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Pneus importados já dominam 70% da reposição no Brasil

Entrada de pneus estrangeiros cresce 58,3% até agosto, enquanto vendas das fabricantes instaladas no País recuam 13,3%; setor de carga enfrenta pressão ainda maior.

Sete de cada dez pneus comercializados no mercado brasileiro de reposição já são importados. A mudança aconteceu rapidamente: em 2019, os fabricantes instalados no País ainda dominavam esse segmento. Agora, a indústria local perde volume enquanto as compras externas avançam — e um dos segmentos mais dependentes do transporte rodoviário apresenta números ainda mais extremos.

O mercado brasileiro de pneus passa por uma forte inversão entre produção instalada no País e produtos importados.

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Entre janeiro e agosto de 2026, as importações cresceram 58,3%, passando de 21,6 milhões para 34,2 milhões de pneus, enquanto as vendas das fabricantes nacionais destinadas à reposição recuaram 13,3%, de 16,9 milhões para 14,6 milhões de unidades.

O resultado aparece diretamente na divisão do mercado.

Atualmente, 70% dos pneus vendidos para reposição são importados, contra 30% fornecidos pelas fabricantes instaladas no Brasil.

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Em 2019, a relação era praticamente inversa: 66% do mercado pertencia à indústria instalada no País e 34% aos importados.

Mais do que uma oscilação anual, os números mostram uma mudança importante na origem dos pneus utilizados para substituir aqueles que chegam ao fim da vida útil nos veículos brasileiros.

Pneus de carga: importações mais que dobraram

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O segmento de caminhões e outros veículos de carga apresenta números ainda mais fortes.

Entre janeiro e agosto, as importações de pneus de carga cresceram 116,2%, enquanto as vendas das fabricantes instaladas no Brasil para reposição caíram 9,8%.

Foram comercializados aproximadamente 2,75 milhões de pneus nacionais no aftermarket, ante 3,05 milhões no mesmo período de 2025.

Com isso, os importados passaram a representar 72% do mercado de reposição de pneus de carga, deixando os fabricantes instalados no Brasil com 28%.

A dimensão dessa mudança merece atenção porque o pneu de caminhão é um componente diretamente relacionado a segurança, disponibilidade do veículo e custo operacional.

Além do preço de aquisição, transportadores precisam considerar fatores como durabilidade, resistência ao rolamento, possibilidade de reforma e desempenho ao longo da vida útil.

Importados chegam a 69% nos automóveis e comerciais leves

O mesmo movimento aparece no maior segmento do mercado.

Entre janeiro e agosto, as vendas das fabricantes instaladas no Brasil de pneus para automóveis e comerciais leves destinadas à reposição recuaram 14,1%, passando de 13,8 milhões para 11,9 milhões de unidades.

As importações seguiram a direção oposta: cresceram 47,8%, de 18,3 milhões para 27 milhões.

Consequentemente, 69% desse mercado já é atendido por pneus importados, contra 31% das fabricantes instaladas no País.

A comparação histórica deixa a transformação ainda mais evidente.

Em 2019, os fabricantes nacionais respondiam por 65% desse mercado. Naquele período, entre janeiro e agosto, suas vendas para reposição alcançavam 17,5 milhões de unidades, enquanto as importações somavam 9,4 milhões.

Agora, o volume nacional caiu para 11,9 milhões, enquanto os importados chegaram aos 27 milhões de pneus.

China responde por 81% dos pneus de passeio importados

A China ocupa posição central nesse crescimento.

Entre janeiro e agosto de 2026, 81% dos pneus de passeio importados pelo Brasil vieram da China, totalizando aproximadamente 21,8 milhões de unidades.

Esse volume representa crescimento de 49% sobre o mesmo período de 2025.

Nos pneus de carga, as importações chinesas chegaram a aproximadamente 2,64 milhões de unidades, avanço de 78%.

Existe, porém, uma ressalva metodológica importante nesse último dado.

Segundo a ANIP, foi identificada uma inconsistência no ComexStat referente às importações de pneus de carga da China em julho. A base teria registrado mais de 650 milhões de unidades, quantidade incompatível com a realidade do mercado.

A entidade recalculou julho utilizando o peso líquido das importações e o peso médio dos pneus nos meses considerados consistentes, chegando a uma estimativa de 706,5 mil unidades naquele mês.

Portanto, os números de pneus de carga apresentados pela associação para o período incorporam essa correção metodológica da própria ANIP.

Motocicletas ainda mantêm maioria nacional

Nos pneus para motocicletas, as fabricantes instaladas no Brasil continuam com a maior participação, mas também perderam espaço.

As vendas nacionais para reposição recuaram 3,7%, chegando a aproximadamente 5,8 milhões de unidades entre janeiro e agosto.

As importações cresceram 26,2%, para cerca de 2,8 milhões.

Com isso, a participação das fabricantes locais caiu de 73% em 2025 para 67% em 2026, enquanto os importados avançaram de 27% para 33%.

Em 2019, a diferença era muito maior: 92% dos pneus de moto comercializados na reposição eram fornecidos pela indústria instalada no Brasil, segundo os dados apresentados pela ANIP.

Reposição concentra a pressão

O impacto das importações é particularmente relevante porque o mercado de reposição responde por 62% das vendas das fabricantes instaladas no País.

O fornecimento às montadoras representa os 38% restantes.

Entre janeiro e agosto, as vendas totais dessas fabricantes caíram 8,6%, passando de 25,8 milhões para 23,6 milhões de pneus.

Enquanto a reposição recuou fortemente, as vendas destinadas às montadoras permaneceram praticamente estáveis, com crescimento de apenas 0,4%.

Isso mostra onde está concentrada a mudança: não é principalmente no pneu instalado no veículo novo, mas naquele comprado posteriormente pelo consumidor ou transportador.

Indústria pede mudanças na política de importação

A ANIP vem levando ao governo federal propostas para modificar as condições de entrada dos pneus importados.

Entre as medidas defendidas pela associação está uma tarifa de importação de 35% para pneus de passeio, além da criação de um preço de referência para produtos importados.

Aqui existe uma diferença importante entre o que a entidade defende e o que está oficialmente registrado nas decisões governamentais.

A ANIP informou em abril ter apresentado ao MDIC pedido para elevar a alíquota dos pneus de passeio de 25% para 35%.

Entretanto, na documentação da 241ª reunião do Comitê-Executivo de Gestão da Camex, realizada em setembro, aparece para a NCM 4011.10.00 um pleito da ANIP de renovação da tarifa de 25% por mais 12 meses. A proposta foi mantida na pauta, e não aparece nesse documento como elevação para 35%.

Os 25% atuais haviam sido adotados anteriormente como elevação temporária da tarifa, que era de 16%.

Portanto, 35% deve ser tratado como posição defendida pela entidade, e não como nova tarifa aprovada pelo governo.

A União Europeia, por sua vez, adotou em julho de 2026 direitos antidumping definitivos entre 4,3% e 45,3% sobre determinados pneus de automóveis e comerciais leves originários da China, após investigação que concluiu pela existência de dumping e dano à indústria europeia. Não se trata, portanto, simplesmente de uma tarifa geral de importação de 45,3%.

Destinação ambiental também entra na discussão

A ANIP defende ainda maior fiscalização das obrigações relacionadas à destinação de pneus inservíveis.

Esse ponto também merece uma distinção entre a argumentação da associação e os dados oficiais disponíveis.

O relatório mais recente do Ibama informa que, considerando os dados declarados referentes a 2024, os fabricantes alcançaram 101,26% da meta de destinação, enquanto os importadores atingiram 89,12%. No conjunto, o cumprimento nacional ficou em 94,92%.

O Ibama informa ainda que, desde 2013, realiza operações anuais de fiscalização relacionadas ao cumprimento da Resolução Conama nº 416/2009. No acumulado, foram 727 empresas autuadas e 710 autos de infração, totalizando cerca de R$ 33,5 milhões em multas.

Esses dados confirmam diferenças no cumprimento das metas ambientais, mas não bastam, isoladamente, para validar a afirmação da ANIP de um passivo acumulado superior a 500 mil toneladas pelos importadores.

Mecânica Online® com Tarcisio Dias – Existe um número nessa discussão que considero especialmente importante: 70%.

Quando sete em cada dez pneus vendidos na reposição já vêm do exterior, não estamos olhando apenas para uma variação mensal de importações.

Estamos observando uma transformação na estrutura do mercado.

Mas isso não significa que todo pneu importado seja tecnicamente inferior ou que um pneu produzido no Brasil seja automaticamente melhor.

Origem não substitui avaliação técnica.

Para o consumidor, continuam sendo fundamentais especificação correta, índice de carga, índice de velocidade, aplicação, etiquetagem, procedência e características de desempenho.

No transporte de carga, a análise precisa ir ainda mais longe.

Um pneu aparentemente mais barato pode não representar o menor custo por quilômetro se entregar menor durabilidade, pior eficiência ou menor potencial de reforma. Da mesma maneira, preço mais alto não garante sozinho melhor desempenho.

Existe também uma discussão econômica que precisa permanecer separada da análise técnica do produto.

A indústria instalada no Brasil afirma enfrentar concorrência em condições desiguais e pede medidas tarifárias. Importadores, consumidores, fabricantes e governo podem ter interesses diferentes nessa discussão.

Cabe ao poder público avaliar concorrência, preços ao consumidor, emprego, capacidade produtiva, comércio exterior e eventuais práticas de dumping antes de alterar as regras.

Os números, entretanto, deixam uma constatação objetiva: a origem dos pneus vendidos no mercado brasileiro mudou profundamente em poucos anos.

Em 2019, a indústria instalada aqui dominava a reposição.

Em 2026, os importados ocupam sete de cada dez vendas.

A questão daqui para frente será entender se essa nova proporção representa um equilíbrio duradouro do mercado ou mais uma etapa de uma transformação que ainda não terminou.

Para acompanhar tecnologia de pneus, manutenção, segurança e os movimentos da indústria automotiva brasileira, siga @tarcisiomecanicaonline.

Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia

  • 70% da reposição – É a participação atual dos pneus importados segundo a ANIP; em 2019, eles representavam 34%.
  • 34,2 milhões – Foi o volume importado entre janeiro e agosto de 2026, avanço de 58,3% sobre igual período de 2025.
  • Carga sob maior pressão – As importações desse segmento avançaram 116,2% e alcançaram 72% do mercado de reposição.
  • China lidera – O país respondeu por 81% das importações brasileiras de pneus de passeio no período, segundo a ANIP.
  • Tarifa de 35% não está aprovada – A associação defendeu essa elevação, enquanto a documentação mais recente da Camex registra pleito para renovar os atuais 25% por 12 meses.
  • Questão ambiental – O Ibama registrou cumprimento de 101,26% da meta de destinação pelos fabricantes e 89,12% pelos importadores nos dados referentes a 2024.

Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende

  • Mercado de reposição – Venda de pneus destinados a substituir aqueles já utilizados pelos veículos em circulação, diferentemente do fornecimento original às montadoras.
  • Índice de carga – Código que indica a carga máxima que cada pneu pode suportar dentro das condições especificadas pelo fabricante.
  • Índice de velocidade – Classificação que indica a velocidade máxima para a qual o pneu foi projetado quando utilizado dentro das condições previstas.
  • Antidumping – Medida de defesa comercial aplicada após investigação quando se comprova, segundo as regras pertinentes, exportação a preços considerados de dumping e dano à indústria do mercado importador.
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