A BMW decidiu que enfrentar a próxima fase da indústria automotiva exigirá mais do que lançar novos carros. A fabricante vai reduzir modelos e estruturas internas, regionalizar produtos, ampliar o uso de inteligência artificial e concentrar investimentos onde enxerga maior rentabilidade. No meio dessa reorganização aparecem dois novos automóveis e até o fim de uma conhecida configuração do portfólio — mas a mudança mais profunda acontece longe das concessionárias.
O BMW Group apresentou no Capital Market Day 2026 uma ampla reorganização de sua estratégia global, buscando recuperar rentabilidade enquanto enfrenta uma indústria mais competitiva e tecnologicamente complexa.
A meta é retornar a uma margem EBIT de 8% a 10% no Segmento Automotivo no início da próxima década, depois de uma etapa intermediária de 3% a 5% prevista para 2028. O grupo também pretende alcançar fluxo de caixa livre de pelo menos € 7 bilhões no segmento automotivo.
Para chegar lá, a BMW pretende combinar menos complexidade, maior regionalização dos automóveis e utilização intensiva de inteligência artificial.
Isso terá consequências diretas no portfólio.
Série 2 Active Tourer ficará sem sucessor
A BMW pretende reduzir a quantidade de variantes para melhorar a rentabilidade de sua gama.
Um dos exemplos já confirmados é o BMW Série 2 Active Tourer, que não terá sucessor.
A estratégia será selecionar produtos e sistemas de propulsão de acordo com aquilo que oferece maior valor ao cliente e melhores margens de contribuição em cada mercado.
Na parte superior do portfólio, a fabricante pretende explorar mais as marcas BMW, BMW M e Rolls-Royce.
Também chegará no próximo ano o primeiro modelo da BMW ALPINA, inspirado no Série 7 e posicionado estrategicamente entre BMW e Rolls-Royce.
Novo elétrico compacto chega em 2028
No outro extremo da gama haverá uma novidade igualmente importante.
A BMW confirmou para 2028 um novo automóvel totalmente elétrico da Neue Klasse no segmento de entrada, desenvolvido principalmente para o mercado europeu.
A empresa não revelou no material apresentado nome, dimensões, bateria, potência, autonomia ou preço desse futuro modelo.
Portanto, ainda não é possível afirmar qual produto atual ele substituirá ou exatamente onde ficará posicionado.
O que está confirmado é que as tecnologias inicialmente introduzidas no núcleo e nas faixas superiores da BMW chegarão também aos modelos compactos, trabalhando em conjunto com a gama elétrica da MINI.
BMW estuda modelo acima do X7
Nos Estados Unidos, a estratégia segue outra direção.
A BMW avalia criar um novo SAV posicionado acima do X7, desenvolvido especificamente considerando as características do mercado norte-americano.
A decisão ainda está em estudo e, portanto, não deve ser tratada como lançamento confirmado.
A fabricante afirma que sua unidade de Spartanburg, nos Estados Unidos, já opera na capacidade máxima diante da demanda pelos SAVs.
Por isso, também analisa ampliar a regionalização da fabricação desses veículos em outros locais.
China terá até 95% dos BMW produzidos localmente
A regionalização será ainda mais intensa na China.
Com a chegada da Neue Klasse, a BMW pretende ampliar a produção chinesa nos segmentos de maior volume e deixar as importações concentradas principalmente nos modelos com maiores margens.
Até 2030, a meta é que pelo menos 95% dos automóveis comercializados pela companhia naquele mercado sejam produzidos localmente e desenvolvidos especificamente considerando as preferências dos consumidores chineses.
A BMW também estuda utilizar sua estrutura chinesa para exportar automóveis ao Sudeste Asiático.
É uma mudança importante na lógica industrial.
A China deixa de ser apenas um grande mercado consumidor e amplia sua participação como centro de desenvolvimento e potencial base exportadora dentro da estratégia global da fabricante.
IA entra no desenvolvimento do carro
Mas talvez a transformação mais profunda apresentada pela BMW não esteja em nenhum modelo específico.
A empresa pretende levar a inteligência artificial para praticamente toda sua cadeia de valor, passando por desenvolvimento, compras, produção, vendas, marketing e pós-venda.
No desenvolvimento dos automóveis, a BMW pretende utilizar IA agêntica desde a definição dos requisitos técnicos até testes e liberação.
Agentes digitais especializados serão conectados aos dados e sistemas de engenharia acumulados pela companhia.
A proposta é automatizar atividades rotineiras e analisar informações complexas mais rapidamente, mas os resultados continuarão sendo monitorados, revisados e finalmente aprovados pelos desenvolvedores humanos.
Um exemplo já está na parceria com a Mistral AI para simulações de colisão.
A BMW pretende combinar dados próprios de engenharia com modelos especializados de inteligência artificial para aumentar velocidade e eficiência durante o desenvolvimento.
Fábrica terá robôs capazes de aprender
Nas fábricas, a transformação já começou.
A inteligência artificial faz parte da BMW iFACTORY, sendo aplicada em fábricas virtuais, gêmeos digitais, inspeção de qualidade e logística interna com sistemas autônomos.
A próxima etapa prevista envolve agentes digitais realizando tarefas mais complexas e robôs com capacidade de autoaprendizagem.
A BMW chama essa integração entre IA e mundo físico de Physical AI, ou IA Física.
Isso mostra como a inteligência artificial começa a sair do chatbot e entrar diretamente na manufatura.
Depois do carro definido por software vem o carro definido por IA
A BMW também apresentou o conceito de AI-defined vehicle, ou veículo definido por inteligência artificial.
A base será a nova arquitetura elétrica e eletrônica zonal introduzida pela Neue Klasse, que deverá chegar a diferentes segmentos da fabricante.
No veículo definido por software, atualizações e funções digitais possuem papel central.
No conceito apresentado pela BMW, a etapa seguinte procura fazer com que assistência ao motorista, entretenimento, conforto e funções básicas interajam de maneira integrada e contextual.
Isso não significa que a inteligência artificial assumirá automaticamente a condução do automóvel.
A própria BMW mantém seus sistemas descritos como assistência ao motorista dentro do SAE Level 2, nível no qual o condutor continua responsável pela condução.
A expressão “Level 2++” utilizada no material é uma nomenclatura comercial e não constitui um nível adicional formal da classificação SAE.
IA também ajudará a enxugar a própria BMW
A mesma tecnologia utilizada para desenvolver e fabricar os automóveis será aplicada à estrutura corporativa.
A BMW afirma que pretende simplificar processos e reorganizar suas divisões, apoiando-se também no uso de inteligência artificial para aumentar eficiência.
Até meados do próximo ano, o grupo planeja reduzir em 20% o número de divisões e os cargos de gestão associados, com redução comparável em níveis organizacionais inferiores.
A companhia já havia firmado em julho um acordo com seu Conselho de Trabalhadores relacionado a ajustes nas estruturas de pessoal e também prevê um programa de desligamento voluntário.
A transformação digital, portanto, aparece simultaneamente como tecnologia para criar novos produtos e como ferramenta para reduzir complexidade e custos dentro da própria organização.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Existe uma conexão muito interessante entre essa estratégia da BMW e aquilo que estamos acompanhando na transformação da mecânica.
Durante anos falamos sobre o carro definido por software.
Agora a BMW já fala em carro definido por inteligência artificial.
Mas não é apenas o carro que está mudando.
A IA começa no projeto, passa pela simulação de colisão, entra na fábrica, acompanha a logística, chega ao automóvel e pode alcançar o pós-venda.
Isso significa que a transformação tecnológica não pode ser analisada somente olhando para motor, bateria ou potência.
O próprio processo de desenvolver um automóvel está mudando.
Existe ainda uma segunda mensagem importante.
A BMW está reduzindo variantes e escolhendo produtos diferentes para cada região.
China, Europa e Estados Unidos passam a receber estratégias cada vez mais específicas.
Isso sugere que a globalização do automóvel está entrando em uma fase diferente: a plataforma pode ser global, mas produto, tecnologia e produção tornam-se cada vez mais regionais.
E há uma consequência direta para quem trabalha no setor.
Se inteligência artificial e software entram no desenvolvimento, na fábrica e no automóvel, engenheiros, técnicos e mecânicos também precisarão compreender cada vez melhor a relação entre hardware, eletrônica, dados e software.
O parafuso continua existindo.
Mas agora existe um algoritmo trabalhando ao lado dele.
Para acompanhar como inteligência artificial, software e novas arquiteturas estão transformando a engenharia e a mecânica dos automóveis, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- Menos modelos e variantes – A BMW pretende reduzir a complexidade do portfólio; o Série 2 Active Tourer é um dos produtos já confirmados sem sucessor.
- Elétrico compacto em 2028 – Um novo modelo Neue Klasse chegará ao segmento de entrada com foco principalmente no mercado europeu.
- 95% locais na China – Essa é a meta mínima para veículos produzidos localmente e desenvolvidos para as preferências dos consumidores chineses até 2030.
- IA em toda a cadeia – Desenvolvimento, compras, produção, vendas, marketing e pós-venda estão entre as áreas previstas para ampliar o uso da tecnologia.
- Gestão 20% menor – A BMW pretende reduzir nessa proporção o número de divisões e cargos de gestão associados até meados do próximo ano.
- Rentabilidade como objetivo – A companhia busca recuperar margem EBIT de 8% a 10% no segmento automotivo no início da próxima década.
Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende
- IA agêntica – Sistemas de inteligência artificial capazes de executar sequências de tarefas e interagir com diferentes dados e ferramentas, mantendo no caso descrito pela BMW a revisão e aprovação humana dos resultados.
- Arquitetura zonal – Organização da eletrônica do veículo por zonas, reduzindo parte da complexidade de módulos e cabeamento e criando uma base mais integrada para funções digitais.
- Physical AI – Aplicação de inteligência artificial diretamente em sistemas físicos, como robôs e equipamentos industriais capazes de adaptar seu funcionamento.
- Veículo definido por IA – Conceito apresentado pela BMW no qual diferentes sistemas do automóvel passam a trabalhar de maneira integrada e contextual com inteligência artificial; isso não significa, por si só, condução autônoma.

