novidade está no sistema de sensores destinado a responder à eventual ocorrência de vazamento de hidrogênio.
Segundo a fabricante, essa solução permite que os motoristas utilizem as duas camas convencionais da cabine durante pernoites, ampliando a adequação do caminhão a viagens de vários dias.
O avanço tecnológico, entretanto, continua acompanhado pelo principal desafio do hidrogênio no transporte: infraestrutura.
A própria Daimler Truck reconhece que a rede de abastecimento permanece limitada.
Mesmo assim, quase metade das aproximadamente 100 unidades previstas para a pequena série já teria sido reservada por clientes, conforme as informações divulgadas pela companhia.
A fabricante também pretende investir centenas de milhões de euros na tecnologia de caminhões a hidrogênio até o final da década.
O objetivo é utilizar o NextGenH2 como complemento aos caminhões elétricos a bateria, especialmente em operações nas quais grande autonomia e flexibilidade de rota tenham peso elevado na decisão operacional.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – O NextGenH2 mostra por que a discussão entre bateria e hidrogênio não deveria ser tratada simplesmente como uma disputa para descobrir uma tecnologia vencedora. As duas soluções transformam eletricidade em movimento por meio de motores elétricos, mas armazenam e fornecem energia de maneiras muito diferentes.
No caminhão a bateria, a eletricidade é armazenada diretamente nas células e posteriormente entregue ao motor. No modelo a hidrogênio, existe uma cadeia adicional: o combustível precisa ser produzido, armazenado, distribuído e posteriormente convertido novamente em eletricidade pela célula a combustível.
Isso significa mais transformações energéticas. Em contrapartida, o hidrogênio pode oferecer características operacionais interessantes quando autonomia elevada e tempo de abastecimento possuem importância maior para a missão.
O uso de hidrogênio líquido adiciona outra camada de engenharia. Não basta construir tanques resistentes. É necessário manter o combustível em condições criogênicas e controlar isolamento térmico, armazenamento e abastecimento.
Por isso, os testes com clientes serão particularmente importantes. Mais do que provar que o caminhão consegue rodar, será necessário verificar disponibilidade, consumo, logística de abastecimento e custo total da operação.
O caminhão pode superar 1.000 quilômetros de autonomia e ainda assim depender de uma pergunta muito simples: haverá hidrogênio disponível onde a frota precisa abastecer? Infraestrutura continua sendo parte inseparável da tecnologia do veículo.
Entender quando bateria ou hidrogênio fazem sentido exige analisar a missão antes de escolher a tecnologia. Siga @tarcisiomecanicaonline para acompanhar conteúdos sobre células a combustível, hidrogênio, caminhões elétricos e transformação energética.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- Mais de 1.000 km – É a autonomia indicada para o NextGenH2 utilizando hidrogênio líquido.
- Cerca de 100 caminhões – A primeira pequena série será destinada a operações reais com clientes.
- Dachser será cliente inicial – A primeira unidade deverá começar a trabalhar no final de 2026.
- Célula a combustível – O hidrogênio é utilizado para produzir eletricidade que alimenta a propulsão elétrica.
- Componentes compartilhados – Tecnologias do eActros 600 também aparecem no novo caminhão a hidrogênio.
- Infraestrutura limitada – A disponibilidade de pontos de abastecimento continua sendo um dos principais obstáculos à expansão.
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Célula a combustível – Dispositivo eletroquímico que utiliza hidrogênio para produzir eletricidade destinada ao sistema de propulsão.
Hidrogênio líquido – Hidrogênio mantido em temperatura criogênica para permanecer no estado líquido, aumentando a quantidade armazenada por volume.
Eixo elétrico – Conjunto que integra componentes da propulsão elétrica ao eixo responsável por transmitir torque às rodas.
Autonomia – Distância que o caminhão consegue percorrer antes de precisar reabastecer o hidrogênio ou recarregar sua fonte de energia.

