Enquanto boa parte da indústria tenta reduzir o tempo de recarga dos carros elétricos para poucos minutos, Geely e Nio estão reforçando uma solução diferente: retirar a bateria descarregada e instalar outra carregada. As duas companhias decidiram integrar suas operações de energia e desenvolver veículos compatíveis com uma infraestrutura compartilhada. O acordo pode atacar justamente um dos maiores obstáculos que impediram essa tecnologia de ganhar escala até agora.
O Geely Holding Group e a Nio anunciaram em 28 de setembro uma parceria estratégica para integrar suas estruturas de carregamento e troca de baterias na China.
O acordo vai muito além de permitir que clientes utilizem carregadores das duas empresas.
As companhias terão participações acionárias cruzadas em suas operações de energia, integrarão parte da infraestrutura existente e pretendem trabalhar conjuntamente em padrões de troca de baterias.
O movimento mais importante está nos futuros automóveis.
A Geely deverá desenvolver novos veículos elétricos compatíveis com os padrões compartilhados de battery swap, enquanto a Nio Power fornecerá a infraestrutura necessária para atender esses modelos.
Na prática, isso começa a atacar uma limitação histórica da troca de baterias: cada fabricante desenvolver carro, bateria e estação dentro de um ecossistema próprio.
Geely terá 30% da Nio Power
Pelos termos divulgados, o Geely Holding Group adquirirá 30% da Nio Power, divisão responsável pela infraestrutura energética da Nio.
O investimento envolve a transferência de 100% do capital da Yiyi Power, operação de troca de baterias da Geely, além de um aporte de 640 milhões de yuans, aproximadamente US$ 94,1 milhões segundo os valores apresentados.
As atividades da Yiyi Power relacionadas à troca de baterias para veículos comerciais serão incorporadas à Nio Power.
A Geely, portanto, não está começando do zero.
A Yiyi Power já opera cerca de 470 estações de troca de baterias na China, atendendo principalmente táxis e veículos utilizados no transporte por aplicativo.
Esse tipo de aplicação é particularmente interessante para o battery swap porque tempo parado representa perda direta de produtividade.
Quanto mais rapidamente um veículo comercial retorna à operação, maior pode ser sua utilização diária.
Nio também entra na rede de carregamento da Geely
A movimentação ocorre nos dois sentidos.
A Nio adquirirá participação de 10% na Haohan Energy, subsidiária de carregamento da Geely.
Depois da operação, as empresas pretendem alcançar interconexão entre seus recursos de recarga.
Isso coloca duas estratégias de abastecimento energético sob a mesma parceria.
De um lado está a recarga convencional, cuja evolução tecnológica busca transferir cada vez mais energia em períodos menores.
Do outro está a troca da bateria inteira, que procura reduzir o tempo de parada substituindo fisicamente o conjunto descarregado por outro previamente carregado.
Em vez de apostar exclusivamente em uma das soluções, Geely e Nio pretendem ampliar as duas infraestruturas.
Battery swap tenta deixar de ser uma ilha tecnológica
A ambição mais interessante do acordo está na padronização.
Segundo as informações divulgadas, as empresas querem reduzir a exclusividade de marca na troca de baterias e desenvolver padrões compartilhados para automóveis de passageiros.
Isso exige muito mais do que simplesmente construir estações maiores.
Para que veículos de fabricantes diferentes utilizem uma mesma infraestrutura, é necessário compatibilizar aspectos como dimensões e fixação do pack, conexões elétricas, comunicação eletrônica, gerenciamento térmico e procedimentos automatizados de remoção e instalação.
A Geely deverá desenvolver futuros modelos elétricos considerando esses padrões, enquanto a Nio ficará responsável pela infraestrutura de suporte.
Se essa interoperabilidade avançar, a estação deixa de ser uma instalação dedicada exclusivamente aos veículos de uma única fabricante e passa a ter potencial para atender um ecossistema maior de automóveis.
É justamente aí que a escala pode mudar.
Meta chega a 10 mil estações até 2030
A Nio Energy estabeleceu como objetivo atingir 10 mil estações de troca de baterias acumuladas até 2030.
Segundo as projeções apresentadas, essa estrutura poderá gerar uma demanda anual de eletricidade superior a 10 bilhões de kWh.
A dimensão dessa meta ajuda a entender por que padronização e utilização são tão importantes.
Uma estação de battery swap exige estrutura física, automação, estoque de baterias e conexão energética.
Quanto mais veículos puderem utilizar cada unidade, maior tende a ser o potencial de aproveitamento dessa infraestrutura.
É uma lógica semelhante à encontrada em outras redes: escala depende tanto do número de pontos quanto da quantidade de usuários capazes de utilizá-los.
Geely também acelera carregadores ultrarrápidos
A parceria não significa que a Geely esteja abandonando a corrida pela recarga convencional.
Pelo contrário.
A empresa pretende instalar mais de 22 mil estações de carregamento e 100 mil pontos de recarga até o final de 2027, buscando ampliar a cobertura na China.
Isso acontece enquanto a companhia também desenvolve sistemas de carregamento com potência extremamente elevada.
Portanto, a estratégia não coloca necessariamente battery swap contra carregamento ultrarrápido.
A Geely está investindo simultaneamente nas duas possibilidades.
Isso faz sentido porque diferentes aplicações podem favorecer soluções distintas.
Um automóvel particular estacionado durante horas em casa possui necessidades diferentes de um táxi ou veículo de aplicativo que precisa permanecer em circulação durante grande parte do dia.
Trocar bateria resolve o tempo, mas cria outros desafios
O principal argumento a favor do battery swap é fácil de compreender.
Em vez de esperar a bateria receber energia, o veículo recebe outra bateria que já estava carregada.
Mas essa rapidez transfere parte da complexidade para a infraestrutura.
A estação precisa armazenar packs, controlar o estado de cada bateria, gerenciar recargas, executar mecanicamente as substituições e garantir que diferentes conjuntos estejam dentro das condições necessárias de segurança e funcionamento.
Também existe uma questão industrial.
Quando a bateria é permanentemente integrada à estrutura do automóvel, engenheiros têm maior liberdade para utilizar o próprio pack como elemento estrutural.
Em um veículo preparado para troca rápida, a bateria precisa permanecer removível, criando requisitos específicos de projeto.
É por isso que a decisão de desenvolver carros Geely já compatíveis com a infraestrutura compartilhada é tão importante quanto o investimento financeiro.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – A disputa entre carregamento ultrarrápido e troca de baterias está ficando tecnicamente muito interessante.
Há pouco tempo, a vantagem mais evidente do battery swap era o tempo.
Enquanto um elétrico precisava permanecer dezenas de minutos conectado, uma estação automatizada poderia substituir a bateria em poucos minutos.
Mas essa vantagem está diminuindo.
Já estamos vendo tecnologias chinesas prometendo recuperar grandes quantidades de energia em menos de dez minutos sob condições adequadas.
Então por que continuar investindo na troca?
Porque o tempo de carregamento não é a única variável.
Existe também ocupação do carregador, potência exigida da rede, disponibilidade do veículo, degradação, gerenciamento da bateria e custo da infraestrutura.
Em frotas de alta utilização, principalmente táxis e veículos de aplicativo, alguns minutos adicionais parados todos os dias podem ganhar importância econômica.
Ao mesmo tempo, battery swap possui seu próprio problema de escala.
Se cada fabricante utilizar uma bateria diferente e uma estação exclusiva, será necessário construir várias redes paralelas para realizar essencialmente a mesma tarefa.
É justamente por isso que considero a padronização a parte mais importante deste acordo.
O avanço não está simplesmente em a Geely comprar uma participação na Nio Power.
Está em uma fabricante desenvolver automóveis para utilizar uma infraestrutura originalmente associada a outra marca.
Se isso funcionar em grande escala, a bateria poderá começar a assumir em algumas aplicações uma característica que já conhecemos em outras fontes de energia: uma infraestrutura menos dependente da marca estampada no capô.
Ainda há enormes desafios para chegar lá.
Baterias precisam ser compatíveis física, elétrica e eletronicamente. As estações precisam ter utilização suficiente para justificar o investimento. E carregamento ultrarrápido continuará evoluindo ao mesmo tempo.
Talvez não exista um vencedor único.
O futuro pode combinar recarga residencial para quem estaciona durante a noite, carregamento ultrarrápido nas viagens e troca de baterias em operações nas quais cada minuto parado custa dinheiro.
A parceria entre Geely e Nio torna essa terceira alternativa muito mais interessante porque começa a atacar justamente aquilo que sempre limitou sua expansão: a falta de escala compartilhada.
Para acompanhar como baterias, carregamento ultrarrápido e novas infraestruturas estão mudando o carro elétrico, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- 30% da Nio Power – É a participação que o Geely Holding Group deverá adquirir na operação de infraestrutura energética da Nio.
- 10% da Haohan Energy – Será a participação adquirida pela Nio na subsidiária de carregamento da Geely.
- 640 milhões de yuans – É o aporte financeiro informado como parte da operação envolvendo a entrada da Geely na Nio Power.
- 470 estações – A Yiyi Power já opera aproximadamente esse número de pontos de troca na China, principalmente para táxis e veículos de aplicativo.
- 10 mil estações – É a meta acumulada da Nio Energy para sua rede de battery swap até 2030.
- Carros Geely compatíveis – Futuros elétricos da fabricante deverão ser desenvolvidos para utilizar os padrões compartilhados de troca de baterias.
Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende
- Battery swap – Sistema automatizado que remove a bateria descarregada do veículo e instala outra previamente carregada, evitando esperar a recarga do mesmo pack.
- Interoperabilidade – Capacidade de veículos, baterias e infraestrutura de empresas diferentes funcionarem dentro de padrões técnicos compatíveis.
- Pack de bateria – Conjunto completo que reúne células, módulos, estrutura, conexões, sensores e sistemas necessários ao armazenamento de energia do veículo.
- Carregamento ultrarrápido – Recarga em corrente contínua com elevada potência destinada a transferir grande quantidade de energia em pouco tempo; a potência máxima da estação não significa que o veículo consiga recebê-la continuamente.

