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Bateria sem lítio surpreende: caminhão elétrico mantém mais de 90% da capacidade a -40°C
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Bateria sem lítio surpreende: caminhão elétrico mantém mais de 90% da capacidade a -40°C

Tecnologia de íon-sódio desenvolvida na China supera testes de frio extremo em caminhão pesado com bateria de 339 kWh; fabricante prepara fábrica de 10 GWh e amplia aplicações para mineração e coleta de resíduos.

Por Redação Mecânica Online®
9 min

Um caminhão elétrico chinês equipado com bateria de íon-sódio apresentou um resultado que pode representar um avanço importante para o transporte pesado: manteve mais de 90% de sua capacidade utilizável mesmo a -40°C. O desempenho foi anunciado pela FAW Jiefang após quase sete meses de testes com um caminhão J6P, que percorreu mais de 15 mil quilômetros utilizando uma bateria de 339 kWh desenvolvida pela Hina Battery. A tecnologia surge como alternativa às tradicionais baterias de íon-lítio, especialmente em aplicações que exigem resistência a temperaturas extremas. Além dos testes, a fabricante chinesa prepara uma unidade industrial de 10 GWh e desenvolve projetos para caminhões de mineração e serviços urbanos.

A eletrificação do transporte pesado enfrenta desafios diferentes daqueles encontrados nos automóveis de passeio. Caminhões precisam transportar cargas elevadas, percorrer longas distâncias e operar sob condições climáticas variadas.

As baixas temperaturas representam um obstáculo importante porque podem reduzir a energia disponível e limitar a capacidade de recarga de determinadas baterias.

É nesse cenário que as baterias de íon-sódio começam a ganhar espaço como uma alternativa tecnológica, especialmente para veículos comerciais.

Caminhão percorreu mais de 15 mil quilômetros em testes

O veículo utilizado foi um FAW Jiefang J6P totalmente elétrico, equipado com bateria de íon-sódio de 339 kWh.

O programa de validação durou aproximadamente sete meses e incluiu mais de 15 mil quilômetros de utilização, com avaliações em diferentes condições climáticas e operacionais.

Segundo a fabricante, a bateria manteve mais de 90% de sua capacidade utilizável a -40°C, resultado relevante para regiões onde o inverno compromete a autonomia dos veículos elétricos convencionais.

Entretanto, é importante diferenciar capacidade disponível em baixa temperatura de durabilidade ao longo dos anos.

O percentual de 90% refere-se ao desempenho informado no teste de frio extremo, não à retenção da capacidade original da bateria depois de milhares de ciclos de recarga.

Os resultados foram divulgados pelas empresas participantes e não representam, isoladamente, uma comprovação de desempenho equivalente em todos os veículos e condições de utilização.

Como funciona uma bateria de íon-sódio?

O princípio de funcionamento é semelhante ao das baterias recarregáveis de íon-lítio.

Durante a carga e a descarga, íons se movimentam entre os eletrodos, permitindo armazenar e fornecer energia elétrica.

A principal diferença está no elemento utilizado para transportar a carga elétrica dentro da célula.

Enquanto as baterias convencionais utilizam íons de lítio, a nova tecnologia emprega íons de sódio, elemento abundante e amplamente distribuído na natureza.

Essa característica pode reduzir a dependência de determinadas matérias-primas, mas não significa que a fabricação seja automaticamente mais barata.

As baterias comerciais de íon-sódio utilizam componentes específicos, incluindo ânodos de carbono duro, cuja produção exige processos industriais controlados.

A Hina informa densidade energética de pelo menos 145 Wh/kg em determinados produtos e faixa de temperatura operacional entre -40°C e 80°C.

O principal desafio continua sendo a densidade de energia, geralmente inferior à de soluções consolidadas de íon-lítio. Isso pode exigir baterias maiores ou mais pesadas para armazenar a mesma quantidade de energia.

China prepara fábrica de 10 GWh para baterias de sódio

A expansão industrial acompanha os resultados dos testes.

Em outubro de 2026, a Hina Battery firmou acordo com autoridades do distrito de Jiangxia, em Wuhan, para desenvolver uma unidade com capacidade planejada de 10 GWh anuais.

A primeira fase prevê 3 GWh, com início de construção programado para 2027 e expectativa de começar a produção ainda no mesmo ano.

A empresa também estabeleceu parceria com o Chengli Special Automobile Group para desenvolver caminhões elétricos destinados a serviços urbanos.

Entre os projetos estão veículos de coleta de lixo, transporte de resíduos alimentares, sistemas de movimentação de contêineres e caminhões utilizados no controle de poeira.

A previsão é iniciar os procedimentos de homologação do chassi em 2027, antes das etapas de demonstração e produção em pequena escala.

Essas aplicações são consideradas promissoras porque utilizam rotas previsíveis, permitem recargas planejadas e podem acomodar conjuntos de baterias maiores.

Mineração também entra nos planos da tecnologia

A Hina já ampliou os testes para operações industriais.

Em agosto de 2026, a empresa e a Tonly Heavy Industries entregaram um caminhão elétrico de mineração equipado com bateria de íon-sódio de 676 kWh para operação na província chinesa de Hebei.

O veículo representa uma aplicação especialmente exigente, já que caminhões de mineração trabalham com cargas elevadas e ciclos frequentes de aceleração, frenagem e recarga.

Nesse ambiente, a autonomia não é o único fator determinante.

Durabilidade, capacidade de suportar ciclos de utilização intensos e previsibilidade da operação também influenciam a viabilidade econômica.

China cria incentivo tributário para baterias sem lítio

O avanço tecnológico ocorre em paralelo a uma mudança na política tributária chinesa.

Desde 1º de setembro de 2026, determinadas categorias de baterias de íon-lítio passaram a ser tributadas em 2%, alíquota que aumentará para 4% em setembro de 2027.

Já as baterias de íon-sódio qualificadas receberam isenção temporária até 31 de dezembro de 2028, desde que atendam aos padrões técnicos aplicáveis.

A medida cria uma vantagem tributária para a tecnologia alternativa.

Entretanto, a redução recente dos preços do lítio diminuiu parte do potencial de economia associado ao uso do sódio.

A isenção fiscal pode favorecer a competitividade comercial, mas ainda não comprova que uma bateria de íon-sódio custa menos para fabricar do que uma bateria LFP.

Íon-sódio vai substituir as baterias de lítio?

Apesar dos resultados positivos, a tecnologia ainda enfrenta limitações.

As baterias de fosfato de ferro-lítio, conhecidas como LFP, já possuem produção em grande escala, cadeia industrial consolidada e desempenho competitivo em diferentes aplicações.

O íon-sódio apresenta características interessantes em ambientes frios e pode diversificar o fornecimento de matérias-primas.

Por outro lado, sua menor densidade de energia representa uma dificuldade para veículos que dependem de grande autonomia com massa reduzida.

Por isso, a tendência é de utilização complementar entre diferentes tecnologias, com o íon-sódio encontrando espaço inicialmente em aplicações nas quais suas características ofereçam vantagens concretas.

O avanço também depende da ampliação da produção industrial, da redução dos custos e da comprovação de durabilidade em operações comerciais prolongadas.

Mecânica Online® com Tarcisio Dias – O teste realizado pela FAW Jiefang demonstra uma possibilidade importante para o desenvolvimento dos caminhões elétricos: utilizar baterias com características diferentes conforme a aplicação do veículo.

A manutenção de mais de 90% da capacidade utilizável a -40°C é um resultado relevante, principalmente porque temperaturas muito baixas podem comprometer o desempenho das baterias e limitar a autonomia.

Entretanto, o dado não deve ser interpretado como uma vantagem definitiva sobre todas as baterias de íon-lítio, pois o comportamento depende da composição química, do gerenciamento térmico e das condições do teste.

Também é necessário observar a relação entre energia armazenada e massa.

Uma bateria com menor densidade energética pode exigir mais peso para oferecer autonomia equivalente, afetando a capacidade de carga útil do caminhão.

Em aplicações como coleta de lixo, mineração e transporte em rotas definidas, essa limitação pode ser administrada de maneira diferente daquela encontrada no transporte rodoviário de longa distância.

Outro aspecto importante está na manutenção e na gestão energética.

Os caminhões elétricos dependem da integração entre baterias, motores, sistemas eletrônicos e gerenciamento térmico para preservar desempenho e eficiência.

A chegada de uma nova composição química exige sistemas de controle adaptados às características das células e procedimentos específicos de segurança e diagnóstico.

Para o Brasil, a tecnologia merece acompanhamento, especialmente pelo potencial de diversificação das baterias utilizadas em veículos comerciais.

Entretanto, os benefícios relacionados ao frio extremo possuem relevância diferente em nosso clima. Custos, durabilidade, capacidade de carga e disponibilidade de assistência técnica serão fatores decisivos.

O resultado chinês não significa o fim das baterias de lítio, mas demonstra que a eletrificação dos caminhões poderá utilizar diferentes soluções de armazenamento de energia conforme as necessidades de cada operação.

Para acompanhar caminhões elétricos, baterias de sódio, transporte pesado e novas tecnologias de eletrificação, siga @tarcisiomecanicaonline.

Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia

  • -40°C – Temperatura extrema utilizada nos testes da bateria.
  • Mais de 90% – Capacidade utilizável mantida na condição de frio informada pela fabricante.
  • 339 kWh – Capacidade da bateria instalada no FAW Jiefang J6P.
  • 15 mil quilômetros – Distância superada durante aproximadamente sete meses de testes.
  • 676 kWh – Capacidade da bateria utilizada no caminhão elétrico de mineração.
  • 10 GWh – Capacidade anual planejada para a fábrica de Wuhan.
  • 2028 – Ano de encerramento previsto da isenção tributária chinesa para baterias de íon-sódio qualificadas.

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  • Bateria de íon-sódio – Sistema recarregável que utiliza o movimento de íons de sódio para armazenar e liberar energia elétrica.
  • Bateria LFP – Bateria de íon-lítio com composição química baseada em fosfato de ferro-lítio.
  • Densidade energética – Quantidade de energia armazenada em relação à massa ou ao volume da bateria.
  • kWh – Quilowatt-hora: unidade utilizada para medir a quantidade de energia armazenada na bateria.
  • GWh – Gigawatt-hora: unidade equivalente a um milhão de quilowatts-hora, utilizada para dimensionar grandes capacidades de produção e armazenamento.
  • Gerenciamento térmico – Sistema responsável por manter baterias e componentes elétricos dentro das temperaturas adequadas de funcionamento.
Bateria sem lítio surpreende: caminhão elétrico mantém mais de 90% da capacidade a -40°C