Os Estados Unidos iniciaram uma corrida para retirar tecnologias chinesas dos carros conectados vendidos no país, mas o movimento está revelando um desafio maior do que simplesmente trocar fornecedores. Fabricantes americanos precisam encontrar alternativas para módulos de comunicação e outros componentes com custos competitivos e domínio tecnológico equivalente. O paradoxo é evidente: enquanto Washington busca reduzir a dependência da China por razões de segurança nacional, a indústria descobre quanto a engenharia e a escala chinesas se tornaram relevantes para a evolução do automóvel conectado.
Uma fábrica relativamente discreta em Solon, Ohio, ajuda a explicar uma das transformações mais importantes em andamento na cadeia automotiva americana.
A Eagle Wireless foi criada no final de 2025 e está ampliando rapidamente sua capacidade para produzir módulos eletrônicos responsáveis pela comunicação sem fio dos automóveis.
A oportunidade nasceu de uma decisão política e estratégica dos Estados Unidos: retirar progressivamente dos carros conectados determinadas tecnologias com vínculos considerados suficientes com a China e a Rússia.
A regra foi finalizada pelo Departamento de Comércio em janeiro de 2025. Para veículos de passageiros abrangidos, as restrições relacionadas ao software começam no ano-modelo 2027, enquanto aquelas relativas ao hardware do sistema de conectividade entram no ano-modelo 2030.
Como os programas de novos veículos são definidos anos antes de chegarem às concessionárias, 2030 já começou para a engenharia e para os departamentos de compras das montadoras.
O problema não é apenas encontrar outro fornecedor
Entre os componentes diretamente atingidos estão equipamentos que fazem parte do Vehicle Connectivity System (VCS), conjunto responsável pela comunicação externa do automóvel.
A regulamentação americana inclui nesse universo tecnologias relacionadas a telemática, comunicação celular, Bluetooth, satélite e Wi-Fi. O governo justifica as restrições pelo risco de acesso a dados sensíveis e eventual manipulação remota dos veículos.
Mas retirar componentes chineses significa reorganizar uma cadeia de suprimentos que passou anos buscando justamente escala, custo e capacidade tecnológica na China.
Segundo a reportagem da Reuters, fabricantes chineses respondem por quase metade das remessas globais de módulos celulares IoT destinados ao setor automotivo, de acordo com dados da Counterpoint Research.
É essa escala que novos fornecedores precisam enfrentar.
Eagle quer produzir 2 milhões de módulos por ano
A Eagle Wireless começou com aproximadamente 140 funcionários e pretende chegar a 1.000 trabalhadores nos próximos três anos.
A empresa também elevou praticamente ao dobro sua expectativa de faturamento para 2026, aproximando-a de US$ 100 milhões.
A capacidade industrial está crescendo rapidamente. A meta anunciada é alcançar uma taxa anual equivalente a aproximadamente 2 milhões de módulos até o fim do terceiro trimestre.
Mesmo assim, existe uma questão decisiva: preço.
A Eagle busca aproximar seus custos daqueles dos concorrentes chineses, mas reconhece que seus módulos ainda apresentam uma diferença de aproximadamente 5% a 15%.
Isso mostra que a substituição não é apenas tecnológica. Desvincular uma cadeia de fornecedores também tem impacto econômico.
China virou referência justamente na tecnologia que os EUA querem substituir
Existe ainda uma contradição reveladora na própria história da Eagle.
Para acelerar sua entrada nesse mercado, a empresa começou licenciando o projeto de módulos da Quectel Wireless Solutions, fabricante chinesa que ocupa posição relevante mundialmente nesse segmento.
Agora, a Eagle precisa desenvolver sua própria tecnologia para substituir essa arquitetura dentro do prazo regulatório americano.
A situação resume parte do desafio enfrentado pelos Estados Unidos: para diminuir a dependência tecnológica da China, algumas empresas inicialmente recorrem ao conhecimento desenvolvido pela própria indústria chinesa.
Essa relação aparece também em outras áreas do automóvel.
A Ford, por exemplo, utiliza licenciamento de tecnologia de baterias da chinesa CATL em sua estratégia de produção americana. São modelos de parceria diferentes, mas que demonstram como o conhecimento chinês passou a ocupar posições estratégicas em áreas importantes da eletrificação e da eletrônica automotiva.
Trocar a origem das peças exige rastrear toda a cadeia
Outro problema está em descobrir exatamente de onde vêm componentes, projetos e tecnologias utilizados em sistemas complexos.
As montadoras estão aumentando as exigências de rastreabilidade de suas cadeias de fornecedores, justamente para evitar que um componente proibido permaneça escondido em um subconjunto adquirido de outra empresa.
Hilary Cain, da Alliance for Automotive Innovation, classificou a adequação como um processo que exige análise profunda das cadeias de suprimentos e cumprimento de cronogramas rigorosos.
A regra não olha apenas para o endereço da fábrica. No caso do hardware abrangido, também entram em consideração vínculos relacionados a projeto, desenvolvimento, fabricação ou fornecimento.
É por isso que simplesmente montar um componente nos Estados Unidos não resolve necessariamente o problema.
Custo da substituição preocupa montadoras
O impacto pode se tornar ainda maior conforme a discussão avance para outras tecnologias.
Um ex-executivo da indústria americana relatou à Reuters ter encontrado uma diferença de preço expressiva ao comparar um sistema não chinês de direção automatizada com uma solução baseada em tecnologia chinesa, incluindo LiDAR.
Grande parte desses componentes de ADAS não está atualmente submetida às mesmas restrições específicas de hardware previstas para os sistemas de conectividade, embora outras medidas possam ser consideradas separadamente no futuro, segundo a reportagem.
Isso expõe uma questão que ultrapassa conectividade.
A China deixou de ocupar apenas o papel de fornecedora de componentes de baixo custo. Baterias, eletrônica, conectividade, sensores e sistemas avançados passaram a fazer parte de um ecossistema industrial que combina grande escala produtiva com desenvolvimento tecnológico.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – O movimento americano revela uma mudança histórica interessante. Durante décadas, falar em dependência da China na indústria significava principalmente discutir custos baixos, capacidade fabril e escala de produção. Agora, a conversa também envolve propriedade intelectual, engenharia e domínio de tecnologias essenciais ao automóvel moderno.
Os módulos de conectividade são um ótimo exemplo. Eles podem parecer apenas pequenas placas eletrônicas, mas são responsáveis por criar a ponte entre o veículo e o ambiente digital externo. Sem eles, diversas funções conectadas simplesmente não existem.
A preocupação americana com segurança cibernética e proteção de dados é concreta dentro da justificativa regulatória apresentada pelo governo. O Departamento de Comércio afirma que determinadas tecnologias ligadas à China e à Rússia podem representar risco de extração de informações sensíveis e manipulação remota de veículos.
Mas existe o outro lado técnico e industrial dessa discussão. Quando substituir uma tecnologia chinesa significa aceitar inicialmente custos maiores, reconstruir cadeias de fornecimento e até utilizar conhecimento licenciado da própria China para acelerar uma alternativa, fica evidente o tamanho da vantagem acumulada por aquele ecossistema.
Não significa que toda tecnologia chinesa seja necessariamente superior, nem que não existam alternativas competitivas em outros países. Significa algo mais importante: a China deixou de ser apenas a fábrica do automóvel mundial e tornou-se um dos principais centros de desenvolvimento da nova indústria automotiva.
Eletrificação, baterias, software, conectividade e assistência avançada à condução transformaram o centro de gravidade tecnológico do setor. A indústria chinesa cresceu justamente enquanto o automóvel deixava de ser predominantemente mecânico para se tornar cada vez mais eletrônico, conectado e definido por software.
Por isso, o desafio americano vai muito além de proibir determinado componente. É preciso reconstruir competência industrial, desenvolver fornecedores, atingir escala e chegar a custos capazes de competir com um ecossistema chinês que levou anos para ser formado.
E talvez esteja aí a principal mensagem dessa disputa: reduzir dependência tecnológica exige muito mais do que mudar o país estampado na etiqueta de uma peça. Exige dominar novamente a engenharia que existe dentro dela.
Para acompanhar como China, Estados Unidos e Europa estão redesenhando a indústria automotiva por meio de baterias, software, conectividade e novas cadeias de fornecimento, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- 2027 – É o primeiro ano-modelo atingido pelas proibições americanas relacionadas a determinados softwares chineses ou russos em veículos conectados.
- 2030 – É o ano-modelo a partir do qual entram as restrições à importação do hardware VCS abrangido pela regulamentação.
- Quase metade – Fabricantes chineses respondem por aproximadamente metade das remessas globais de módulos celulares IoT para aplicações automotivas, segundo a Counterpoint citada pela Reuters.
- 5% a 15% – É a diferença de custo que a Eagle Wireless ainda afirma enfrentar em relação aos concorrentes chineses em seus módulos.
- 2 milhões – A Eagle pretende alcançar capacidade anualizada próxima desse volume de módulos, mostrando a velocidade necessária para construir uma alternativa local.
- Dependência mudou – A discussão deixou de envolver somente mão de obra e produção de baixo custo e passou a incluir engenharia, software, eletrônica, baterias e propriedade intelectual.
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- VCS – Vehicle Connectivity System é o conjunto que permite ao veículo comunicar-se externamente por tecnologias como redes celulares, Bluetooth, Wi-Fi e satélite.
- Módulo de conectividade – Conjunto eletrônico responsável por estabelecer e gerenciar determinadas comunicações entre o veículo e redes externas.
- LiDAR – Sensor que utiliza pulsos de luz para medir distâncias e construir uma representação do ambiente, podendo integrar sistemas avançados de percepção veicular.
- Rastreabilidade da cadeia – Processo utilizado para identificar a origem de componentes, tecnologias e fornecedores presentes nos diferentes níveis de produção de um sistema.


